terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Demasiado Humano - Entrevista a Eduardo Halfon

Eduardo Halfon nasceu em 1971, na cidade de Guatemala. Estudou Engenharia Industrial na Universidade de North Carolina State, nos Estados Unidos. Durante oito anos foi catedrático universitário de Literatura. Publicou Esto no es una pipa, Saturno (2003), De cabo roto (2003), O anjo literário (2004, com edição portuguesa pela Cavalo de Ferro, 2008) e Siete minutos de desassossego (2007). Este ano publicará um novo livro, El Boxeador Polaco, na Editorial Pre-Textos. A sua obra está também traduzida para o sérvio. Em 2007 foi nomeado como um dos melhore jovens escritores latinoamericanos pelo Hay Festival de Bogotá. Vive em Espanha.

Tendo-nos conhecido por ocasião dos Correntes d'Escritas 2008, e depois de já ter publicado aqui uma leitura do seu livro publicado em Portugal, eu e o Eduardo trocámos alguns e-mails que resultaram neste diálogo sobre a sua obra e a sua visão literária.

Como é o teu anjo literário?

O meu anjo literário é uma merda. Chegou sem que eu o chamasse, ou, pelo menos, sem que eu o chamasse conscientemente, que é justamente quando gosta mais de chegar. Mas recordo que o podia pressentir em algum lugar, como uma mãe, suponho, pode pressentir no peito a fome do seu bebé, e então não lhe resta outra opção senão correr a alimentá-lo. E ainda que a metáfora não seja exacta, pois não foi no peito que o senti ou pressenti, e também não lhe poderia eu mesmo dar de mamar (foi mais o inverso), não tive outra opção que correr a encontrá-lo. Ali estava o meu anjo literário, a sorrir-me com picardia, bonito, seduzindo-me, tentando-me a obedecer-lhe. E eu obedeci. E continuo a obedecer. Uma pessoa começa a escrever não porque queira, mas porque não tem outra opção. Uma pessoa continua a escrever não porque queira, mas porque não tem mesmo outra opção.

No teu livro O anjo literário encontramos Vila-Matas, Carver, Piglia, Hesse, Hemingway, como os pilares centrais da obra. Esses autores entraram no livro escolhidos pelas suas histórias de vida ou são os teus escritores preferidos, as tuas influências maiores?

Alguns dos escritores que aparecem, ou por acaso flutuam, nas páginas do livro, chegaram ali porque as suas obras foram fundamentais para mim, seja como pessoa, como leitor ou como escritor. Outros, por amizade. Outros, por casualidade. Outros por acidente. Significa isto que eu não tinha um critério definido para os selecionar, eles iam surgindo da mesma forma que o anjo, sem serem invocados. Mas também não tinha em mente qualquer tipo de favoritismos ou intenções políticas, o que responde parcialmente à pergunta de uma amiga portuguesa sobre a ausência de mulheres escritoras no livro.

Em “Lejano”, um dos contos do teu próximo livro, a personagem do Professor Eduardo diz que as suas aulas são politicamente incorrectas quando lhe perguntam, exactamente, pela ausência de mulheres escritoras nas suas aulas. Nesse mesmo conto existe uma personagem, Annie, que se aproxima do professor, talvez com alguma intenção romântica, não assumida ou sequer compreendida como tal, pela personagem. Qual é o papel das mulheres no teu universo literário?
As mulheres são a força do meu universo, literário e não literário. São uma força segura, decidida, definida, absolutamente necessária, e talvez por isso mesmo a sua aparente ausência. Estão, ainda que não estejam. Ou seja, elas são todo o contrário da debilidade masculina, da incomprensão, da fraqueza e cobardia dos homens desse universo onde me incluo.

Os principais escritores da Guatemala, Miguel Angél Astúrias e Augusto Monterroso, saíram do país para desenvolver a sua carreira literária, o mesmo que aconteceu contigo. É importante para um escritor de um pequeno país procurar os países que estão no centro do poder mundial para que possam ver crescer a sua visibilidade e influência?

É quase um cliché dizer que o caminho literário para a América Latina se faz através de Espanha. Ainda assim, não deixa de estar certo. Talvez só um país com força editorial, como Espanha, é capaz de projectar ou lançar ou distribuir a obra de um escritor. E ainda que não seja uma regra, é um fenómeno bastante comum na literatura guatemalteca. Miguel Angél Astúrias e Tito Monterroso saíram. Rodrigo Rey Rosa, o escritor guatemalteco actual mais reconhecido internacionalmente, também viveu em Nova Iorque e em Marrocos, com Paul Bowles. No meu caso, estive fora quase a vida inteira. Primeiro nos Estados Unidos, onde passei a minha infância e adolescência, durante quase 15 anos. E agora em Espanha, onde estou há cerca de um ano. Mas a minha obra já tinha sido publicada antes. Os meus livros começaram a publicar-se em Espanha enquanto eu estava ainda na Guatemala. O que é uma outra forma de sair.

Na tua obra publicada encontramos um livro de contos, uma novela, um livro com duas novelas misturadas, O anjo literário, que é de difícil classificação, e agora preparas para lançar um conjunto de contos, El Boxeador Polaco. É importante para ti, no momento de escrever, saber se o que preparas é um conto ou uma novela? E como fazes as opções de publicação dos teus livros? Como te decides?

Não podia ser menos importante. Escrevo sem pensar em nada mais que a história que quer ser contada, e quase nem isso, deixo que a história se conte a si mesma, através de mim. O difícil é aprender a escutá-la, porque cada história, se alguém acontece escutá-la, tem uma maneira absolutamente única de ser contada. O anjo literário precisava de ser escrito assim, jamais o pensei ou questionei, pelo menos conscientemente. El Boxeador Polaco, o meu novo livro, foi nascendo aos poucos. Escrevia cada conto, crendo que escrevia contos distantes uns dos outros, sem dar-me conta até que terminei o penúltimo, o que dá título ao livro, que todos esses contos estavam intimamente relacionados e que podiam ser lidos como uma novela. E mais: um desses contos, ainda que não possa ou não queira dizer já qual, pediu-me para continuar e eu obedeci, acabando agora de o terminar enquanto novela. Como tu próprio afirmas, os meus livros são de difícil classificação. Não só não creio na pureza dos géneros (toda a literatura é mestiçagem, hibridez), como também a própria palavra pureza, quem sabe devido às minhas raízes judías, me provoca um profundo desassossego.


Pode-se então dizer que, para ti, escrever é um dom que te foi passado por algo superior ao humano?

Existem dois momentos, ou melhor, dois talentos literários. O primeiro é artesanal. Ou seja, aprender a usar a linguagem como ferramenta, tornarmo-nos artesãos da palavra. Mas, ainda que o caminho da arte seja através do artesanato, o artesanato não é uma arte. Existe um segundo momento literário, então, muito mais escorregadio, muito mais obscuro, que tem a ver com o intangível, com o atrevimento, com o querer meter as suas mãos na sujidade ou no coração ou no magma a ferver. Isso que tu chamas de dom e eu não saberia como chamar. Algo não superior ao humano, mas demasiado humano.

1 comentário:

  1. Para isto serve também a blogosfera. Andar pelas suas casas, entrar mesmo sem ser convidado naquelas onde entrevemos bibliotecas por descobrir. Pegar num livro ainda desconhcido para nós. Sair para a rua, entrar na primeira livraria e comprá-lo. É o caso deste Eduardo Halfon que aqui descobri.

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