terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Da Mineração: Seus Métodos & Achados

Para além de suas dimensões continentais, a sociedade brasileira merece ser pensada a partir de suas múltiplas realidades culturais, políticas e económicas. Estas, se por um lado geram conflitos dramáticos, por outro, revelam situações em que sobressaem lições ímpares de colaboração e solidariedade entre as pessoas. Diante dessa complexa perspectiva, entende-se que o país exposto nos espaços privilegiados dos média nacional e internacional não responde pela diversidade que, de facto, o sustenta. Dito de outro modo, um olhar crítico sobre a realidade brasileira demonstra que o Brasil mediático não é senão uma face entre outras (instigantes e desafiadoras) da sociedade nacional. Esse tema leva-nos de volta à década de 1950 e permite-nos observar que “os dois Brasis”, detectados naquela época pelo sociólogo francês Jacques Lambert, já eram (e continuam sendo) vários Brasis.

Esse comentário, brevíssimo, de natureza sociológica, nos parece indispensável no momento em que se pretende justificar uma antologia de poesia brasileira contemporânea. Primeiro, porque no jogo das relações literárias, as controvérsias em torno da organização de antologias é carta por demais conhecida. Há sempre motivos, com razões maiores ou menores, para que os autores seleccionados e os não seleccionados, bem como os críticos e os leitores, ratifiquem ou subestimem o trabalho do responsável pela colectânea. Segundo, porque tratando-se de uma antologia de poesia brasileira contemporânea, não esperamos outro enredo, pois o que ora apresentamos é um recorte deste cenário poético e mais especificamente de uma das regiões geográficas do país, o estado de Minas Gerais.

Apesar das divergências manifestadas nas opiniões de poetas e críticos, na poesia brasileira do século XX, é possível considerar- se três linhas de força, que se mantiveram até ao início da década de 1980: a primeira, derivada da Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, em 1922, caracterizou-se pelo esforço de actualização da poesia brasileira em relação aos novos temas, formas e práticas em curso na Europa dos movimentos de vanguarda; a segunda, por um desejo de contenção dos apelos das vanguardas propostos pelos modernistas; e a terceira, pelo experimentalismo técnico-formal do Concretismo.

Evidentemente, essas linhas sofreram matizações que, ao mesmo tempo em que fixaram procedimentos, possibilitaram a emergência de traços distintivos de vários autores. Na primeira linha destacaram-se, entre outros, Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Deste, a geração da chamada Poesia Marginal (final dos anos 1970) se apropriou do poema curto ou poema-piada, da linguagem incisiva capaz de capturar os flashes do cotidiano. Na segunda vertente, Cecília Meireles e Péricles Eugênio da Silva Ramos recuperaram o tom elegíaco de herança clássica. De modo particular, João Cabral de Melo Neto, incluído nesta que foi chamada de Geração de 45, criou depois uma trajectória própria, marcada por uma poética antilírica. A este, entre outros nomes, se referiram os mentores da Poesia Concreta. Esta terceira linha de força tem nos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e em Décio Pignatari os articuladores de uma poética em que palavra, som e imagem (poética verbivocovisual) combinam-se na construção do poema-objecto.
A título de exemplo, pode-se dizer que as matizes dessas linhas desdobraram-se em poéticas de largo fôlego individual, como a de Jorge de Lima ou dos mineiros Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes, a partir do Modernismo de 1922; ou a de Affonso Ávila, a partir do experimentalismo dos concretistas. Esse processo estimulou a manifestação de poéticas que – inclinando-se mais para esta ou para aquela vinculação estética ou, mesmo, rechaçando esta ou aquela –, forjaram um mosaico de vozes na poesia brasileira do século XX. É difícil, portanto, desenhar uma cartografia dessas vozes, já que de norte a sul do país elas ecoaram com feições próprias, através de nomes como Ferreira Gullar, Manoel de Barros, Carlos Nejar, Affonso Romano de Sant’Anna, Max Martins, Hilda Hilst, Thiago de Melo e tantos outros. O facto é que técnicas, heranças estéticas e ideológicas manuseadas mediante expectativas individuais vêm marcando a poesia brasileira moderna.

Este painel teve sua tradução no contexto de Minas Gerais, onde poetas de diferentes gerações, para além de trafegarem pelas linhas de força mencionadas (através dos já citados Drummond, Murilo Mendes e Affonso Ávila, por exemplo), interferiram nelas para tecer sua própria linguagem poética. Em função disso, nomes como o de Emílio Moura, Abgar Renault, Dantas Mota, Henriqueta Lisboa, Laís Corrêa de Araújo, Adélia Prado e Adão Ventura inscreveram-se com vigor na cena literária do país.

