terça-feira, 29 de abril de 2008

Conferências de Imprensa e Teoria da Poesia



A partir de hoje, às terças-feiras, poderão ler as minhas crónicas no portal Rascunho. As mesmas serão também publicadas neste blogue.

Nas últimas semanas pudemos ver, por mais do que uma vez, Fernando Chalana, treinador do SL Benfica, declarar em conferências de imprensa que, os maus resultados «são coisas que acontecem». Ouvindo esta frase repetida, não posso deixar de pensar que o Chalana terá sido enganado pelos poemas de Alexandre O’Neill quando este diz que, na poesia, «não há p’la certa». Como é que pensar que não pode haver certezas na poesia pode levar um treinador de futebol a aceitar os seus maus resultados, é isso que eu quero descobrir com este texto.

O poema de Alexandre O’Neill que refiro aqui tem como título Em todo o acaso e foi publicado originalmente em 1958, um ano antes de ter nascido Fernando Chalana. No poema, O’Neill explora o mito do planeamento do poema, uma teoria querida aos neo-realistas, que acreditavam na poder transformador do poema, ou no poema como participante da revolução social. Recorrendo à ironia, O’Neill explicava aos «poetas» que sendo impossível ter certezas na realização do poema, a única esperança que se poderia ter seria acertar «um verso por ano».

Estou certo que Fernando Chalana terá lido este poema, mas não terá percebido, primeiro, que ser um génio do futebol não equivale a ser um génio da literatura, segundo, que entre ser-se jogador e treinador vai alguma distância, terceiro, que acertar «um verso por ano», em futebol, é pouco, talvez não o sendo na poesia. Explico: por se pensar que o plano não é o essencial, não se deve passar logo à etapa de excluir o plano. O’Neill é prova provada disso mesmo. Segundo, se bem que o poeta pode acabar por perceber os erros do plano, «em todo o acaso», há que acertar «um verso por ano». Estabelecido este mínimo, será bom de se conseguir um pouco mais. Pensar que “as coisas acontecem” é pedir de menos. Aprender a ler um poema, não é, em todo o caso, uma dessas coisas.

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