sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Al Berto - 11 de Janeiro


Hoje, dia 11 de Janeiro de 2008, Al Berto faria 60 anos.

Não é um poeta que esteja entre as minhas referências, não é um poeta que eu diga como um dos meus. No entanto, dois dos seus livros chegaram até mim como flechas incendiadas, abrindo na minha visão do mundo, da literatura e da vida, uma cisão que me obrigou, de vez, a evoluir para lá da direcção prevista.

Lembro assim, nesta ocasião, dois momentos. Um, no Pavilhão do Campo Grande da Faculdade de Letras de Lisboa, onde me sentei, num dos anfiteatros, a ler Horto de Incêndio, deixando-me embalar numa poesia dolorosa, sangrenta e vivida, maneira de dizer em poema o que nem sempre se tem coragem de chorar. Outro, na varanda de casa do meu pai, em Santa Cruz, Lunário, paraíso perdido da juventude, um On the Road poético e desencantado.

Não é pouco, num autor, dois livros que nos toquem tanto e tão intensamente. Não é pouco. Por isso hoje o murmurar do aniversário, o manter de uma memória contra o apagamento dos dias.

Recado
ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-se
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno almoço

in Horto de Incêndio

2 comentários:

  1. Já leu a antologia DEZ CARTAS PARA AL BERTO? Um livro surpreendente!

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  2. Olá, Luís! Parabéns ao Al Berto e um beijinho para ti. :)

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