Diante do exposto, a tarefa de organizar a presente antologia, numa alusão ao título que a encima, converteu-se num desafio similar aos dos mineradores, cujo ofício se nutre do brilho do metal precioso encontrado ou por encontrar. No caso da antologia, o sonho do eldorado foi substituído por alguns critérios que, salvo engano, nos permitiram tocar algumas pedras raras e também vislumbrar um veio maior, que é o da poesia mineira e brasileira contemporâneas.
Ao nos debruçarmos sobre a produção mineira contemporânea, tornou-se evidente que a escolha do(s) critério(s) de selecção dos autores deveria embasar-se em algum elemento vinculado à mais recente história da poesia brasileira. Ou seja, era necessário procurar, no diversificado e original painel de (novos) poetas surgidos dentro e fora de Minas, aqueles cuja obra começou a ganhar destaque a partir da década de 1980, após a proliferação de vozes relacionadas à estética marginal e, sobretudo, após o crítico momento político vivenciado pelo país, que colocou sua cultura sob o jugo e a censura do regime militar, entre 1964 e 1985.

Em decorrência disso, seleccionamos para essa antologia a obra de poetas que reflectiram e também transformaram, na subtil tessitura da linguagem, a riqueza das diversas vertentes estéticas que os precederam. Procuramos destacar a pluralidade de caminhos trilhados pelos poetas, considerando não apenas a sua actuação como poetas mas, evidenciando, também, o modo como eles estabeleceram a “consolidação de um consenso crítico”, paralelamente aos seus processos de criação. Esse recorte nos parece relevante, já que a actuação do poeta e do intelectual no seio da sociedade reveste-se não só de aspectos relacionados a posicionamentos políticos, mas igualmente à produção de um discurso teórico (muitas vezes estimulado pelas estruturas académicas) ou jornalístico, bem como à organização de eventos, espectáculos e festivais nos quais é reservado à poesia e à performance poética um espaço privilegiado.

Para nos referirmos à ideia da “consolidação de um consenso crítico”, baseamo-nos em alguns dados objectivos, que atribuem particular relevo às obras dos autores aqui seleccionados, quais sejam: a inclusão de poemas em outras antologias, as traduções e publicações em outros países (em revistas ou antologias), os prémios literários, as críticas e as resenhas que apontam a originalidade e densidade da obra, etc. Com evidência, nada justifica totalmente a escolha de um autor em lugar de outro, uma vez que estamos lidando com um universo – o da experiência poética – atravessado, em geral, pela subjectividade. No entanto, como sempre ocorre em casos similares, prevaleceu a necessidade de se fazer um recorte e de se indicar alguns critérios organizadores a fim de dar à presente antologia uma configuração.

Considerados os pressupostos acima, encontramo-nos diante de um painel assaz rico quanto à diversidade de temas e estilos. Os dez autores que aqui representam a “nova poesia das Minas Gerais” revelam o seu rosto plural, um rosto tão enigmático e camuflado quanto as minas ocultas nas montanhas da bela paisagem brasileira. À pluralidade desafiadora desse painel soma-se a riqueza do microcosmo de palavras e símbolos que compõem a poética de cada autor.

Contudo, é possível garimpar e encontrar nessa diferença alguns temas que perpassam, como uma coluna vertebral, a poesia mineira contemporânea. E isso, talvez, por serem temas que estão presentes, desde a modernidade, na tradição lírica ocidental. Em termos gerais, a memória se perfila como um leitmotiv ao qual o sujeito recorre para extrair os elementos de uma história pessoal construída sob uma perspectiva mítica. Nesse sentido a recuperação da mitologia é um procedimento amplamente empregue pelos poetas aqui apresentados para, ao se referirem a uma história e a um sujeito universais, edificarem a própria mitologia pessoal, única e intransferível. Uma mitologia portátil, à medida humana, passível de ser guardada num livro, num bolso, num verso.

Se a memória, por um lado, particulariza uma experiência de feição ontológica, por outro, a representação do espaço físico (muitas vezes, um lugar não nomeado, mas identificado como alguma região de Minas Gerais) ou mental se universaliza, graças à palavra poética. Isso ocorre na medida em que o aspecto regional (a gente, a fala, a natureza e os factos de Minas) se abre para a representação de um lugar mítico, universal, recém surgido do caos, mediado e modelado pela palavra criadora, tal como lemos na última estrofe do poema Vicentim, reparador de livros, de Fernando Fábio Fiorese Furtado: “e posso mudar em verbo/ até a última paisagem”.

