terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Uma leitura de O anjo literário, de Eduardo Halfon


O anjo literário é o primeiro romance de Eduardo Halfon publicado em Portugal e leio-o pouco depois de ter entrado na sua obra através de um conto publicado na revista dos Correntes d'Escritas, curiosamente, o primeiro de um livro de contos a publicar este ano em Espanha. Antes de ler esse conto, passei alguns dias com o Eduardo, tendo a oportunidade de ficar a conhecer o seu ambiente literário, a sua oficina de escritor, a sua visão dos homens. Terei começado a conhecer este autor ao contrário?

No conto, Twaineando, percebe-se de imediato qual o campo de acção de Eduardo Halfon - ali está já marcadamente presente o narrador autoral, pleno de características semelhantes às do próprio autor -, viver e ser vivido dentro da literatura. Não seria sequer necessário chegar ao seu livro para perceber que estamos perante uma vítima do Mal de Montano - o cabelo rarefeito, uma barba forte, pontuada de cinzentos, os óculos redondos, o corpo magro, de gestos muito lentos, desenhando com os dedos as ondas que lhe saem pela boca feito palavras.

Nas páginas de O anjo literário, encontramos pedaços de vida de vários autores, como Hesse, Hemingway, Carver, Piglia, Nabokov, Vila-Matas, que entram na trama do texto a partir dos momentos em que se iniciam na escrita. A origem do livro parecem ser uns contos biográficos sobre autores, mas essa ideia parece-me desmentida (e desmitificada) ao longo das páginas de O anjo..., visto que está sempre presente na narrativa (?) (explicarei mais à frente este ponto de interrogação) a experiência do escrever do próprio texto, a presença de Eduardo Halfon, engenheiro, neto de libanês e de polaco, guatemalteco, escritor. Como diria Pedro Eiras, "estamos perante alguém que, notoriamente não é o autor" Eduardo Halfon. (sim, coisa de Montanos).

A dúvida que nos poderá trazer este livro é, de facto, a sua classificação. Rejeitando eu a ideia de que se tratam de contos, e utilizando a noção de romance, no início deste texto, de um modo ligeiro, parece-me também óbvio que será difícil encontrar uma narrativa (ou pelo menos, um fio narrativo) dentro deste texto. O que acontece é um cruzamento de pequenas narrativas que se ligam entre si apenas na sua temática, uma temática demasiado abstracta para que se possa assinalar nas ligações entre os diferentes parágrafos mesmo dentro de um capítulo. A temática da iniciação na escrita, como a de um momento de intervenção do inexplicável. Não me parece, ainda assim, que se faça a defesa do divino - o anjo literário é um efeito terreno, racional e corporal, onde pessoas como as outras vêem na escrita o seu único destino.

Este livro surge então no mercado português como um pequeno diamante para aqueles que, como eu, percorrem as prateleiras das livrarias em busca dos segredos mais bem guardados da literatura. Numa escrita leve, com poucas rasteiras que não sejam da ordem das coisas no nosso pensamento, Eduardo Halfon prende-nos ao seu texto, não só obrigando a uma leitura feita de uma penada, mas querendo que fiquemos no texto como quem fica numa casa onde todos os pormenores terão que ser descobertos. Até que, enfim, também nós sejamos tocados pelo anjo.
Título: O anjo literário
Autor: Eduardo Halfon
Editora: Cavalo de Ferro

1 comentário:

  1. Cada vez mais os livros são difíceis de classificar, fruto do contexto contemporâneo em que vivemos. E ainda bem que assim é, de rótulos está o mundo cheio.

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