quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Oiro, Minas, Poesia e Lisboa

Foi ontem à noite, na Casa da América Latina, a apresentação da antologia Oiro de Minas. Na mesa, Ozias Filho ("mais constipado do que feliz"), Prisca Agustoni (a suiça-brasileira que organiza a antologia), Wilmar Silva (um dos poetas antologiados) e Cristina Maria Costa (leitora de serviço nos lançamentos desta colecção). A sessão decorreu suave ao som destas vozes que entrecuzaram leituras dos dez poetas presentes no livro. Na assistência estava ainda Edimilson de Almeida Pereira com a sua filha, a pequena Iara, certamente a rainha da festa.

No final da apresentação, o convivío tomou as rédeas. Não faltava talento: Luís Graça, Golgona Anghel, Inês Leitão, Ana Viana, Valex, Joaquim Cardoso Dias, João Henriques, José Mário Silva, José Luís Peixoto, os autores e os editores da antologia. Promessas de encontros e reencontros futuros. Muitos sorrisos. Muitas palavras. E um segredo, aqui partilhado em primeira mão: vamos ter o José Luís Peixotona Livrododia, lá para o final de Fevereiro.

Não posso deixar de enaltecer a dedicação do Ozias e da Léo, na preparação do livro, da festa e deste encontro. Para eles o meu cumprimento especial.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Farinha do mesmo saco

Como diz o povo, as coisas podem sempre piorar.

Ana Jorge, nova Ministra da Saúde, assumiu a presidência da Administração Regional de Saúde de Lisboa (ARS) e Vale do Tejo, entre 1997 e 2000. Foi nesta qualidade que foi acusada pelo Ministério Público, juntamente com outras 25 pessoas, de ter efectuado pagamentos indevidos ao Hospital Amadora-Sintra. Só a Ana Jorge, o Estado pedia mais de 3,5 milhões de euros. Apesar de um tribunal arbitral a ter ilibado, uma auditoria do Tribunal de Contas efectuada posteriormente confirmou a irregularidade. O processo decorre. Ouvido pela Antena 1, o advogado de Ana Jorge lembra que "não é só ela que está a ser acusada" e que no processo em causa "ela limitou-se a cumprir ordens".

Já José António Pinto Ribeiro era, até ontem, administrador da Fundação de Arte Moderna e Contemporânea-Colecção Berardo (sim, a fundação do milionário que custa milhões ao erário público).

Palavras para quê?

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

As novas oportunidades tal como José Sócrates as vê

"Why don't you simply change your job?"
"What do you mean simply? Stop being writer?"
"Why not! Reinvent yourself", advised my helpful therapist.
I followed his advice. I got a job as a waitress in a Portuguese restaurant. One of my co-workers sometimes recites Pessoa to me after work, over a glass of wine, but that is pretty much my only contact with literature. I no longer have literary nightmares. I dream pleasant, refreshing dreams.

Dubravka Ugresic, Thank You For Not Reading

o fim do sindicalismo como o conhecemos

Com o anúncio da continuidade de Carvalho da Silva à frente da CGTP/IN, mesmo constrangido nas suas escolhas pelas reformar impostas pelo PCP, assistimos, um tanto impávidos, à morte do sindicalismo em Portugal. Já não bastava ter visto Jerónimo de Sousa y sus muchachos a arrasar com um espaço político essencial na vida do nosso país com as suas derivas estalinistas, agora também teremos que ver a principal força sindical portuguesa a seguir pelo mesmo cano abaixo.

Eu já desconfiava há muito tempo de que isto viria a acontecer, e mais depois quando, julgo que em 1999, ouvi Carvalho da Silva na Faculdade de Ciências de Lisboa começar a sua intervenção sobre o "Manifesto de Insubmissão" do Sector Intelectual do PCP com um "pediram-me para estar presente neste encontro", seguido de uma série de palavras atrapalhadas saídas de uma boca que, claramente, não tinha pensado nem lido o manifesto, apenas estava ali a marcar território a pedido da situação.

O facto é que quem se guia pela situação, apesar de uma satisfação imediata, não consegue perceber o mal que faz aos seus próprios desejos. Qualquer político que se deixe enredar na teia das necessidades dos outros e da situação, perde o respeito e a admiração daqueles que com ele trabalharam nos tempos das causas. Ao não se afastar, Carvalho da Silva, tal como em tempos Carlos Carvalhas, nada está a contribuir para melhorar o trabalho e a imagem da CGTP fora do círculo comunista - está apenas a servir de correia de transmissão para um Jerónimo seguinte.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Oiro de Minas - Lançamento

No próximo dia 30 de Janeiro, Quarta-feira, às 21 horas, na Casa da América Latina, em Lisboa, a Ardósia, Associação Cultural estará lançando mais um livro da Colecção Pasárgada. Trata-se da antologia Oiro de Minas, a nova poesia das Gerais, organizada por Prisca Agustoni, de nacionalidade suíça, escritora, mestre na área da Literatura Hispânica e Filosofia pela Universidade de Genebra e doutora em Literaturas de Língua Portuguesa.

