terça-feira, 29 de abril de 2008

Portugal e os Portugueses - D.Manuel Clemente


A poesia como reconhecimento

Compreende-se assim que o melhor Portugal seja poético, ou seja, mais feito do que construído, mais desligado da prosa e das contas. Melhor porque maior, só assim o podendo ser, sem restrição geográfica. Com tanta água territorial, o mais de Portugal é mar…
Talvez por isso mesmo, a melhor ideia que temos de nós próprios provém da poesia e não da prosa. Desta última guardamos sobretudo o que nos distancia de nós próprios, entre a ironia e o sarcasmo. Pensamo-nos mais altamente à maneira de Camões do que à maneira de Eça. Ou, deste último, recolhemos as páginas mais «poéticas» que nos dedicou n’ A Cidade e as Serras.
Ou seja, quando nos relacionamos bem com Portugal, fazemo-lo com um país mais sentimental do que mentalmente definido, como se a espuma das ondas nos toldasse a visão. E tanto assim é que o nosso próprio movimento – terrestre que seja – continua a ser marítimo, mesmo para quem nunca sulcou as ondas: estamos sempre a «embarcar», como se a viagem mais trivial se sublimasse também. Até as nossas serras têm «naves»…
É da poesia que advém ainda a nossa permanente disponibilidade para o milagre. O «milagre português», no caso. Não há época da nossa história em que tal não aconteça, emblematicamente. É certo que, para a Fundação, o «milagre» de Ourique é projecção posterior, como foi ultimado. Mas, mesmo um autor tão rigoroso e detalhado como Fernão Lopes se espanta e nos espanta com o «milagre» de Aljubarrota ou de Nun’Álvares. Para a Restauração, tudo é «milagroso», das profecias de Bandarra ao futurismo do Padre António Vieira. E daí para cá, não faltaram prenúncios nem salvadores, mesmo em tempos mais razoáveis e pragmáticos. Continuamos
absolutamente disponíveis, uma vez que qualquer concretização ainda será pequena para o tamanho que demos à memória. Nascem daqui as «saudades do futuro», que vários escritores nos atribuíram, certeiramente aliás.
Daqui provêm também duas caracterizações: o nosso tempo é descontínuo; a nossa relação mútua pode desapontar-nos. O tempo contínuo e programado é próprio de sociedades previstas e de longo prazo. Também o temos, decerto. Mas creio ser frequente ouvirmos expressões que abrem antes para a surpresa ou o devaneio, na projecção dos dias. É um velho debate, que importa retomar em termos diferentes de há um século. Mas é bem possível que o singular percurso histórico que nos moldou, com tantos momentos inesperados, nos tenha tornado pouco propensos a uma consideração linear do devir pátrio ou mesmo pessoal. Igualmente nos decepcionamos facilmente quando constatamos que os outros ficam aquém dos modelos com que os prevíamos. Em Portugal – sem que tenhamos disso o monopólio – é fácil ser-se tudo hoje e quase nada manhã. Mas também é fácil que tudo acabe por se relativizar, pela mesma indefinição dos contornos e esvaimento do concreto que se referiu acima.
Aliás, oscilamos entre a beleza das coisas pequenas e uma persistente
disponibilidade para os grandes momentos. Um certo «regresso ao campo», de fim-de-semana, férias ou reforma; a inesgotável popularidade dos filmes de há sessenta anos; o reencontro do artesanato; a constante utilização do sufixo «inho/a», mesmo nas coisas mais utilitárias e prosaicas: tudo nos reencontra num certo «Portugal dos pequeninos», oxalá próximo da primeira bem-aventurança. O imenso gosto pela festa, como interrupção das linearidades, traz-nos um devaneio que suporta o dia-a-dia. Aliado a algum sentido prático, tem originado empreendimentos criativos e consequentes, que vão muito além de ocasionais recordes do Guinness, prémios de inventores e registos de patentes.
Título: Portugal e os Portugueses
Autor: D.Manuel Clemente
Editor: Assírio & Alvim

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