terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Grupo Leya

Miguel Pais do Amaral apresentou ontem o Grupo LEYA, futuro maior grupo editorial português (já o é no livro geral, está em segundo no escolar) que agrupa as editoras Texto, Dom Quixote, Caminho, Asa, Nova Gaia e Gailivro (e isto só em Portugal, também detém editoras em Angola e Moçambique). Dessa apresentação há a notar os seguintes aspectos:

- Todas as editoras vão manter o seu nome e equipa criativa, sendo que partir de agora os livros passarão a estar no mercado com a denominação do grupo antes do da editora (Leya-Texto, Leya-Asa, Leya-Caminho, Leya-Dom Quixote,...). Ou seja, os receios de alguns autores em relação à identidade de cada um dos projectos editoriais confirmam-se. A partir de agora, a referência passa a ser a Leya, cada projecto editorial ganha o valor de uma sub-editora ou colecção, e assim se começa a esvaziar o valor da marca adquirida.

- Vão criar um prémio para um livro de ficção inédito no valor de 100 mil euros. Sim, 100 mil euros. Portugal passa a ter um prémio literário ao nível de vários prémios europeus. Mesmo que surjam dúvidas quanto aos critérios, aos júris e aos vencedores, um escritor receber um prémio deste valor só pode ser boa notícia. É bom saber que alguns de nós não vão precisar de esperar pela idade da reforma para receber um prémio que se veja.

- "A aposta é no escolar porque é na escola que se ganham os hábitos de leitura". Parece uma frase de um pai endinheirado que paga a propina num colégio ao seu filhinho loiro. Seria bem mais real dizer-se que a aposta é no escolar porque é na escola que as pessoas são mesmo obrigadas a comprar livros, porque é no escolar que praticam as margens mais benéficas para as editoras. Resta agora saber se funcionarão como a simpática e eficiente Nova Gaia ou se, à imagem da Texto, vão continuar a não fornecer caixas para quem levanta as encomendas do escolar nos seus armazéns.

- Quanto às práticas do grupo, nenhum esclarecimento. Percebe-se, pelos números dos despedimentos e pela notícia de eliminação de funções que se sobrepunham, que o mais provável é haver uma facturação conjunta e uma equipa de vendas com um comercial para cada zona em representação da totalidade do grupo. Ou muito me engano, ou vou mesmo ter que me habituar a racionar as compras destas editoras.

Em jeito de conclusão, o surgimento do Grupo Leya, para além de inevitável, é sinónimo de boas notícias para um grande grupo de pessoas - o investimento significará que muitos verão os seus meios melhorados. Em contrapartida, as exigências de resultados serão também muito maiores, mas uma coisa vem com a outra, nenhuma empresa deve ser a Santa Casa da Misericórdia. Ao mesmo tempo, os últimos dois exemplos de "entradas a matar" no mercado português (Dom Quixote no tempo da gestão-Gillete, Bertrand na ditadura da livraria) tiveram resultado díspares; no caso da Dom Quixote, uma editora, significou um recuo à casa de partida. Tenho a certeza que Pais do Amaral saberá o que está a fazer - e enquanto o livro poderá ganhar bastante com isso, talvez a literatura venha a perder.

1 comentário:

  1. Acredito que é muito bom o futuro dessa nova "esquadra" em mares brasileiros. É caso para saudações. Ganham os autores em língua portuguesa, deste e d'além mar.
    Se atravessar o Atlântico, agora, lance âncoras em um porto de literatura e jornalismo, em http://urarianoms.blog.uol.com.br/ Abraço.

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