domingo, 27 de janeiro de 2008

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

A arte de fazer perguntas

Trabalhar com livros é como trabalhar com os sonhos dos outros - qualquer coisa a meio caminho entre um artista e um psicólogo, alguém a quem se recorre em caso de problemas existenciais. Neste trabalho, o mais gratificante é sempre aquele momento em que nos cruzamos com um leitor fascinado, com alguém que, à nossa imagem, vê livros e sonhos a sair do meio das páginas. Nesses momentos, sentimo-nos livres para falar do que nos faz ultrapassar todos os obstáculos e angústias que só a criação de um sonho (como é a criação de um livro) nos coloca: desde o perceber como se vai dizer a um autor que há, ainda, quase tudo para alterar num texto, o ver imagens-pérola num texto por rever, encontrar a imagem perfeita para a capa de um livro, tentar apagar e emendar todos os pequenos erros, as pequenas falhas, os pequenos nada que, temos a certeza, toda a gente irá reparar se o deixarmos escapar no processo de construção do livro.

Trabalhar com livros é como trabalhar com os sonhos dos outros - e por isso muitas noites e dias nos esquecemos de nós próprios e vemo-nos obrigados a guardar aquela manhã de fim-de-semana para, finalmente, apanhar a roupa do estendal, lavar a loiça acumulada por vários dias, organizar os papéis que se foram acumulando na secretária lá de casa. Sim, porque trabalhar com livros é também deixarmo-nos enredar nas leituras dos livros que os outros, como nós, fazem e assim passar as horas que sobram dos dias e das noites a anotar num caderno pequenas passagens de livros que nos encantam. Por isso, mais que com Marco Polo d' As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, quem faz livros identifica-se com o Imperador Kublai Kan. Mantém a ilusão de que poderá sempre fazer a pergunta certa e necessária ao continuar desta história.

Em breve

Admirável Diamante Bruto e Outros Contos, Waldir Araújo
Livrododia Editores

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Fascínio

A história passada da vida de Ivan Ilitch fora a mais simples e vulgar e por isso a mais horrível. Morrera aos quarenta e cinco anos de idade, como juiz desembargador. Era filho de um funcionário que em Petersburgo fizera, em vários ministérios e departamentos, a carreira que leva os homens a uma posição em que, embora se perceba claramente que não servem para desempenhar qualquer cargo importante, não podem em todo o caso, devido ao longo serviço passado e à sua categoria, ser demitidos e por isso obtêm cargos fictícios inventados e salários nada fictícios de milhares, de seis a dez, com os quais vivem até avançada idade.
Assim era o conselheiro, membro extra numerário de várias instituições supérfluas, Iliá Efímovitch Golovin.


Lev Tolstoi, A Morte de Ivan Ilitch

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Da Mineração: Seus Métodos & Achados

Para além de suas dimensões continentais, a sociedade brasileira merece ser pensada a partir de suas múltiplas realidades culturais, políticas e económicas. Estas, se por um lado geram conflitos dramáticos, por outro, revelam situações em que sobressaem lições ímpares de colaboração e solidariedade entre as pessoas. Diante dessa complexa perspectiva, entende-se que o país exposto nos espaços privilegiados dos média nacional e internacional não responde pela diversidade que, de facto, o sustenta. Dito de outro modo, um olhar crítico sobre a realidade brasileira demonstra que o Brasil mediático não é senão uma face entre outras (instigantes e desafiadoras) da sociedade nacional. Esse tema leva-nos de volta à década de 1950 e permite-nos observar que “os dois Brasis”, detectados naquela época pelo sociólogo francês Jacques Lambert, já eram (e continuam sendo) vários Brasis.

Esse comentário, brevíssimo, de natureza sociológica, nos parece indispensável no momento em que se pretende justificar uma antologia de poesia brasileira contemporânea. Primeiro, porque no jogo das relações literárias, as controvérsias em torno da organização de antologias é carta por demais conhecida. Há sempre motivos, com razões maiores ou menores, para que os autores seleccionados e os não seleccionados, bem como os críticos e os leitores, ratifiquem ou subestimem o trabalho do responsável pela colectânea. Segundo, porque tratando-se de uma antologia de poesia brasileira contemporânea, não esperamos outro enredo, pois o que ora apresentamos é um recorte deste cenário poético e mais especificamente de uma das regiões geográficas do país, o estado de Minas Gerais.

Apesar das divergências manifestadas nas opiniões de poetas e críticos, na poesia brasileira do século XX, é possível considerar- se três linhas de força, que se mantiveram até ao início da década de 1980: a primeira, derivada da Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, em 1922, caracterizou-se pelo esforço de actualização da poesia brasileira em relação aos novos temas, formas e práticas em curso na Europa dos movimentos de vanguarda; a segunda, por um desejo de contenção dos apelos das vanguardas propostos pelos modernistas; e a terceira, pelo experimentalismo técnico-formal do Concretismo.

