sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

manifestação sorridente

Série de cartoon's sobre a luta dos professores.
Ver mais no Anterozóide

as casas, oh, as casas

Os detentores de casas para alugar são pessoas curiosas - eu, se gostasse de saber da vida dos outros, uma das coisas que faria, era pôr uma casa para alugar. Assim, uma pessoa telefona e vê-se logo perante uma série de perguntas: é pessoa só? tem companheira? tem cão? quanto tempo quer ficar aqui? onde trabalha? é da cidade? vem de fora? e têm logo resposta (sem que exista pergunta prévia) para várias outras questões existênciais: olhe que os vizinhos não gostam de animais. Ah, esta rua é muito sossegada. Os seus livros cabem neste móvel porque ele tem muita arrumação. Aqui é tudo do melhor.

Eu sorrio e penso que sim, que é mesmo tudo do melhor.

Atenção, altos e baixos são isto

Eu, que sempre me achei uma pessoa de altos e baixos, tive, durante esta semana, uma sucessão de boas e más notícias, assim, bem intercaladas e arrumadinhas umas ao lado das outras, como não me lembro de alguma vez ter acontecido.

Ou seja, perante uma pessoa de altos e baixos, a sucessão de acontecimentos bons e maus é um tanto surpreendente, porque percebo deste modo que me é impossível controlar as coisas, não está dependente de mim a gestão destas curvas e contra-curvas que me aparecem pela estrada.

O lado bom da coisa é a última notícia ter sido má. Ou seja, não tarda muito, virá aí algo de bom.


P.S: este post não é de esperança nem acaba bem.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O Hipnotizador - Paulinho Assunção

Em Ouro Preto, numa noite fria

Centenas de nomes eu tive pela vida afora.
Foram tantos nomes que não posso nem sou capaz de enumerar
todos eles. Os nomes vinham, apareciam, eu os aceitava.
Alguns duravam em mim o tempo de uma viagem, outros duravam
apenas um dia ou dois, uma noite ou duas, e logo alguém
decidia por novo chamamento. Isto até que outros nomes fossem
em mim aplicados, uns sobre os outros, tal como a folha
rasurada de um palimpsesto.
Tive nomes de guerra, como Cedric, e de paz, como Francisco.
Em certa época, fui chamado por nomes claros, como
Lambert, ou escuros, como o esquisito nome Nigelo. Mas puseram-
me também nomes oceânicos, como Marmaduke, o líder
do mar, e nomes para serem falados em voz baixa, em murmúrio,
em rumor, do modo como são falados os segredos. E este
nome era Esaú.
Hoje me chamam de Ferdinando Flauta Mágica.
Se agora, aqui onde estou, eu viajo pelas recordações, se agora
sou residente das lembranças, se agora me dedico ao único
e insubstituível prazer de relembrar peripécias e aventuras, devo
também dizer que andei por mundos e caminhos em busca das
chamadas coisas inacreditáveis. Ou improváveis. Ou duvidáveis.
Certo é que muitas coisas, das quais me lembro, eu não pude
ver. Não vi Paris em chamas, não vi Londres bombardeada pelos
aviões da Alemanha, não vi a queda de Berlim.
Mas afundei os pés na neve das estepes russas e observei,
como se fossem delicados desenhos e delicadas aquarelas, o voo
do condor sobre a Cordilheira dos Andes.
Mais eu fiz, sim, fiz muito mais do que o novelo dos meus
lembrares pode hoje alcançar. E vi mais, vi muito mais do que
os olhos de um homem sonham um dia ver em nossas sempre
curtas existências. Sim, pois o que vi transborda de uma vida
e vai preencher outras vidas mais, tantas vidas, as inumeráveis
vidas que vazam de uma para outra vida, todas transbordantes.
E viver, talvez, seja água demais para pouca vasilha.
Do que fiz e do que vi, eu digo um pouco.
Provei tâmaras no deserto em dias de solidão e silêncio. Bebi
vinho da adega de uns frades mexicanos, uns frades com enormes
e lustrosos narizes. E viajei, empreendi a perigosa viagem
entre Zedrev e Lumes, duas cidades fantasmas nos desfiladeiros
do rio Got, só para seguir as trilhas de uns anões peregrinos.
Conheci condes e condessas, príncipes e princesas, reis e rainhas,
ladrões, sacripantas, rufiões, putas, bucaneiros, bêbados e
engolidores de facas.
E assisti à floração de cerejeiras em quintais japoneses.
Até que, já em uma curva próxima da minha aposentadoria,
já na ponta das minhas derradeiras, eu recebi a dádiva de um
chamado.
Acabo de dizer que recebi um chamado, mas poderia ter dito
de outro modo. Dizer, por exemplo, que recebi o convite para
um encontro com o mistério do meu nome.
Sim, o meu nome — eis o tema desta história que, toscamente,
e com a respiração desgovernada, eu conto a você, leitor, e
a você, leitora.
A história tem o seu começo numa certa noite de Inverno,
quando me vi na cidade de Ouro Preto, diante de um homem,
diante de inúmeros e terríveis acontecimentos.
Esse homem de quem falo atendia pelo apelido de Língua-
-Solta e possuía uma cicatriz em forma de lua minguante na face
esquerda.
Refiro-me a essa cicatriz, mas só pude enxergar verdadeiramente
a cicatriz quando esse homem de quem falo acendeu um
fósforo na escuridão e segurou o palito aceso perto do rosto.
A cicatriz parecia o resultado de um corte, um corte feito com
certos punhais que, só de imaginá-los, deduzo que eram uns
punhais demoníacos.
Mas enquanto eu via aquela marca em seu rosto sob a luz
ténue e trémula do palito de fósforo, eu nada disse. Nada comentei
com ele sobre aquela cicatriz. Só olhei, calado, o corte,
aquele corte que lhe descia em curva desde perto da costeleta
até o canto da boca. Só olhei para a cicatriz e nada falei.
Ouro Preto dormia encoberta por uma neblina espessa e estávamos
nas proximidades da Casa dos Inconfidentes, bem de
acordo com o que, semanas antes, fora combinado por intermédio
de uma carta.
Essa carta. Sempre há uma carta no dia-após-dia da minha
existência.
Devo dizer que a carta me chegou em hora apropriada, em
dia apropriado, no momento mais apropriado da minha vida
de viajante, justo quando me preparava para o meu refúgio de
leituras e pensares, de silêncios e filosofias, de vigílias e murmúrios.
Refúgio de um viajante que percorreu mundos e caminhos,
e, agora, quieto, em quietude, vê com serenidade os poentes e as
auroras, os crepúsculos e as manhãs, os começos e os fins.
Mas eu mencionei uma carta. Sim, eu disse algo sobre uma
carta.
De todos os modos, peço a benevolência do leitor para falar
disto mais adiante, ao longo da história que contarei. Uma
história que começava ali, ao lado daquele homem, num dos
lugares mais misteriosos da cidade de Ouro Preto.

