terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Oiro de Minas a nova poesia das Gerais


Donizete Galvão


INVENÇÃO DO BRANCO

“all this had to be imagined
as an invisible knowledge”

Wallace Stevens


O tanque é o avesso da casa.

A rebarba.

A ferrugem tomando conta da boca.

O tanque é a parenta decaída,

que machuca os olhos das visitas

com suas carnes rachadas.

O tanque é onde se lava o coador

e o pó de café de seguidas manhãs

desenha uma poça de água preta.

Uma arraia-miúda,ervas e craca e limo,

flora sem-vergonha,

infiltra-se em suas paredes.

À beira do poço,

alguém imaginou copos-de-leite.

Bebendo a umidade,

em verde e branco brotaram.

Reiventados pela distância,

erguem-se vívidos,

mais brancos que o branco,

artifício de vidro.

Recém-nascidos.

Só porque eles existem,

o tanque e seu corpo saloio

foram salvos do esquecimento.

Ricardo Aleixo

POÉTICA


Aprendi com Valéry

um pouco disto que faço:

“Eu mordo o que posso”

(palavra, carne ou osso)


Me acho

me acabo de vez

me disfarço

Edimilson de Almeida Pereira


O CORPO


Ainda está lá, apesar dos anos. De um lado a outro,

desvia-se das pedras, toca as margens cada vez mais hu-

mano. A roupa se desfez, os sapatos, o que havia nos

bolsos. Nada restou, mas o corpo flutua alheio à chuva,

ao vento, à vingança. Há muito nos povoa, suas rugas não

pertencem ao tempo de seu sacrifício. São de agora, nos

interrogam. Que fazer desse corpo que não sabemos de

onde veio e se instalou em nós?

Título: Oiro de Minas a nova poesia das Gerais
Organização: Prisca Agustoni
Edição: Ardósia - Colecção Pasárgada

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