Evidentemente, essas linhas sofreram matizações que, ao mesmo tempo em que fixaram procedimentos, possibilitaram a emergência de traços distintivos de vários autores. Na primeira linha destacaram-se, entre outros, Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Deste, a geração da chamada Poesia Marginal (final dos anos 1970) se apropriou do poema curto ou poema-piada, da linguagem incisiva capaz de capturar os flashes do cotidiano. Na segunda vertente, Cecília Meireles e Péricles Eugênio da Silva Ramos recuperaram o tom elegíaco de herança clássica. De modo particular, João Cabral de Melo Neto, incluído nesta que foi chamada de Geração de 45, criou depois uma trajectória própria, marcada por uma poética antilírica. A este, entre outros nomes, se referiram os mentores da Poesia Concreta. Esta terceira linha de força tem nos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e em Décio Pignatari os articuladores de uma poética em que palavra, som e imagem (poética verbivocovisual) combinam-se na construção do poema-objecto.
A título de exemplo, pode-se dizer que as matizes dessas linhas desdobraram-se em poéticas de largo fôlego individual, como a de Jorge de Lima ou dos mineiros Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes, a partir do Modernismo de 1922; ou a de Affonso Ávila, a partir do experimentalismo dos concretistas. Esse processo estimulou a manifestação de poéticas que – inclinando-se mais para esta ou para aquela vinculação estética ou, mesmo, rechaçando esta ou aquela –, forjaram um mosaico de vozes na poesia brasileira do século XX. É difícil, portanto, desenhar uma cartografia dessas vozes, já que de norte a sul do país elas ecoaram com feições próprias, através de nomes como Ferreira Gullar, Manoel de Barros, Carlos Nejar, Affonso Romano de Sant’Anna, Max Martins, Hilda Hilst, Thiago de Melo e tantos outros. O facto é que técnicas, heranças estéticas e ideológicas manuseadas mediante expectativas individuais vêm marcando a poesia brasileira moderna.

Este painel teve sua tradução no contexto de Minas Gerais, onde poetas de diferentes gerações, para além de trafegarem pelas linhas de força mencionadas (através dos já citados Drummond, Murilo Mendes e Affonso Ávila, por exemplo), interferiram nelas para tecer sua própria linguagem poética. Em função disso, nomes como o de Emílio Moura, Abgar Renault, Dantas Mota, Henriqueta Lisboa, Laís Corrêa de Araújo, Adélia Prado e Adão Ventura inscreveram-se com vigor na cena literária do país.

Diante do exposto, a tarefa de organizar a presente antologia, numa alusão ao título que a encima, converteu-se num desafio similar aos dos mineradores, cujo ofício se nutre do brilho do metal precioso encontrado ou por encontrar. No caso da antologia, o sonho do eldorado foi substituído por alguns critérios que, salvo engano, nos permitiram tocar algumas pedras raras e também vislumbrar um veio maior, que é o da poesia mineira e brasileira contemporâneas.
Ao nos debruçarmos sobre a produção mineira contemporânea, tornou-se evidente que a escolha do(s) critério(s) de selecção dos autores deveria embasar-se em algum elemento vinculado à mais recente história da poesia brasileira. Ou seja, era necessário procurar, no diversificado e original painel de (novos) poetas surgidos dentro e fora de Minas, aqueles cuja obra começou a ganhar destaque a partir da década de 1980, após a proliferação de vozes relacionadas à estética marginal e, sobretudo, após o crítico momento político vivenciado pelo país, que colocou sua cultura sob o jugo e a censura do regime militar, entre 1964 e 1985.

Em decorrência disso, seleccionamos para essa antologia a obra de poetas que reflectiram e também transformaram, na subtil tessitura da linguagem, a riqueza das diversas vertentes estéticas que os precederam. Procuramos destacar a pluralidade de caminhos trilhados pelos poetas, considerando não apenas a sua actuação como poetas mas, evidenciando, também, o modo como eles estabeleceram a “consolidação de um consenso crítico”, paralelamente aos seus processos de criação. Esse recorte nos parece relevante, já que a actuação do poeta e do intelectual no seio da sociedade reveste-se não só de aspectos relacionados a posicionamentos políticos, mas igualmente à produção de um discurso teórico (muitas vezes estimulado pelas estruturas académicas) ou jornalístico, bem como à organização de eventos, espectáculos e festivais nos quais é reservado à poesia e à performance poética um espaço privilegiado.

Para nos referirmos à ideia da “consolidação de um consenso crítico”, baseamo-nos em alguns dados objectivos, que atribuem particular relevo às obras dos autores aqui seleccionados, quais sejam: a inclusão de poemas em outras antologias, as traduções e publicações em outros países (em revistas ou antologias), os prémios literários, as críticas e as resenhas que apontam a originalidade e densidade da obra, etc. Com evidência, nada justifica totalmente a escolha de um autor em lugar de outro, uma vez que estamos lidando com um universo – o da experiência poética – atravessado, em geral, pela subjectividade. No entanto, como sempre ocorre em casos similares, prevaleceu a necessidade de se fazer um recorte e de se indicar alguns critérios organizadores a fim de dar à presente antologia uma configuração.

Considerados os pressupostos acima, encontramo-nos diante de um painel assaz rico quanto à diversidade de temas e estilos. Os dez autores que aqui representam a “nova poesia das Minas Gerais” revelam o seu rosto plural, um rosto tão enigmático e camuflado quanto as minas ocultas nas montanhas da bela paisagem brasileira. À pluralidade desafiadora desse painel soma-se a riqueza do microcosmo de palavras e símbolos que compõem a poética de cada autor.