Título: O Hipnotizador
Autor: Paulinho Assunção
Editor: Campo das Letras

[Correntes d'Escritas] finalmente as minhas olheiras

O Bibliotecário de Babel, José Mário Silva, pediu-me uma opinião sobre as Correntes e captou o momento.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Estudo de Ruy Belo

Ruy Belo nasceu em São João da Ribeira (Rio Maior), 27 de Fevereiro de 1933. Completaria hoje 75 anos. Faleceu em Queluz, a 8 de Agosto de 1978.
A minha homenagem, o poema Estudo de Ruy Belo, publicado no meu livro E como ficou chato ser moderno.

eu, que nunca fui a cambridge
ou sequer recebi um postal mandado por alguém,
reconheço, naquela parte onde tenho consciência de mim,
uma vontade íntima de conhecer
um pedaço daquele relvado onde,
algures num tempo onde tu ainda eras vivo
e eu ainda nem estava perto de ter nascido,
umas das amadas raparigas repousou e leu.
urgente é conhecer, para mim, um leigo,
a força que te conquistaria
e te fizesse dizer, ainda que não muito seguro,
que eras feliz, finalmente feliz,
e perceber como uma rapariga anónima
estendida num relvado pode ser
tão mais inquietante e comovente
que toda uma história da literatura.
o meu reino pela rapariga de cambridge.

Teoria da Literatura Light

Pelo menos a esta distância de segurança, parecem todos fabulosos

Ringo Starr

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Demasiado Humano - Entrevista a Eduardo Halfon

Eduardo Halfon nasceu em 1971, na cidade de Guatemala. Estudou Engenharia Industrial na Universidade de North Carolina State, nos Estados Unidos. Durante oito anos foi catedrático universitário de Literatura. Publicou Esto no es una pipa, Saturno (2003), De cabo roto (2003), O anjo literário (2004, com edição portuguesa pela Cavalo de Ferro, 2008) e Siete minutos de desassossego (2007). Este ano publicará um novo livro, El Boxeador Polaco, na Editorial Pre-Textos. A sua obra está também traduzida para o sérvio. Em 2007 foi nomeado como um dos melhore jovens escritores latinoamericanos pelo Hay Festival de Bogotá. Vive em Espanha.

Tendo-nos conhecido por ocasião dos Correntes d'Escritas 2008, e depois de já ter publicado aqui uma leitura do seu livro publicado em Portugal, eu e o Eduardo trocámos alguns e-mails que resultaram neste diálogo sobre a sua obra e a sua visão literária.

Como é o teu anjo literário?

O meu anjo literário é uma merda. Chegou sem que eu o chamasse, ou, pelo menos, sem que eu o chamasse conscientemente, que é justamente quando gosta mais de chegar. Mas recordo que o podia pressentir em algum lugar, como uma mãe, suponho, pode pressentir no peito a fome do seu bebé, e então não lhe resta outra opção senão correr a alimentá-lo. E ainda que a metáfora não seja exacta, pois não foi no peito que o senti ou pressenti, e também não lhe poderia eu mesmo dar de mamar (foi mais o inverso), não tive outra opção que correr a encontrá-lo. Ali estava o meu anjo literário, a sorrir-me com picardia, bonito, seduzindo-me, tentando-me a obedecer-lhe. E eu obedeci. E continuo a obedecer. Uma pessoa começa a escrever não porque queira, mas porque não tem outra opção. Uma pessoa continua a escrever não porque queira, mas porque não tem mesmo outra opção.

No teu livro O anjo literário encontramos Vila-Matas, Carver, Piglia, Hesse, Hemingway, como os pilares centrais da obra. Esses autores entraram no livro escolhidos pelas suas histórias de vida ou são os teus escritores preferidos, as tuas influências maiores?

Alguns dos escritores que aparecem, ou por acaso flutuam, nas páginas do livro, chegaram ali porque as suas obras foram fundamentais para mim, seja como pessoa, como leitor ou como escritor. Outros, por amizade. Outros, por casualidade. Outros por acidente. Significa isto que eu não tinha um critério definido para os selecionar, eles iam surgindo da mesma forma que o anjo, sem serem invocados. Mas também não tinha em mente qualquer tipo de favoritismos ou intenções políticas, o que responde parcialmente à pergunta de uma amiga portuguesa sobre a ausência de mulheres escritoras no livro.

Em “Lejano”, um dos contos do teu próximo livro, a personagem do Professor Eduardo diz que as suas aulas são politicamente incorrectas quando lhe perguntam, exactamente, pela ausência de mulheres escritoras nas suas aulas. Nesse mesmo conto existe uma personagem, Annie, que se aproxima do professor, talvez com alguma intenção romântica, não assumida ou sequer compreendida como tal, pela personagem. Qual é o papel das mulheres no teu universo literário?
As mulheres são a força do meu universo, literário e não literário. São uma força segura, decidida, definida, absolutamente necessária, e talvez por isso mesmo a sua aparente ausência. Estão, ainda que não estejam. Ou seja, elas são todo o contrário da debilidade masculina, da incomprensão, da fraqueza e cobardia dos homens desse universo onde me incluo.

Os principais escritores da Guatemala, Miguel Angél Astúrias e Augusto Monterroso, saíram do país para desenvolver a sua carreira literária, o mesmo que aconteceu contigo. É importante para um escritor de um pequeno país procurar os países que estão no centro do poder mundial para que possam ver crescer a sua visibilidade e influência?

É quase um cliché dizer que o caminho literário para a América Latina se faz através de Espanha. Ainda assim, não deixa de estar certo. Talvez só um país com força editorial, como Espanha, é capaz de projectar ou lançar ou distribuir a obra de um escritor. E ainda que não seja uma regra, é um fenómeno bastante comum na literatura guatemalteca. Miguel Angél Astúrias e Tito Monterroso saíram. Rodrigo Rey Rosa, o escritor guatemalteco actual mais reconhecido internacionalmente, também viveu em Nova Iorque e em Marrocos, com Paul Bowles. No meu caso, estive fora quase a vida inteira. Primeiro nos Estados Unidos, onde passei a minha infância e adolescência, durante quase 15 anos. E agora em Espanha, onde estou há cerca de um ano. Mas a minha obra já tinha sido publicada antes. Os meus livros começaram a publicar-se em Espanha enquanto eu estava ainda na Guatemala. O que é uma outra forma de sair.

Na tua obra publicada encontramos um livro de contos, uma novela, um livro com duas novelas misturadas, O anjo literário, que é de difícil classificação, e agora preparas para lançar um conjunto de contos, El Boxeador Polaco. É importante para ti, no momento de escrever, saber se o que preparas é um conto ou uma novela? E como fazes as opções de publicação dos teus livros? Como te decides?

