quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Entre dois rios e outras noites - Ana Luísa Amaral


se tudo fosse só êxtase súbito
(7 andamentos)


I
A partir de certa falta de sono, as coisas surgem com mais nitidez.
Algumas têm até o privilégio de pairar por detrás de lentes.
Côncavas ou convexas, e as coisas diminuindo ou aumentando
de tamanho, mas sempre nítidas.
Queria ser abrangente ao falar delas, dessas pequenas coisas.
Não só desses dois rios que me formaram, mas de outros inerentes,
embora de rios nem o disfarce tenham.
O corpo deitado na cama, ao lado de outro corpo, o calor do
outro corpo parecendo aconchegante. Do outro lado do espelho,
o coração: ao mesmo tempo vitorioso e tímido, a desejar muralhas
a quebrar-se, o mar visto do alto das ameias. Finalmente, o
que não é nem coração nem corpo, e todavia de corpo e coração
também forjado, pensamento a deixar-se envolver pelos olhos
fechados. Tímido e terno.
Só aí a utópica vitória.


II
Duas linhas de amor:
a minha escrita
a falhar contra o vento
E na sala a espreitar,
fantasma súbito
real ou tanto,
como o que espreita o sono
desta sala
A minha escrita não ilude essas formas,
não as alteia em conjugações simples:
só as repete e sobra:
antes de tudo,
igual a tudo,
quantos fantasmas mais
E as poucas vezes que te permito
são vezes frágeis,
são vezes de papel

III
Mas do necessário nada sabia. E se o verso se molda até onde se
quer, se o verso pode ser tanto montanha como campo lavrado
ou montra de cidade, assim não é a história, que se não alimenta
sem algumas linhas de vida ao menos o sangue necessário.
Pode não ser para o corpo inteiro, mas para os braços ou para a
cabeça, e ele depois circulará, sozinho e livre pelo resto do corpo.
Assim não é a história: como a vida.


IV
Se tudo fosse só êxtase súbito,
o papel intocável e intacto,
como o meu espaço e tu entrando devagar,
as portas que te abri
abrindo para a luz
Se tudo fosse só papel de prendas,
laços e colorido,
a festa do meu espaço
– e de ti no meu espaço –
as coisas consonantes

V
Do verso podia até dizer que no seu corpo navegara, e as sementeiras
dos seus olhos (isto em imagens que não fossem gastas como
essas, que lhe eram só exemplo mental da voz sem ser ouvida).
Do verso podia dizer tudo isso e ir buscar indefinidos ao definido
que qualquer gente sabe por ouvir. E fazer coisa sólida: sem
precisar da verdade da navegação, ou da semente a crescer até
flor e mercado de cidade.
Mas a história não é assim como o verso. Não se recata em
bolsas de sentido que se basta a si mesmo, precisa de comércios
com a vida a sério. E só depois pode ser uma história, pequena
narrativa desaguada, aluvião depois, e os campos férteis.
O que sabia não servia de história: só murmúrio alteado pela
noite.


VI
Duas linhas de amor,
a minha escrita
a falhar contra o vento
Antes de tudo, igual a tudo,
os fantasmas persistem,
sonolentos
Noite após noite,
abandonam o quarto em acalmia
e trocam de vestido
Põem de lado o branco
o sol,
e de negro enfeitados
para na noite
de novo proceder ao massacre
Até à madrugada,
quando o sono: mais forte
e esse lado do espelho
os acolhe outra vez

VII
A lua outra vez lua a adormecer
serena, duas linhas
de amor, não sou
capaz de mais: não eras tu,
mas eu que não te achava
na confusão de tanto nomear
E o teu nome ficou,
as tuas mãos, os braços verdadeiros,
condenados a folhas de resguardo:
pendentes sobre mim
duas espadas
Como duas tendências
de voar –


Título: Entre dois rios e outras noites
Autora: Ana Luísa Amaral
Editor: Campo das Letras

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