Contudo, é possível garimpar e encontrar nessa diferença alguns temas que perpassam, como uma coluna vertebral, a poesia mineira contemporânea. E isso, talvez, por serem temas que estão presentes, desde a modernidade, na tradição lírica ocidental. Em termos gerais, a memória se perfila como um leitmotiv ao qual o sujeito recorre para extrair os elementos de uma história pessoal construída sob uma perspectiva mítica. Nesse sentido a recuperação da mitologia é um procedimento amplamente empregue pelos poetas aqui apresentados para, ao se referirem a uma história e a um sujeito universais, edificarem a própria mitologia pessoal, única e intransferível. Uma mitologia portátil, à medida humana, passível de ser guardada num livro, num bolso, num verso.

Se a memória, por um lado, particulariza uma experiência de feição ontológica, por outro, a representação do espaço físico (muitas vezes, um lugar não nomeado, mas identificado como alguma região de Minas Gerais) ou mental se universaliza, graças à palavra poética. Isso ocorre na medida em que o aspecto regional (a gente, a fala, a natureza e os factos de Minas) se abre para a representação de um lugar mítico, universal, recém surgido do caos, mediado e modelado pela palavra criadora, tal como lemos na última estrofe do poema Vicentim, reparador de livros, de Fernando Fábio Fiorese Furtado: “e posso mudar em verbo/ até a última paisagem”.

Outro tema recorrente, embora abordado de inúmeras maneiras nos poemas desta antologia, é a cidade como lugar de passagem, de encontro e desencontro do indivíduo. Uma vez mais, esse tema caro à modernidade exibe nos versos dos poetas os seus flâneurs contemporâneos, sujeitos errantes que experimentam o estranhamento e o encanto. Essas várias aproximações à cidade reiteram o facto dela se constituir como um lugar que engole e devolve outros espaços, reais ou mentais, um lugar no qual – como recita o último verso do poema Labirinto de Ricardo Aleixo – o sujeito, à custa de se perder, se reconhece. A solidão, terceiro tema essencial, decorre então da experiência urbana, mas não somente dela. Ecoando o verso drummondiano “mundo, vasto mundo”, pode-se dizer que dele também se desprende um sentimento de solidão. Nessa direcção, os elementos da natureza (a pedra, a água, o pássaro) são mensageiros desse infinito que alumbra e esmaga, com a sua potência e beleza, o ser humano, e sugerem, principalmente na poética de Eustáquio Gorgone de Oliveira, Donizete Galvão e Wilmar Silva, o enigma de um mundo indizível através das palavras.

A leitura atenta do conjunto de textos aqui propostos mostramos ainda uma grande abertura para o diálogo com as fontes literárias mais variadas, ou seja, com vertentes culturais diferenciadas, privilegiadas por cada autor, como se verá a seguir.

Uma adaptação contemporânea dos traços marcantes do Barroco, assim como a manifestação de um sentir expressionista emolduram os versos de Eustáquio Gorgone de Oliveira, fazendo com que sua poesia não seja classificável dentro de nenhuma das vertentes tradicionais que caracterizaram a poesia brasileira do século XX. O mesmo pode ser dito sobre a poesia de Júlio Polidoro, na qual o tom coloquial e irónico disfarça habilmente o fundo filosófico ou existencialista. Outro percurso instigante se observa através da fusão entre o formalismo pós-concretista e as preocupações estéticas e sociais caras a Ricardo Aleixo, numa poesia que deixa visíveis as marcas da vanguarda, ao mesmo tempo em que potencializa as ambiguidades e as possibilidades de significação do seu discurso pessoal. Por sua vez, a dicção contida de Donizete Galvão se propõe como um filtro que depura e transforma o desprezo e a decomposição do corpo e do mundo – com os seus valores mais puros – em matéria poética. Já a poesia de Maria Esther Maciel revela o intenso intercâmbio com outras linguagens artísticas, como o cinema e a pintura, na tentativa de captar o paradoxo da vida, sintetizado claramente no poema A voz e o espelho a partir de uma sugestão de Octavio Paz. O mundo figurado nos poemas de Fernando Fábio Fiorese Furtado exprime a densidade da história individual e colectiva que confluem para desenhar diferentes metáforas do corpo, como se estas fossem uma “segunda pele” que concentra as linhas de uma reflexão existencial e metapoética.

No caso da poesia de Edimilson de Almeida Pereira, é possível dizer que o autor reelabora aspectos da oralidade e da estética barroca na qual os objectos, as palavras e os significados estão embutidos uns dentro dos outros, à maneira das bonecas russas que estão encaixadas, cada uma contendo em si a outra. É o sentido atribuído a um mundo engendrado por palavras e aberto para a existência de outros mundos possíveis. A poesia de Iacyr Anderson Freitas explicita a procura, por vezes dolorosa, de coisas e sentimentos profundos e cotidianos que constituem a raiz ontológica do ser humano que, frequentemente, se encontra exilado num tempo e num espaço em estado de desmoronamento e que se agarra, desesperado, à palavra e à memória para salvar as sobras desse processo de desmantelamento interior. Por seu turno, preocupados não com a descrição dos objectos ou da natureza, mas com a apreensão do diálogo entre esses elementos e o corpo-linguagem do poeta, os textos de Wilmar Silva resultam numa inquietante leitura das experiências do homem. Quanto à poética de Fabrício Marques, o cotidiano é apreendido com ironia, ou seja, a noção do dia-a-dia como o espaço e tempo dos acontecimentos previsíveis é sugerida e esvaziada através da palavra poética. A esse processo superpõe-se um cotidiano cerzido com pequenas iluminações expressas através de uma linguagem coloquial.