Não podia ser menos importante. Escrevo sem pensar em nada mais que a história que quer ser contada, e quase nem isso, deixo que a história se conte a si mesma, através de mim. O difícil é aprender a escutá-la, porque cada história, se alguém acontece escutá-la, tem uma maneira absolutamente única de ser contada. O anjo literário precisava de ser escrito assim, jamais o pensei ou questionei, pelo menos conscientemente. El Boxeador Polaco, o meu novo livro, foi nascendo aos poucos. Escrevia cada conto, crendo que escrevia contos distantes uns dos outros, sem dar-me conta até que terminei o penúltimo, o que dá título ao livro, que todos esses contos estavam intimamente relacionados e que podiam ser lidos como uma novela. E mais: um desses contos, ainda que não possa ou não queira dizer já qual, pediu-me para continuar e eu obedeci, acabando agora de o terminar enquanto novela. Como tu próprio afirmas, os meus livros são de difícil classificação. Não só não creio na pureza dos géneros (toda a literatura é mestiçagem, hibridez), como também a própria palavra pureza, quem sabe devido às minhas raízes judías, me provoca um profundo desassossego.


Pode-se então dizer que, para ti, escrever é um dom que te foi passado por algo superior ao humano?

Existem dois momentos, ou melhor, dois talentos literários. O primeiro é artesanal. Ou seja, aprender a usar a linguagem como ferramenta, tornarmo-nos artesãos da palavra. Mas, ainda que o caminho da arte seja através do artesanato, o artesanato não é uma arte. Existe um segundo momento literário, então, muito mais escorregadio, muito mais obscuro, que tem a ver com o intangível, com o atrevimento, com o querer meter as suas mãos na sujidade ou no coração ou no magma a ferver. Isso que tu chamas de dom e eu não saberia como chamar. Algo não superior ao humano, mas demasiado humano.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Ai que bom!


O Regresso dos Casmurros e seus amigos. Agora em Os Livros Ardem Mal

Musil


No ípsilon de sexta-feira passada, anuncia-se para a breve a já muito anunciada edição d' O Homem sem Qualidades de Robert Musil, traduzido por João Barrento, pela Dom Quixote. Em vez dos anteriormente previstos 4 volumes, agora anunciam-se 2. Será desta?

Teoria da Literatura Light

Várias grandes equipas europeias estão a lutar pelo segundo lugar

José António Camacho

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Blogues, Livros, Livrarias, Bibliotecas e afins

Começaram as nomeações para os prémios Blibie.

Participem aqui.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Somos todos Sérvios Kosovares

Da mesma forma, todos nós, em determinado momento das nossas vidas, sentimos como uma afronta que alguém que nos é tão próximo se sinta independente de nós.

Somos todos Kosovares

Todos nós, em determinado momento das nossas vidas, desejámos que o nosso distrito, concelho, junta de freguesia, bairro, rua, casa, quarto, cama, casaco, fosse independente do resto do mundo.

Amanhã

José Luís Peixoto na Livrododia - Centro Histórico. Às 16h.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Literatura Ilustrada

In a Chesterton mood again
Na Fnac do Chiado apanhei 4 volumes de ficção (é raríssimo encontrá-los). Entre muitos modos de nos encantarmos com o bom G.K. o que mais me absorve agora é a agilidade catequista das novelas. Não escrever teologia e ensiná-la com histórias inventadas. Fantástico.Como estão no inglês nem sempre é fácil absorver com rapidez quem é quem. Uso o truque de desenhar as personagens à medida que são apresentadas.

Tiago Cavaco n' A Voz do Deserto

Quem fala de nós

João Paulo Cuenca, na sua crónica semanal no Jornal Globo, fala de uma visita à cidade do Porto e termina assim (num excerto que ele próprio me leu, ontem, no Centro Comercial Colombo, no final do almoço - este texto, nesta localização, terá aínda vários outros significados a explorar) :

Aqui, tenho a impressão de que todos são familiarmente estranhos a nós, brasileiros. Em suas estações sem catracas, alcançam os trens sem pressa, numa educação que pode ser confundida com letargia – jamais haverá sobressalto nessas multidões. Conversam muito distantes do nosso sotaque conspurcado, da nossa fonética corrupta, da nossa violência de linguagem.
Enquanto caminho de volta para o trem, vejo um ônibus na Praça da Liberdade que anuncia seu destino: “Sonhos”. E penso que, sim, era isso o que estava querendo dizer. Que em tudo aqui há uma inocência que perdemos há muito, e que jamais iremos recuperar. Que, sim, os portugueses são as nossas crianças. Que Portugal, pequenina, é filha do Brasil.
***
Dom Sebastião os proteja.

Entre dois rios e outras noites - Ana Luísa Amaral


se tudo fosse só êxtase súbito
(7 andamentos)


I
A partir de certa falta de sono, as coisas surgem com mais nitidez.
Algumas têm até o privilégio de pairar por detrás de lentes.
Côncavas ou convexas, e as coisas diminuindo ou aumentando
de tamanho, mas sempre nítidas.
Queria ser abrangente ao falar delas, dessas pequenas coisas.
Não só desses dois rios que me formaram, mas de outros inerentes,
embora de rios nem o disfarce tenham.
O corpo deitado na cama, ao lado de outro corpo, o calor do
outro corpo parecendo aconchegante. Do outro lado do espelho,
o coração: ao mesmo tempo vitorioso e tímido, a desejar muralhas
a quebrar-se, o mar visto do alto das ameias. Finalmente, o
que não é nem coração nem corpo, e todavia de corpo e coração
também forjado, pensamento a deixar-se envolver pelos olhos
fechados. Tímido e terno.
Só aí a utópica vitória.


II
Duas linhas de amor:
a minha escrita
a falhar contra o vento
E na sala a espreitar,
fantasma súbito
real ou tanto,
como o que espreita o sono
desta sala
A minha escrita não ilude essas formas,
não as alteia em conjugações simples:
só as repete e sobra:
antes de tudo,
igual a tudo,
quantos fantasmas mais
E as poucas vezes que te permito
são vezes frágeis,
são vezes de papel

III
Mas do necessário nada sabia. E se o verso se molda até onde se
quer, se o verso pode ser tanto montanha como campo lavrado
ou montra de cidade, assim não é a história, que se não alimenta
sem algumas linhas de vida ao menos o sangue necessário.
Pode não ser para o corpo inteiro, mas para os braços ou para a
cabeça, e ele depois circulará, sozinho e livre pelo resto do corpo.
Assim não é a história: como a vida.


IV
Se tudo fosse só êxtase súbito,
o papel intocável e intacto,
como o meu espaço e tu entrando devagar,
as portas que te abri
abrindo para a luz
Se tudo fosse só papel de prendas,
laços e colorido,
a festa do meu espaço
– e de ti no meu espaço –
as coisas consonantes

V
Do verso podia até dizer que no seu corpo navegara, e as sementeiras
dos seus olhos (isto em imagens que não fossem gastas como
essas, que lhe eram só exemplo mental da voz sem ser ouvida).
Do verso podia dizer tudo isso e ir buscar indefinidos ao definido
que qualquer gente sabe por ouvir. E fazer coisa sólida: sem
precisar da verdade da navegação, ou da semente a crescer até
flor e mercado de cidade.
Mas a história não é assim como o verso. Não se recata em
bolsas de sentido que se basta a si mesmo, precisa de comércios
com a vida a sério. E só depois pode ser uma história, pequena
narrativa desaguada, aluvião depois, e os campos férteis.
O que sabia não servia de história: só murmúrio alteado pela
noite.