Outro tema recorrente, embora abordado de inúmeras maneiras nos poemas desta antologia, é a cidade como lugar de passagem, de encontro e desencontro do indivíduo. Uma vez mais, esse tema caro à modernidade exibe nos versos dos poetas os seus flâneurs contemporâneos, sujeitos errantes que experimentam o estranhamento e o encanto. Essas várias aproximações à cidade reiteram o facto dela se constituir como um lugar que engole e devolve outros espaços, reais ou mentais, um lugar no qual – como recita o último verso do poema Labirinto de Ricardo Aleixo – o sujeito, à custa de se perder, se reconhece. A solidão, terceiro tema essencial, decorre então da experiência urbana, mas não somente dela. Ecoando o verso drummondiano “mundo, vasto mundo”, pode-se dizer que dele também se desprende um sentimento de solidão. Nessa direcção, os elementos da natureza (a pedra, a água, o pássaro) são mensageiros desse infinito que alumbra e esmaga, com a sua potência e beleza, o ser humano, e sugerem, principalmente na poética de Eustáquio Gorgone de Oliveira, Donizete Galvão e Wilmar Silva, o enigma de um mundo indizível através das palavras.

A leitura atenta do conjunto de textos aqui propostos mostramos ainda uma grande abertura para o diálogo com as fontes literárias mais variadas, ou seja, com vertentes culturais diferenciadas, privilegiadas por cada autor, como se verá a seguir.

Uma adaptação contemporânea dos traços marcantes do Barroco, assim como a manifestação de um sentir expressionista emolduram os versos de Eustáquio Gorgone de Oliveira, fazendo com que sua poesia não seja classificável dentro de nenhuma das vertentes tradicionais que caracterizaram a poesia brasileira do século XX. O mesmo pode ser dito sobre a poesia de Júlio Polidoro, na qual o tom coloquial e irónico disfarça habilmente o fundo filosófico ou existencialista. Outro percurso instigante se observa através da fusão entre o formalismo pós-concretista e as preocupações estéticas e sociais caras a Ricardo Aleixo, numa poesia que deixa visíveis as marcas da vanguarda, ao mesmo tempo em que potencializa as ambiguidades e as possibilidades de significação do seu discurso pessoal. Por sua vez, a dicção contida de Donizete Galvão se propõe como um filtro que depura e transforma o desprezo e a decomposição do corpo e do mundo – com os seus valores mais puros – em matéria poética. Já a poesia de Maria Esther Maciel revela o intenso intercâmbio com outras linguagens artísticas, como o cinema e a pintura, na tentativa de captar o paradoxo da vida, sintetizado claramente no poema A voz e o espelho a partir de uma sugestão de Octavio Paz. O mundo figurado nos poemas de Fernando Fábio Fiorese Furtado exprime a densidade da história individual e colectiva que confluem para desenhar diferentes metáforas do corpo, como se estas fossem uma “segunda pele” que concentra as linhas de uma reflexão existencial e metapoética.

No caso da poesia de Edimilson de Almeida Pereira, é possível dizer que o autor reelabora aspectos da oralidade e da estética barroca na qual os objectos, as palavras e os significados estão embutidos uns dentro dos outros, à maneira das bonecas russas que estão encaixadas, cada uma contendo em si a outra. É o sentido atribuído a um mundo engendrado por palavras e aberto para a existência de outros mundos possíveis. A poesia de Iacyr Anderson Freitas explicita a procura, por vezes dolorosa, de coisas e sentimentos profundos e cotidianos que constituem a raiz ontológica do ser humano que, frequentemente, se encontra exilado num tempo e num espaço em estado de desmoronamento e que se agarra, desesperado, à palavra e à memória para salvar as sobras desse processo de desmantelamento interior. Por seu turno, preocupados não com a descrição dos objectos ou da natureza, mas com a apreensão do diálogo entre esses elementos e o corpo-linguagem do poeta, os textos de Wilmar Silva resultam numa inquietante leitura das experiências do homem. Quanto à poética de Fabrício Marques, o cotidiano é apreendido com ironia, ou seja, a noção do dia-a-dia como o espaço e tempo dos acontecimentos previsíveis é sugerida e esvaziada através da palavra poética. A esse processo superpõe-se um cotidiano cerzido com pequenas iluminações expressas através de uma linguagem coloquial.

Como salientamos anteriormente, o ofício da mineração é incerto e desafiador, porque nos coloca – aqui na condição de leitores – diante de um campo de experiências poéticas em parte conhecido, em parte a ser desvendado. Essa tensão consiste num dos mais fortes apelos para que se possa pensar a poesia mineira e brasileira contemporâneas como um território aberto a novos diálogos e experimentações. Oiro de Minas é, portanto, um convite para que os leitores compartilhem uma experiência crítica e enriquecedora, ao longo dessa viagem poética às Gerais.

Prisca Agustoni, Prefácio do livro Oiro de Minas

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