Como salientamos anteriormente, o ofício da mineração é incerto e desafiador, porque nos coloca – aqui na condição de leitores – diante de um campo de experiências poéticas em parte conhecido, em parte a ser desvendado. Essa tensão consiste num dos mais fortes apelos para que se possa pensar a poesia mineira e brasileira contemporâneas como um território aberto a novos diálogos e experimentações. Oiro de Minas é, portanto, um convite para que os leitores compartilhem uma experiência crítica e enriquecedora, ao longo dessa viagem poética às Gerais.

Prisca Agustoni, Prefácio do livro Oiro de Minas

Oiro de Minas a nova poesia das Gerais


Donizete Galvão


INVENÇÃO DO BRANCO

“all this had to be imagined
as an invisible knowledge”

Wallace Stevens


O tanque é o avesso da casa.

A rebarba.

A ferrugem tomando conta da boca.

O tanque é a parenta decaída,

que machuca os olhos das visitas

com suas carnes rachadas.

O tanque é onde se lava o coador

e o pó de café de seguidas manhãs

desenha uma poça de água preta.

Uma arraia-miúda,ervas e craca e limo,

flora sem-vergonha,

infiltra-se em suas paredes.

À beira do poço,

alguém imaginou copos-de-leite.

Bebendo a umidade,

em verde e branco brotaram.

Reiventados pela distância,

erguem-se vívidos,

mais brancos que o branco,

artifício de vidro.

Recém-nascidos.

Só porque eles existem,

o tanque e seu corpo saloio

foram salvos do esquecimento.

Ricardo Aleixo

POÉTICA


Aprendi com Valéry

um pouco disto que faço:

“Eu mordo o que posso”

(palavra, carne ou osso)


Me acho

me acabo de vez

me disfarço

Edimilson de Almeida Pereira


O CORPO


Ainda está lá, apesar dos anos. De um lado a outro,

desvia-se das pedras, toca as margens cada vez mais hu-

mano. A roupa se desfez, os sapatos, o que havia nos

bolsos. Nada restou, mas o corpo flutua alheio à chuva,

ao vento, à vingança. Há muito nos povoa, suas rugas não

pertencem ao tempo de seu sacrifício. São de agora, nos

interrogam. Que fazer desse corpo que não sabemos de

onde veio e se instalou em nós?

Título: Oiro de Minas a nova poesia das Gerais
Organização: Prisca Agustoni
Edição: Ardósia - Colecção Pasárgada

roteiro

Senhor Jesus da Pedra, Óbidos

Notas sobre um debate


O programa Prós e Contras de ontem à noite demonstrou, uma vez mais, como se faz uma tempestade num copo de água.
Do lado dos não-fumadores, dois técnicos de saúde reconhecidos. Do lado dos fumadores, um jurista (que só ali estava para aparecer e fazer barulho, na sua cansativa maneira de se tornar grande defendendo as minorias) e uma historiadora (que apenas pretende fumar sem que a chateiem). Transformou-se, em grande parte do tempo,o debate numa guerra de interesses individuais, ou seja, tudo o que uma lei não é, nem pode ser.
Porque é necessário olhar para a realidade, para o que é indesmentível e ambos os lados parecem aceitar.
Assim:
- O fumo prejudica a saúde (dos que fumam activa ou passivamente)
- A lei é, acima de tudo, defensora da saúde pública
- Existe uma norma europeia que tabela a quantidade de monóxido de carbono aceitável em espaços fechados
- A partir de 1 de Janeiro de 2009, será essa mesma a tabela que indicará o valor de monóxido de carbono aceitável em espaços para fumadores.
- Os detentores de espaços abertos ao público que pretendam ter espaços azuis (para fumadores), devem instalar os extractores de fumo que possibilitem o cumprimento dessa norma, devendo para isso pedir ao técnico instalador um termo de responsabilidade.
- Só 20% da população portuguesa é fumadora.
- A lei foi bem acolhida pela grande maioria da população, nos diversos sectores, não tendo havido sinal qualquer intenção radical de desrespeito da lei.
Agora, que o Sr. Presidente da Associação de Casinos queira fazer a curva ao contrário, criando espaços de fumadores e não-fumadores porque lhe apetece e não porque é obrigado, é aceitável, está-lhe no sangue. Que o Sr. Presidente da Associação de Bares do Porto queira voltar a poder escolher quem entra ou não entra nos seus espaços, também me parece muito natural, mais pela lei da bala que assolou a cidade do que pela lei do tabaco que assolou o país. Que o Sr. Presidente da ARESP tenha o pensamento pequeno e não perceba que, até hoje, 20% dos seus clientes perturbavam os restantes 80% e reinvindique que na sua loja é ele que manda (como se agora pudesse também liberar o homicídio, a manipulação de gáses mortais ou a prostituição), bem, isso, é apenas o país que temos.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Mas porquê?