VI
Duas linhas de amor,
a minha escrita
a falhar contra o vento
Antes de tudo, igual a tudo,
os fantasmas persistem,
sonolentos
Noite após noite,
abandonam o quarto em acalmia
e trocam de vestido
Põem de lado o branco
o sol,
e de negro enfeitados
para na noite
de novo proceder ao massacre
Até à madrugada,
quando o sono: mais forte
e esse lado do espelho
os acolhe outra vez

VII
A lua outra vez lua a adormecer
serena, duas linhas
de amor, não sou
capaz de mais: não eras tu,
mas eu que não te achava
na confusão de tanto nomear
E o teu nome ficou,
as tuas mãos, os braços verdadeiros,
condenados a folhas de resguardo:
pendentes sobre mim
duas espadas
Como duas tendências
de voar –


Título: Entre dois rios e outras noites
Autora: Ana Luísa Amaral
Editor: Campo das Letras

os custos da distribuição

Para a eficaz distribuição de um livro é preciso:

- Um livro agradável ao olhar
- Um nome de autor sonante
- Um título que chame a curiosidade

No entanto, os vendedores dão atenção a:

- Currículo do escritor (não interessa a qualidade do texto)
- Preço do livro (não interessa a beleza da capa)
- Quais os descontos praticados (não interessa mais nada)

Para teres destaque nas grandes livrarias, pagas.
Para estares no top das grandes livrarias, pagas.

No fundo, para a eficaz distribuição de um livro, o que é mesmo preciso é ter dinheiro.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Uma leitura de O anjo literário, de Eduardo Halfon


O anjo literário é o primeiro romance de Eduardo Halfon publicado em Portugal e leio-o pouco depois de ter entrado na sua obra através de um conto publicado na revista dos Correntes d'Escritas, curiosamente, o primeiro de um livro de contos a publicar este ano em Espanha. Antes de ler esse conto, passei alguns dias com o Eduardo, tendo a oportunidade de ficar a conhecer o seu ambiente literário, a sua oficina de escritor, a sua visão dos homens. Terei começado a conhecer este autor ao contrário?

No conto, Twaineando, percebe-se de imediato qual o campo de acção de Eduardo Halfon - ali está já marcadamente presente o narrador autoral, pleno de características semelhantes às do próprio autor -, viver e ser vivido dentro da literatura. Não seria sequer necessário chegar ao seu livro para perceber que estamos perante uma vítima do Mal de Montano - o cabelo rarefeito, uma barba forte, pontuada de cinzentos, os óculos redondos, o corpo magro, de gestos muito lentos, desenhando com os dedos as ondas que lhe saem pela boca feito palavras.

Nas páginas de O anjo literário, encontramos pedaços de vida de vários autores, como Hesse, Hemingway, Carver, Piglia, Nabokov, Vila-Matas, que entram na trama do texto a partir dos momentos em que se iniciam na escrita. A origem do livro parecem ser uns contos biográficos sobre autores, mas essa ideia parece-me desmentida (e desmitificada) ao longo das páginas de O anjo..., visto que está sempre presente na narrativa (?) (explicarei mais à frente este ponto de interrogação) a experiência do escrever do próprio texto, a presença de Eduardo Halfon, engenheiro, neto de libanês e de polaco, guatemalteco, escritor. Como diria Pedro Eiras, "estamos perante alguém que, notoriamente não é o autor" Eduardo Halfon. (sim, coisa de Montanos).

A dúvida que nos poderá trazer este livro é, de facto, a sua classificação. Rejeitando eu a ideia de que se tratam de contos, e utilizando a noção de romance, no início deste texto, de um modo ligeiro, parece-me também óbvio que será difícil encontrar uma narrativa (ou pelo menos, um fio narrativo) dentro deste texto. O que acontece é um cruzamento de pequenas narrativas que se ligam entre si apenas na sua temática, uma temática demasiado abstracta para que se possa assinalar nas ligações entre os diferentes parágrafos mesmo dentro de um capítulo. A temática da iniciação na escrita, como a de um momento de intervenção do inexplicável. Não me parece, ainda assim, que se faça a defesa do divino - o anjo literário é um efeito terreno, racional e corporal, onde pessoas como as outras vêem na escrita o seu único destino.

Este livro surge então no mercado português como um pequeno diamante para aqueles que, como eu, percorrem as prateleiras das livrarias em busca dos segredos mais bem guardados da literatura. Numa escrita leve, com poucas rasteiras que não sejam da ordem das coisas no nosso pensamento, Eduardo Halfon prende-nos ao seu texto, não só obrigando a uma leitura feita de uma penada, mas querendo que fiquemos no texto como quem fica numa casa onde todos os pormenores terão que ser descobertos. Até que, enfim, também nós sejamos tocados pelo anjo.
Título: O anjo literário
Autor: Eduardo Halfon
Editora: Cavalo de Ferro

Vida de Escritor

Adormecer à espera de um anjo.

Para o Eduardo

Era disto que eu estava a falar

Felizmente os meus óculos disfarçam.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

[Correntes d'Escritas] vistas

Isabel Coutinho, no Público de ontem, sobre estes dias.

[Correntes d'Escritas] Bloggers

[Correntes d'Escritas] O Outro Olhar

José Mário Silva, para o DN, sobre o balanço do Correntes d'Escritas 2008.

[Correntes d'Escritas] A noite passada

Domingo, acordo às 11 horas da manhã, no Novotel Vermar, depois de pouquíssimas horas de sono. Acordo e, apesar de todo o cansaço acumulado durante estes dias, a sensação reinante é a de satisfação - não posso esconder que estes dias na Póvoa valem muito mais do que meses de consultas com um terapeuta.

É praticamente impossível fazer um balanço sério e completo de tudo o que se passou. Desde terça-feira pela hora de jantar, quando cheguei, até domingo ao meio-dia, quando íniciei a viagem de regresso a casa, foi um rodopio de mesas de debate, mesas de refeição onde se fala e se conhece imensa gente, mesas de bar onde a conversa e a partilha se prolonga noites fora. É sempre deitar tarde e levantar cedo, porque nas Correntes há uma ânsia de tudo viver, de se pensar que o sono pode ficar para depois.

Dito isto, poderia fazer uma lista de pessoas com quem passei estes dias na Póvoa, mas temo ser, ora repetitivo, ora injusto por esquecimento. Assim, deixo apenas referência a três nomes, porque são esses três nomes que tornam este acontecimento possível na forma que tem. O primeiro de todos é o do vereador Luís Diamantino - conheço-o há três anos sem trocar mais do que algumas palavras de circunstância, mas pelo que dá para perceber, pela observação, só um vereador assim permite que os Correntes tenham o sucesso que tem. De várias Câmaras Municipais que conheço, não consigo adiantar nem mais um vereador que tivesse a coragem de fazer um tal investimento sem meter em causa o profissionalismo de quem trabalha com ele ( a chico-espertice é ainda prática comum das vereações, e fico muito feliz por haver alguém que demonstre que é possível ser de outro modo).

