quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Lobo Antunes, Coerência e Capitalismo

O Manuel, durante as minhas férias, chamou a atenção para a coerência editorial, aquando da indignação pública de Lobo Antunes pela venda da Dom Quixote ao Grupo Paes do Amaral sem que ninguém o avisasse previamente. Passo a citar:

"Lobo Antunes ameaça deixar de publicar em Portugal. Fala de coerência editorial e coisas do género. Mas desde quando é que a Dom Quixote tem coerência editorial? Principalmente nos últimos anos. Prometeram a obra completa de Robert Musil: ficaram-se (até agora) por um título. Publicaram Carolina Salgado, Ana Bola, António Sala, Inês Pedrosa, Io Appoloni, Paulo Cardoso, Pecadora, Rita Ferro, Ana Zanatti, Clara Ferreira Alves. Coerência? Afinal até há. Não sei é se Lobo Antunes já reparou nisso."

Acredito que este seja um problema interessante de ser discutido, afinal quantos autores literários estariam disponíveis para se sentar ao lado de Carolina Salgado na apresentação do seu livro? E, no entanto, é desta realidade que se trata quando se fala de livros. Hoje em dia, o mais apetecível para o mercado do livro é a novidade que vende bem, a novidade que toda a gente quer, e por aí se vê que os livros mais vendidos são os segredos, os rios das flores e os sétimos selos. Também são desses livros que os jornais falam, aos quais dedicam páginas e até capas. São com esses livros que se pagam os ordenados e que se arrendondam os números para apresentar ao investidores. São desses livros que se fazem concentrações editoriais e grandes grupos com cotação na bolsa.

Tudo isso está para lá da literatura, como está Lobo Antunes quando tenta marcar terreno quanto às suas vontades. Não está, nem nunca esteve, no seu horizonte, escolher quem é ou não é publicado na sua editora (afinal ele nem deve ler assim tantas novidades). O que está no seu horizonte é poder continuar a lançar, a dar entrevistas, a receber elogios ou críticas de quem ele quiser, quando ele escolher.

E então, o que vemos, não é o Lobo Antunes literário. É apenas o Lobo Antunes a tentar impôr o seu ritmo no mercado do livro em que vivemos. Poderia ser uma questão de orgulho. Mas será apenas esperteza saloia.

1 comentário:

  1. Olhe que não...acho mesmo que, o que perturba o Lobo Antunes , é a existência de algo muito incomodo na sua pessoa, algo que o deixa atravessado..acho que lhe chamam Espinha

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