sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

A arte de fazer perguntas

Trabalhar com livros é como trabalhar com os sonhos dos outros - qualquer coisa a meio caminho entre um artista e um psicólogo, alguém a quem se recorre em caso de problemas existenciais. Neste trabalho, o mais gratificante é sempre aquele momento em que nos cruzamos com um leitor fascinado, com alguém que, à nossa imagem, vê livros e sonhos a sair do meio das páginas. Nesses momentos, sentimo-nos livres para falar do que nos faz ultrapassar todos os obstáculos e angústias que só a criação de um sonho (como é a criação de um livro) nos coloca: desde o perceber como se vai dizer a um autor que há, ainda, quase tudo para alterar num texto, o ver imagens-pérola num texto por rever, encontrar a imagem perfeita para a capa de um livro, tentar apagar e emendar todos os pequenos erros, as pequenas falhas, os pequenos nada que, temos a certeza, toda a gente irá reparar se o deixarmos escapar no processo de construção do livro.

Trabalhar com livros é como trabalhar com os sonhos dos outros - e por isso muitas noites e dias nos esquecemos de nós próprios e vemo-nos obrigados a guardar aquela manhã de fim-de-semana para, finalmente, apanhar a roupa do estendal, lavar a loiça acumulada por vários dias, organizar os papéis que se foram acumulando na secretária lá de casa. Sim, porque trabalhar com livros é também deixarmo-nos enredar nas leituras dos livros que os outros, como nós, fazem e assim passar as horas que sobram dos dias e das noites a anotar num caderno pequenas passagens de livros que nos encantam. Por isso, mais que com Marco Polo d' As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, quem faz livros identifica-se com o Imperador Kublai Kan. Mantém a ilusão de que poderá sempre fazer a pergunta certa e necessária ao continuar desta história.

3 comentários:

  1. Peço desculpa, mas citei-o pelo exemplo que me forneceu.

    Gosto de ler o seu blogue.

    Atentamente,

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  2. que lindo o que dizes ( e tão verdade )

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