Os outros dois nomes que não posso deixar de mencionar são os da Manuela Ribeiro e do Francisco Guedes. Duas pessoas com uma capacidade de trabalho, organização, serieadade e relacionamento pessoal fora do comum. É raro conhecermos alguém que consiga tudo isto, muito mais raro encontrar duas pessoas a fazê-lo. Para eles dois o meu abraço comovido, à imagem do que trocámos no domingo, no momento da despedida, que, na Póvoa, significa sempre um até para o ano.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

[Correntes d'Escritas] Onesíadas

Onésimo Teotónio de Almeida visitou em São Jorge um antigo emigrante que conhecera nos Estados Unidos. Dizia-lhe ele:

"Sabe, professor, estive sete anos em França e não sei uma palavra de francês. Depois fui dez anos para os Estados Unidos e também não aprendi uma palavra que fosse de inglês. Não sei porquê, professor Onésimo, o português caiu-me bem"

[Correntes d'Escritas] da poesia

Haverá sempre um momento em que um verso vos dará mais jeito do que um livro de cheques

Maria João Seixas

[Correntes d'Escritas] dois é companhia

Mia Couto, ao sair de sua casa, um dia, encontrou dois garotos sentados no muro da sua habitação. Perguntou-lhes o que faziam ali.
- Não estou a fazer nada, respondeu-lhe o primeiro.
Ao olhar para o outro, reforçando a pergunta, levou esta resposta:
- Eu estou só a ajudar o meu amigo.

[Correntes d'Escritas] Sábado de Manhã

Sala cheia. Cheia. Todos os lugares ocupados. Todas as escadas ocupadas. Todos os corredores ocupados. Sala cheia. Cheia.

[Correntes d'Escritas] As noites

O que se fala e acontece nas noites das Correntes d'Escritas fica para os que lá estão.

[Correntes d'Escritas] Aborrecimento

Conta Eduardo Mendoza

Um homem-estátua foi entrevistado; fazia a sua vida em Barcelona e há mais de 4 anos, passava 10 horas por dia como homem-estátua nas Ramblas. Durante a entrevista, anunciou que ia deixar o seu ofício.
- Porquê?, pergunta o entrevistador
- Porque estava a começar a aborrecer-me

[Correntes d'Escritas] A Lembrar

Felizmente a casa dos escritores não é um locus amenus

José Manuel de Vasconcelos

[Correntes d'Escritas] Vida de Escritor

Ignacio del Valle via JJ Armas Marcelo na televisão quando não tinha escrito ainda nenhum romance.

Ignacio del Valle quer ser JJ Armas Marcelo.

[Correntes d'Escritas] Viva la Republica!

JJ Armas Marcelo, nascido em Las Palmas, que brinda com vinho e gritando "Viva la Canaria Libre, Viva la Republica", é o meu companheiro de mesa ao jantar (e nunca se cala!). O homem é uma festa só. Num jantar apenas, fico a saber metade da sua vida, inclusive a forma como se apaixonou e conquistou a sua actual companheira. Ficou prometido para o ano festejarmos o nosso reencontro com um abraço e um festivo "Cabrón!"

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

[Correntes d'Escritas] Suor

O Auditório Municipal da Póvoa de Varzim tem dois níveis de bancada. No de baixo, maior, o ambiente é muito quente, seja do aquecimento ou da sala cheia. No de cima, menor, o ambiente é ainda mais quente.

[Correntes d'Escritas] Olhar/ Ver

digo que via coisas como quem vê o que não existe

valter hugo mãe

[Correntes d'Escritas] Doenças

Nós estamos muito contaminados pela realidade

João Paulo Cuenca

[Correntes d'Escritas] O lugar das coisas


Eduardo Halfon apresentou o livro O Anjo Literário (numa edição da Cavalo de Ferro) dizendo que, pela ordem lógica das coisas, o seu lugar não seria aqui. Nasceu na Guatemala, numa família meio libanesa, meio polaca, e viveu a sua infância numa casa onde não existiam livros nem entrava a literatura. Formou-se em Engenharia e só mais tarde, na sua vida, se apercebeu da força e do poder da palavra literária.

Este seu livro, o primeiro publicado em Portugal, fala da infância de vários autores e da forma como a literatura entrou nas suas vidas. Vai ser o meu próximo companheiro de cabeceira, não tenho dúvidas. Deve-se sempre acariciar e atender a quem, como nós, vive profundamente afectado pela doença da literatura.

[Correntes d'Escritas] Blog Fight

Sentados lado a lado, eu e o José Mário Silva, despenteados e ensonados, a actualizar o blogue.

[Correntes d'Escritas] Maldita bem dita

Tocam os sinos na torre da Igreja
há rosmaninho e alecrim pelo chão
Na nossa aldeia, que deus a proteja
vai passar a procissão





Pelos vistos, sei um poema de cór.

[Correntes d'Escritas] Ler poesia

Na noite de ontem, Luís Machado fez uma sessão de leitura de poesia, acompanhado ao piano por Inês Correia. Esta manhã, na primeira mesa de debate do dia, discute-se a poesia bem dita e a poesia maldita (são assim os temas, por aqui, cheios de rasteiras).

Mesa e auditório parecem-se inclinar-se para encarar a declamação de poesia com um espectáculo de entretinemento, em que o leitor ou diseur deve atrair as atenções de um público quantas vezes afastado da poesia.

Fala-se de poesia lida como se de uma lista telefónica se tratasse ou de poetas que assassinam os seus textos quando os tendem a ler.

Esquece-se, enfim, que a poesia não é palavra, nem som, nem impressão - a poesia é sobretudo um estado de espírito construído. E para tal não me parece nada estranho que alguns poetas nos adormeçam ao ler, em público, os seus poetas.

[Correntes d'Escritas] Cobertura

Não falta matéria para a cobertura jornalística, durante estes dias, na Póvoa de Varzim. A dificuldade maior é mesmo conseguir agendar todos os autores, ler o mínimo de todos os livros, saber quem são todos os presentes no encontro.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

[Correntes d'Escritas] A Voz

A tua voz, escritor, terá que ser, primeiramente e mais que tudo, tua.

Mesmo que isso implique que não te conseguem ouvir.