O DN continua a sua série de intervenções em defesa do bom e tradicional português, mesmo quando esse bom e tradicional é claramente porco e sem qualidade (se não viram a reportagem na RTP podem ler o artigo do Maradona )

O Bibliotecário de Olesnica

Quem sabe, um dia, não lhe será dedicado um conto ou um romance. Até lá Tadeusz Glowinski vai colecionando livros de todo o mundo na sua Biblioteca particular, na cidade polaca de Olesnica.

É uma história simples e mágica, como são habitualmente as histórias daqueles que amam os livros. Tadeusz tem vindo a construir, contactando autores, editores e outros amantes de livros, uma biblioteca para a sua cidade. Por estes dias, chegou até mim o seu email e agora proponho-me a colaborar para o crescimento desta casa do livro.

Mais informações podem ser encontradas no site do bibliotecário ou numa notícia sobre esta aventura.

the power of ethical reasoning, de Tao Lin

the most callous, stupid things were done
just because regulations required them
and no one thought to change the regulations
there are many human beings locked away
in special wards throughout the country
some of them abandoned by their parents
and sometimes unloved by anyone else
just as a hamster can be conditioned to press a lever for food
a human being can be conditioned by professional rewards
to ignore intellectual contradictions and the suffering of others
professional prestige, a vague sense of progress, cash money
all-stars, and the opportunity to travel
were the maintaining factors
in our society the mildly obese are respected
for their stability, fortitude, and excuses
they make a tiny difference by voting
but a big difference by spending $10,000 on things
and the voting and spending are for opposite things
the out-of-control behavior of meat-eating human beings
is actually admirable, because it's comforting to mothers
articulating intellectual convictions, isolating irrational behaviors
in emails and poems, and shoving the pultizer prize in your mom’s face
saying, 'i won the pultizer prize bitch'
to humble her into being a better person
are a few of the tasks that now control my life
alone at night i turned away from the computer
hit my face on the bed, made a noise
and turned back toward the computer
with a neutral facial expression, thinking
i knew how it felt not to be in control of one's life
the next day i said, 'if you really wanted to change
you would have changed by now'




Tao Lin is the author of a novel, EEEEE EEE EEEE, and a story-collection, BED, which were published simultaneously by Melville House in May, 2007 in the first two-book story-collection/novel debut since Ann Beattie in 1976. Tao is also the author of a poetry collection, YOU ARE A LITTLE BIT HAPPIER THAN I AM. His web site is called READER OF DEPRESSING BOOKS.

Civilização

O Council of Literary Magazines and Presses (CLMP) lançou, em 2006, o programa Face Out, selecionando cinco pequenas editoras independentes para receberem apoio técnico e consultivo no sentido de promoverem os seus livros e as acções com autores. Contando com o apoio de editores e administradores de grandes companhias editoriais, o programa é patrocinado pela Jerome Foundation e pela New York Community Trust.

Mesmo que à distância, é bom saber que existem ventos de civilização, algures.

Realidade, 2 - Iniciativas Governamentais, 0

Depois de meses e semanas a limpar terreno, fechando Serviços de Urgência pelo país fora, contando até com a compreensão para o facto de que, este tipo de Serviços, com médias muito baixas de utilização, não têm necessidade de existir, um choque de realidade para o nosso Governo.

Uma morte em Anadia, outra em Carregal do Sal.

Porque não há número que explique melhor o drama da morte do que a própria morte.

(Isto até poderia ser um post sobre teoria da literatura.)

O fim da Faculdade de Letras?

Primeiro, começaram os desinvestimentos, sob a capa do princípio utilizador-pagador, que mais não é uma forma de dizer que quem é pobre também tem que pagar os luxos de estudar (como os luxos de ter cuidados de saúde, por exemplo).

Depois, e porque o dinheiro assim escaseava, deixaram de contratar novos docentes, ao mesmo tempo que anunciavam, em parangonas, que isso dos estudos humanísiticos era coisa de gente antiga.

Do investimento europeu, vê-se agora muito cimento e argamassa a fazer edifícios infiltrados pelas humidades (quando era de humanidades que se precisava).

Finalmente, chegou-se onde se queria chegar, provavelmente desde o início. Lisboa arrisca-se a voltar a fazer parte daquele grupo de cidades que não tem Faculdades de Letras. Onde não há prisma algum em que se possa perceber que isto seja uma boa notícia.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Pintar o Verde com Letras

O Projecto “Pintar o Verde com Letras” resulta de uma iniciativa da Direcção Regional de Cultura do Norte, que lançou a um conjunto de escritores e ilustradores o desafio de criarem histórias que tivessem algumas das áreas protegidas desta zona do país como lugares de inspiração, e os seus habitantes, a sua fauna e flora como personagens. Aceite o desafio, os artistas constituíram-se em pares escritor/ilustrador e, percorrendo alguns dos mais belos lugares do nosso país, recolheram as impressões, experiências e conhecimentos que estão na base dos oito textos que constituem esta colecção.Assim, as paisagens do Parque Natural de Montesinho, do Parque Natural do Douro Internacional, do Parque Natural do Alvão e do Parque Nacional da Peneda-Gerês, bem como os socalcos do Douro Vinhateiro, o xisto traçado de história do Parque Arqueológico do Vale do Côa e as alturas lavradas de tradição e cultura do Planalto Mirandês são os cenários onde se irão desenrolar as histórias de “Pintar o Verde com Letras”.Os títulos e os autores dos livros são os seguintes:

Parque Natural do Douro Internacional-PNDI : Erva Palavra, Eugénio Roda e Gémeo Luís

Douro Vinhateiro (São Salvador do Mundo): são salvador do mundo, valter hugo mãe e Rui Effe

Parque Nacional da Peneda-Gerês: A Cabra Imigrante, Manuel Jorge Marmelo e Miguel Macho

Parque Natural do Alvão: Lamas de Olo, Avenida da Europa, António Mota e Elsa Navarro

Douro Vinhateiro: O Guarda-rios, Eugénio Roda e Cristina Valadas

Parque Natural de Montesinho: Trocas e Baldrocas ou com a Natureza não se Brinca, A.M.Pires Cabral e Paulo Araújo

Parque Arqueológico do Vale do Côa: Foz Côa Entre Céu e Rio, Anabela Mimoso e João Caetano

Planalto Mirandês: L Segredo de Peinha Campana, Amadeu Ferreira e Sara Cangueiro
A edição é da Gailivro e conta com o apoio da Águas de Trás-os-Montes e Alto Douro, Museu do Douro, Junta de Castilla y Léon, Parque Natural do Montesinho, Parque Nacional do Douro Internacional, Parque Natural da Peneda Gerês, Parque Natural do Alvão, Interreg III (Cooperação Transfronteiriça), CCDRN e União Europeia.

Fumo nos olhos

De cada vez que Francisco George fala, um terramoto acontece - o Director Geral de Saúde parece, aliás, o português com maior dificuldade em ser entendido neste momento. Ora, o que Francisco George disse ontem e repetiu hoje de manhã, em directo, na Antena 1, é que a lei proíbe o fumo em todos os espaços, ponto. Que, utilizando extractores de fumo que protejam a saúde de trabalhadores e demais frequentadores desses espaços fechados e que evitem a propagação do fumo para outros espaços, em áreas assinaladas poder-se-á fumar. E que, como é aliás do senso comum adquirido por décadas de experiência de fumo livre, não existem extractores com essas características.

Para mim parece não restarem dúvidas quanto ao que diz a lei, mas também entendo que Francisco George usa uma argumentação ao nível de um dicionário de manuelmachadês. Se o mesmo dissesse que não existem extractores que permitam a existência de espaços 100% azuis, acho que já seria perceptível para toda a gente, até para a maralha do Diário de Notícias.

Na generalidade dos espaços públicos em Portugal deixou-se, ordeiramente, de fumar a partir de dia 1 de Janeiro de 2008. Que certos opinion makers, jornais e televisões não queiram aceitar isso e tentem invadir o espaço de comunicação com notícias que pretendem demonstrar o contrário, não me espanta: é apenas o preço a pagar pelo circo mediático em que vivemos. Até que outro assunto qualquer tome a liderança da indignação mediática.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

je veux...



daqui

Intervalo

Este é o ano da "dor de cabeça". O ano em que a conta-corrente faz uma pausa e se olha ao deve e haver de tantos anos. O ano em que a chuva nos molha por dentro do corpo. Em que as palavras, mais que palavras, são facas que se usam contra os outros. Este é o ano.

O ano em que há um ponte final. Em que se anseia por um parágrafo. Em que se busca, sem saber se se vai encontrar, um lugar onde sentir a paz no ar que se respira. Em que encontro o que preferia que não existisse. Em que eu sei que já não posso fugir. O ano.

Este, o das coisas menos bonitas. O do trabalho pela noite fora, anotado em cadernos. O dos sonhos conduzidos pelo que não sai da nossa cabeça. O das "minhas" e das "tuas" coisas. Onde não há "nossa", onde não há acordo. É este. Este ano.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

E agora algo completamente diferente


A RTP acaba de contratar a equipa do Sporting para substituir os Gato Fedorento na programação do canal 1. Esta é aliás a primeira acção de José Fragoso como Director de Programas.

O novo programa vai chamar-se Diz que é uma espécie de equipa, e vai ser totalmente ocupado com tesourinhos deprimentes. O facto de haver uma colagem com o anterior programa feito pelos Gatos deve-se ao facto da RTP manter os direitos sobre o formato.

Já a pensar no sucesso deste novo programa, o Sporting não perdeu tempo e reforçou-se com Rodrigo Tiui, um "craque" que foi dispensado pelo Santos e pelo Fluminense, em épocas consecutivas. Aliás, basta consultar o youtube para se perceber de imediato qual a razão para isso acontecer. O homem, no ano passado, marcou três golos em dezanove jogos, todos eles de empurrar lentamente a bola para balizas desertas...

Entrando em grande no plano humorístico nacional, Tiui disse, mal chegou ao aeroporto, "ainda não fui ao Sporting, mas sei que tem uma boa equipa". Grande piada.

(sim, eu sou sportinguista, mas contratações destas tornam o humor o único escape possível...)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Aconselha-se uma visita (de olhos abertos) a uma livraria perto de si

Eu não sei se devo encarar isto como uma deriva de idiotice (da qual ninguém está livre) ou se como uma declaração de guerra.

"Muito do lixo que se publica agora vem de pequenas e médias editoras que compram romances de capa multicolor embaciada para dar um ar romântico ou moderno e que ocupam todo o espaço de exposição das livrarias."
José Pacheco Pereira, Sábado, p. 9.