[Correntes d'Escritas] Uma maneira de ser moralista

André Sant'anna, recorrente convidado de festivais eróticos e pornográficos, autor da trilogia Amor, Sexo e Amizade (publicada em Portugal pelos Livros Cotovia), mineiro, tímido, anuncia-se um moralista, "casado há 18 anos, monogâmico, com uma vida sexual perfeitamente normal e de luz apagada", lê, durante uns 15 minutos, um excerto do seu livro Amor, uma reza plena de sangue, figuras da realeza europeia, povo, jogadores de futebol, bucetas e paus, hipnotizando parte do auditório, irritando outra, que se remexe nas cadeiras, que lhe pede para parar, e ele a ler, sangue, figuras da realeza europeia, acidentes de automóvel, sangue, imagens de campeonatos do mundo de futebol, bucetas, paus, bucetas, o povo, sangue, sangue, ao ponto de, ao fim desses quinze minutos de leitura ter ficado perfeitamente entendido

[Correntes d'Escritas] a lusofonia

Do lado do público, alguém pergunta pela poesia portuguesa e pela poesia lusófona.
Ondjaki diz já se ter habituado, nos congressos, a ouvir falar de Portugal, Brasil e dos Países Lusófonos; "foda-se, somos nós", diria Manuel Rui.

Existe de facto uma barreira invisível entre o português dos nossos e o português dos outros. Uma barreira que se não reconhece, da qual se prefere não falar, misturando países, línguas e culturas em diferentes sacos, conforme às conveniências.

Alguma irritação pela sala, algum desdizer - mas o importante já tinha sido lançado: poder-se-á falar de uma comunidade lusófona onde os pares não se reconheces enquanto tal?

[Correntes d'Escritas] Nunca te tinha visto


o valter é cinco estrelas

[Correntes d'Escritas] Olheiras II

O José Mário Silva também já chegou, mas com olheiras de Lisboa.

[Correntes d'Escritas] Olheiras

Sim, chegaram as olheiras aos Correntes d'Escritas.

Passaram agora duas noites depois do início deste encontro.

[Correntes d'Escritas] Mestre

Juan Carlos Mestre evidencia-se a cada passo. Passeia a sua elegância pelos corredores do encontro, sempre com um sorriso e um afecto para quem se cruza com ele. Depois do depoimentos da tarde, entra em cena na leitura de poesia, munido de uma concertina, para dizer o seu poema Cavalo Morto , naquele que foi o grande momento da noite.

cada amor que acaba é um cemitério de abraços e Cavalo Morto é um lugar que não existe

[Correntes d'Escritas] O Soba das anedotas

Manuel Rui, entre gargalhadas

Sabes que na América vai deixar de haver Casa Branca? Vai passar a haver Casa Mulata.

[Correntes d'Escritas] Olha que três

Eu, o Quiroga e o Michael, na União Portugal - Galiza - Alemanha, junto ao bar, a provar a cerveja da Póvoa, a falar sobre livros, projectos que surgem assim, da conversa lado a lado.

As Correntes também são isto.

[Correntes d'Escritas] O Cão Científico

Quando um cão ladra para outro cão, não ladra como ladra para um homem. O cão sabe que, para o homem, não vale a pena ladrar científicamente

Aurelino Costa

[Correntes d'Escritas] Poesia

Na primeira mesa de debate, memoráveis palavras de Juan Carlos Mestre, Aurelino Costa, Manuel Rui, Carlos do Carmo e Manuela Azevedo, a dar a palavra a voz, a voz à palavra. Depoimentos pessoais, poéticos e intensos, cheios de intimidade.

Sair do Auditório com uma vontade imensa de chorar.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

[Correntes d'Escritas] Gastronomia e Mesa

Uma boa parte do Correntes d'Escritas faz-se sentado à mesa - dos restaurantes, do bar do hotel. Ao almoço de hoje, partilho a conversa com João Paulo Cuenca, brasileiro, e Eduardo Halfon, guatemalteco. A conversa passa por Espanha, Brasil e Portugal, memórias de outros encontros, curiosidades sobre os momentos da literatura em cada uma das latitudes. Come-se Bacalhau Assado no Forno. Como diz o Ricardo Duarte, do JL, temos que estar preparados para o "roteiro gastronómico".

Durante a conversa, percebe-se que mercados português e espanhol estão ao mesmo nível, mais coisa menos coisas, número de exemplares por edição e preços de livros são a mesma coisa. Eduardo confessa que está agora mais tranquilo, enquanto escritor, devido aos avanços que vai recebendo. Cuenca, o brasileiro, dois romances publicados na Rocco e cronista do Globo, diz que devido ao jornal (com uma edição média semanal de 350 mil exemplares), já é reconhecido."É aí que eu quero estar", diz. Sem dúvida, um bom lugar.

[Correntes d'Escritas] a polícia

Uma carrinha da Polícia ameaça multar alguns dos carros que estão parados em frente ao Casino. Daniel Mordzinski, fotógrafo de serviço, corre, em busca de "acçã0".

Não deu em nada.

As Correntes seguem dentro de momentos...

[Correntes d'Escritas] os prémios

E o vencedor do Prémio Literário Casino da Póvoa é o Ruy Duarte Carvalho, com o livro desmedida, que saiu pelos Livros Cotovia.

E a vencedora do Prémio Correntes d'Escritas/ Papelaria Locus é Leonor Campos, pseudónimo de Maria Beatriz Moura, de Fânzeres, Gondomar.

(Ah, e no Casino da Póvoa, onde se realizou a sessão de abertura, fuma-se no Hall)

[Correntes d'Escritas] os grandes

Hoje de manhã, à saída do hotel, logo após o pequeno-almoço, deu-se pelo aparecimento dos grandes grupos editorias: uma dúzia de smart's no parque de estacionamento, cada um deles a divulgar a imagem de um autor da Dom Quixote.

[Correntes d'Escritas] abertura

Já começou.

Cheguei à Póvoa de Varzim perto das 20 horas de ontem, terça-feira, e já toda a gente se preparava para o jantar. Os reencontros entre aqueles que aqui aportam todos os anos deram-se entre abraços e sorrisos. O Waldir Araújo estava ansioso, porque ainda não tinha sequer visto o seu livro. Levei-o até ao carro e teve direito a ser o primeiro, aqui na Póvoa, a passar os dedos pelas páginas, agora publicadas, com os seus contos. O homem anda feliz e nervoso, a apresentação, ontem à noite, foi um sucesso. O Ondjaki, que já lhe havia prefaciado o livro, fez as honras da casa e convidou a assistência a ler o livro. O Waldir, apesar do treme-treme das mãos, também se saiu muito bem, e não hesito em dizer que fomos os reis das apresentações, ontem à noite, no Novotel Vermar.

A noite seguiu longa. Eu, a contas com a renite alérgica, retirei-me mais cedo, mas dizem as más-línguas, e as olheiras, que a primeira noite dos Correntes quase chegou ao segundo dia.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Actualidade

A única actualidade que sou capaz de debater é a influência do varrer o escritório na inflamação alérgica das vias respiratórias

Fim-de-Semana

Sucessão de horas em que se chora, canta, beija, grita, vê-se futebol em quantidades (quase) industriais e se descobre que o preço das casas não é bem aquilo que se esperava.

Sensações estranhas

Quando discuto com a minha mãe, fico igual ao meu pai

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

9º Correntes d'Escritas na Póvoa de Varzim

Decorrerá durante a próxima semana a 9ª edição do Encontro de Escritores de Expressão Ibérica, Correntes d'Escritas, na Póvoa de Varzim. Coloco aqui a programação oficial dos Encontros onde destaco a presença da Livrododia Editores com a apresentação do livro Admirável Diamante Bruto e Outros Contos, na Terça-feira, dia 12, e a presença de Uberto Stabilie, autor do livro Só Mais Uma Vez, na 2ª mesa de debates, na Quinta-feira, dia 14.

terça, dia 12
22h00
Lançamento de Livros:
Admirável Diamante Bruto e outros contos, de Waldir Araújo
Antologia da Poesia Brasileira do 3º. Milénio, Org. Cláudio Daniel
Hangares do Vendaval, de Luís Serguilha
Música de Viagem, de Cristino Cortes
Primeira Antologia de Micro-ficção Portuguesa, Org. Rui Costa
. Novotel Vermar
23h00
“Cantata para o honorável bandido chileno Joaquín Murieta”, pelo Teatro Art’Imagem, do Porto (baseado em texto de Pablo de Neruda, com encenação de Roberto Merino)
. Novotel Vermar

quarta, dia 13
11h00
Sessão Oficial de Abertura de Correntes d’ Escritas Assinatura dos Protocolos entre a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim e o Casino da Póvoa e a Papelaria Locus para atribuição dos Prémios Literários Casino da Póvoa e Correntes d’ Escritas Papelaria Locus, respectivamente, para 2009.
Anúncio dos vencedores dos Prémios
Literários Casino da Póvoa e Correntes d’ Escritas Papelaria Locus de 2008 Lançamento da Revista Correntes d’ Escritas VII, Dossiê dedicado a Eduardo Prado Coelho.
. Casino Da Póvoa

15h00
Conferência de Abertura
Marcelo Rebelo de Sousa Tema: A Importância dos Livros Moderação: Maria Flor Pedroso
. Auditório Municipal

17h00
1ª Mesa: Dar a Palavra à Voz
Aurelino Costa Carlos do Carmo Juan Carlos Mestre Manuel Rui Manuela AzevedoAna Paula Tavares (moderadora)
. Auditório Municipal

19h30
Abertura da Exposição de Fotografias “Moçambique de Hoje”, de Luís de Almeida
. Biblioteca Municipal Rocha Peixoto

21h45
Exibição do Filme “Oxalá Cresçam Pitangas”, de Ondjaki e Kiluanje Liberdade, com a presença dos realizadores Organização: Cineclube Octopus
. Auditório Municipal

22h00
Lançamento de Livros:
Bricabraque e Horismós, de Mário Pinheiro Eis a Dor, o que me resta, de Vicente Martín Martín O Segredo da Trapezista,de Oscar Málaga Gallegos Pecados de Intención, de Janet Nuñez Quilómetro Zero, de Ivo Machado

23h00
Sessão de Poesia com poetas convidados
. Novotel Vermar

quinta, dia 14
10h30
2ª Mesa: A meu favor tenho a Poesia
Amadeu Baptista José Emílio-Nelson Lêdo Ivo Uberto Stabile Vicente Martín Martín Vergílio Alberto Vieira (moderador)
. Auditório Municipal

15h00
3ª Mesa: A Lenta Volúpia de Escrever
Almeida Faria Francisco José Viegas Ivo Machado J.J. Armas Marcelo José Manuel Saraiva José Carlos de Vasconcelos (moderador) . Auditório Municipal

17h00
Lançamento de Livros:
A Casa do Rio, de Manuel Rui
A Neblina do Passado, de Leonardo Padura
Maurício ou as Eleições Sentimentais, de Eduardo Mendoza
. Casa da Juventude

17h15
Apresentação de Sessão fotográfica multimédia de fotografias: As Correntes de Daniel Mordzinski
. Auditório Municipal

17h30
4ª Mesa: Escrever é um Gesto Perverso
Adolfo García Ortega André Sant’ Anna Eugenia Almeida José Norton Mário Pinheiro Carlos Quiroga (moderador)
. Auditório Municipal

21h45
Apresentação do Filme “Netto e o Domador de Cavalos”, de Tabajara Ruas, com a presença do realizador, da produtora Lígia Walper e de Aurelino Costa (que participa como actor). Organização: Cineclube Octopus
. Auditório Municipal

22h00
Lançamento de Livros:
No Último Azul, de Carme Riera
O Anjo Literário, de Eduardo Halfon
O Sorriso de Mona Lisa, de Pedro Teixeira Neves
O Tempo dos Imperadores Estranhos, de Ignacio del Valle
Um Homem na Cozinha – Seduções e Volúpias, Luís Machado

23h00
Sessão de Poesia e Música “Poesia na Mesa” Poetas portugueses na voz de Luís Machado acompanhado ao piano por Inês Correia.
. Novotel Vermar

sexta, dia 15
10h30
5ª Mesa: Poesia: a bem dita e a mal dita
Filipa Leal Janet Nuñez Jorge Sousa Braga Ondjaki Teresa Rita Lopes Luís Machado (moderador)
. Auditório Municipal

15h00
6ª Mesa: A Literatura Rasga a Realidade
Eduardo Halfon Ignacio del Valle João Paulo Cuenca Pedro Teixeira Neves valter hugo mãe Rui Zink (moderador)
. Auditório Municipal

17h00
Lançamento de Livros:
O Amante Albanês, de Susana Fortes
Obras Completas de Nemésio – Poesia Vol. I (1916-1940) e Vol. II Tomo 1 (1950-1959) e Caderno de Caligraphia, Vol. III, de Luiz Fagundes Duarte
Olá, eu sou um Livro, e Vidas de Gato, de Rui Grácio
. Casa da Juventude

17h30
7ª Mesa: A Rua Faz o Livro
Cristina Norton Júlio Moreira Oscar Málaga Gallegos Paulina Chiziane Susana Fortes Luiz Fagundes Duarte (moderador)
. Auditório Municipal

22h00
8ª Mesa: Sou do tamanho do que escrevo
Carme Riera Eduardo Mendoza Isabel da Nóbrega José Eduardo Agualusa Miguel Real José Manuel Vasconcelos (moderador)
. Auditório Municipal

sábado, dia 16
10h30
9ª Mesa: Cada Homem é uma Língua
Leonardo Padura Mia Couto Onésimo Teotónio Almeida Pepetela Tabajara RuasMaria João Seixas (moderadora)
. Auditório Municipal

13h00
Encerramento
Entrega dos Prémios Literários Casino da Póvoa e Correntes d’ Escritas Papelaria Locus
. Auditório Municipal

21h00
Jantar de Encerramento

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Mercado Editorial Português

Estar na Terceira Divisão a sonhar com uma vitória na casa de um grande, como se todos os jogos fossem para a Taça de Portugal.

E se, de repente, um desconhecido...

... lhe abrisse as portas e você encontrasse um lugar que é seu?

há mais para vir

Poeta em Português

No âmbito de um trabalho sobre a poesia escrita em língua portuguesa em todo o mundo, fui entrevistado pelo Wilmar Silva há coisa de uma semana. Combinamos encontro em Torres Vedras e depois de um almoço onde se degustou Cozido à Portuguesa, uma novidade para o Wilmar, fomos até Santa Cruz, a praia que está na origem de várias coisas que escrevi. As várias perguntas feita conversa foram registadas pela sua camera, bem como leituras de uma série de poemas meus. Como abstract, posso dizer que defendo, na entrevista, que a língua portuguesa é apenas um acessório naquilo que escrevo, uma ferramenta, que a origem da poesia está no cruzamento de racionalidade e emoção, um choque entre aquilo que é o conhecimento da literatura e o que é memória e vida no ser humano. Para ilustrar esse sentimento, deixo aqui uma imagem captada neste Carnaval - um raro momento em que se pode ver o poeta em modo português.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Arrendamento, jovem

Ao entrar num apartamento disponível, percebo com prova provada um dos problemas que já me tinha passado pela cabeça.
"Tem coisas?" - pergunta-me a Agente Imobiliária.
Falo em móveis - de repente, soou-me estranho dizer-lhe que tenho livros, não sei porquê, mas acho que não seria percebido, pelo menos na dimensão do problema, se falasse em livros.
E de repente é essa a minha preocupação - a casa terá que ser indicada para os livros, para os livros que tenho (materialmente) e para a escrita de livros (um conceito abstracto capaz de caber em qualquer lado).
Uma casa certa para um escritor - no espaço e no preço (claro). É disso que ando à procura.

Do Existencialismo nos Agentes Imobiliários - uma adenda

Diz o povo, no entanto, que quanto mais se sobe, de mais alto será a queda.
Imagine-se, então, a dormir.

Do Existencialismo nos Agentes Imobiliários

Fala-se da vida com os Agentes Imobiliários do ramo do arrendamento.
Os seus conselhos implicam "desmontar camas" e "pôr colchões em cima uns dos outros".

O lado obscuro da Força

Por zunzuns que me chegaram aos ouvidos, o ambiente nas Amoreiras anda de cortar à faca, devido a questões salariais que já motivaram a saída de pelo menos quatro funcionários e estão a causar enorme mal-estar nos que ficaram.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

O meu homem em Washington


Gilbert Arenas, dos Washington Wizards

O Eduardo Pitta é o meu país

Impossível, depois de ler este post, pensar que um país diferente não teria sido possível.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Esquecer certas coisas

"Se ao livreiro acontecia esquecer certas coisas era porque uma grande parte da sua memória estava ocupada pelos seus livros. Conhecia-os tão bem que poderia ler três páginas de um, depois de um outro, e de outro, sem nunca perder o fio à meada.
Todos os livros da sua livraria estavam presentes nele, escritos nele, e o livreiro, ao lê-los, nada mais fazia que os reavivar.
Os livros, esses, precisavam das leituras do livreiro para continuar a viver nele.
Então o livreiro continuava a ler."

Régis de Sá Moreira, Le Libraire

A escolha periférica

"Sempre existiram indivíduos em ruptura com a família à qual eram anteriormente afiliados ou com o clã ao qual pertenciam.
A decisão de se separar de todos, a escolha periférica, surge desde o ninho no mundo animal."

Pascal Quignard, Les Ombres Errantes

Todo o Carnaval tem seu fim - Los Hermanos

Todo dia um ninguém josé acorda já deitado
Todo dia ainda de pé o zé dorme acordado
Todo dia o dia não quer raiar o sol do dia
Toda trilha é andada com a fé de quem crê no ditado

De que o dia insiste em nascer
Mas o dia insiste em nascer
Pra ver deitar o novo

Toda rosa é rosa porque assim ela é chamada
Toda Bossa é nova e você não liga se é usada
Todo o carnaval tem seu fim
Todo o carnaval tem seu fim
E é o fim, e é o fim

Deixa eu brincar de ser feliz,
Deixa eu pintar o meu nariz

Toda banda tem um tarol, quem sabe eu não toco
Todo samba tem um refrão pra levantar o bloco
Toda escolha é feita por quem acorda já deitado
Toda folha elege um alguém que mora logo ao lado

E pinta o estandarte de azul
E põe suas estrelas no azul
Pra que mudar?

Deixa eu brincar de ser feliz,
Deixa eu pintar o meu nariz


Letra e Música: Marcelo Camelo

Continuação...

... no dia em que se anuncia que, aos 4 milhões de Lisboa, se seguirão os 5 milhões do Porto (em obras), eu pergunto-me se já terá sido paga alguma factura de fornecedores.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Um tal Fernando Assis Pacheco (1/2/1937 - 30/11/1995)


Vivo com ele há anos suficientes
para poder dizer que o reconheceria
num dia de Novembro no meio da bruma
é como uma pessoa de família

adorava os pais mas tinha medo
quando zangados se punham aos gritos
e se chamavam nomes odiosos
não invento nada vi-o crescer comigo

chorava então desabaladamente
e eu com ele sentindo-nos perdidos
o coberto puxado sobre a cabeça
seria trágico se não fosse ridículo

mesmo depois a noite que urinasse
no pijama era um protesto civil
encharcou assim grande parte das Beiras
não lhe perguntem se foi feliz


Carnaval de Torres 2008

Impossível passar ao lado do Carnaval quando se está em Torres Vedras. A grande festa já começou, esta manhã, com o Corso Infantil que juntou cerca de 7600 crianças de todo o concelho. As festas continuam durante cinco dias e cinco noites de folia, onde se destacam os três grandes corsos (noite de sábado, tardes de domingo e terça-feira).
Por toda a cidade, associações, bares, cafés e postos de venda ambulante garantem o apoio necessário aos festejos. Dois palcos situados no Centro Histórico terão ainda animação durante todas as noites.
O convite fica feito. Durante um dos próximos dias visite Torres Vedras e fique a conhecer o "Carnaval mais Português de Portugal"

P.S: Ah, sim, claro, eu também vou andar por aí mascarado. Mas isso é daquelas coisas que só quem vier verá! Ou seja, não há posts com fotografias. Mesmo ;)

Os livros do ano na Livrododia



Terminou ontem a votação para os prémios Livrododia 2007, onde foram eleitos os livros preferidos dos clientes e amigos da Livraria Livrododia.

Assim, a lista dos vencedores é a seguinte:

Melhor livro de Ficção - As Sete Estradinhas de Catete, Paulo Bandeira Faria, Quidnovi
Melhor livro de Poesia - Paroles/ Palavras, Jacques Prévert, Sextante
Melhor livro de Ilustração - Mulheres que lêem são perigosas, Steffan Bollman, Quetzal
Melhor Capa de livro - Quando eu nasci, Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso, Planeta Tangerina

A todos os que participaram o meu obrigado e os meus parabéns para os vencedores - estes livros merecem ser descobertos.