Mas só para que fique claro:
- a moda das capas multicolores, coisa que felizmente se vê cada vez menos (porque ao dizer multicolor eu lembro-me sempre das tentativas mais chocantes que se experimentaram no mercado editorial), foram introduzidas em Portugal pela Oficina do Livro (se bem me lembro), e reproduzidas pela Dom Quixote, Presença e Asa. Todas elas pequenas editoras.
- Ocupar todo o espaço de exposição das livrarias pode ser um sonho de qualquer pequena ou média editora. Mas, meus amigos, quem ocupa o espaço, hoje em dia?

Bichinho no Ponto

Reportagem sobre a nova casa do Bichinho de Conto, que eu já tive oportunidade de visitar e aconselho a todos os viciados em livros e em sonhos!

Aqui.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Somos todos matraquilhos (Pimbolim é Matraquilho II)

Como eu tinha previsto (consultem aqui o meu momento Zandinga), os gajos dos ginásios não são mesmo nada burros.

"[...]sucedem-se os testemunhos dos mais variados frequentadores dos mais variados ginásios indicando que estes não estão a passar a descida do IVA de 21% para 5% para o preço das mensalidades.
Justificações como “avultados investimentos futuros” bem como “quando o preço do pão sobe 30% também ninguém reclama” estão entre o “troco” que os responsáveis pelos ginásio oferecem aos seus clientes quando estes pedem explicações. Chegou até a haver um ginásio que já tendo recebido o valor correspondente ao trimestre onde havia cobrado IVA a 21%, perante a interpelação do cliente, disponibilizou-se a corrigir a taxa de IVA para 5% mas mantendo o valor a cobrar."

Al Berto - 11 de Janeiro


Hoje, dia 11 de Janeiro de 2008, Al Berto faria 60 anos.

Não é um poeta que esteja entre as minhas referências, não é um poeta que eu diga como um dos meus. No entanto, dois dos seus livros chegaram até mim como flechas incendiadas, abrindo na minha visão do mundo, da literatura e da vida, uma cisão que me obrigou, de vez, a evoluir para lá da direcção prevista.

Lembro assim, nesta ocasião, dois momentos. Um, no Pavilhão do Campo Grande da Faculdade de Letras de Lisboa, onde me sentei, num dos anfiteatros, a ler Horto de Incêndio, deixando-me embalar numa poesia dolorosa, sangrenta e vivida, maneira de dizer em poema o que nem sempre se tem coragem de chorar. Outro, na varanda de casa do meu pai, em Santa Cruz, Lunário, paraíso perdido da juventude, um On the Road poético e desencantado.

Não é pouco, num autor, dois livros que nos toquem tanto e tão intensamente. Não é pouco. Por isso hoje o murmurar do aniversário, o manter de uma memória contra o apagamento dos dias.

Recado
ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-se
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno almoço

in Horto de Incêndio

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Ideias com livros dentro.

Recebo do Brasil a promoção de um livro que teve uma rede de distribuição inovadora: o contrabando.
Explica-se assim: foram escolhidos 60 contrabandistas entre amigos, leitores, professores e a cada um foi entregue 10 exemplares de um livro com o seguinte compromisso:

-Não desperdiçar os livros
-Não os vender
-Entregar esses 10 exemplares para leitores, aos quais nunca chegariam esses livros, seja pela falta de divulgação da literatura na grande mídia, seja pelo preço absurdo do livro no Brasil, seja pelas livrarias blockbusters, seja por todo o sistema das oligarquias editoriais.
O resultado são 600 exemplares de um livro colocados onde nunca chegariam de outra forma. A iniciativa é apoiada pelo Programa de Acção Cultural do Governo do Estado de São Paulo e pode ser consultada aqui.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Diz que é oficial

Então foi assim, 'tás a ver, a modos que o administrador corrente da érretêpê não aceitou a proposta dos gatos, e prontos, a Sique foi-se a eles e nem lhes perguntou plo papel, assinou logo, e quando o chefe novo lá do outro lado veio dizer, "ah e tal, eu até pago mais", os gatos já não estavam para ali virados e pimbas.

(Agora a sério: os Gato Fedorento, como era previsto, mudam-se com Nuno Santos para a Sic. A partir de Setembro, esperemos que algo que seja mais que uma espécie, assim algo mesmo bom, estão a ver? Agora só falta perceber qual o acto de gestão que pode justificar deixar-se sair assim um dos maiores activos de uma empresa pública. E se depois de estar o negócio perdido se pôde oferecer mais que o concorrente, o que andaram a fazer os senhores administradores o resto do ano? A ver os Malucos do Riso?)

Onde se vê que jornalismo e Marketing do Livro estão como estão

Hoje, faz cem anos que nasceu Simone de Beauvoir. Nos nossos dois jornais diários de referência, podemos encontrar artigos sobre o facto. Em ambos os jornais é referido o livro Tête à Tête, de Hazel Rowley, onde é explorada a relação de Beauvoir com Sartre. Ora, o problema, é que em ambos os casos se esquece a referência à edição portuguesa desses livros. No caso do Público, Alexandra Prado Coelho ignora-a e no Diário de Notícias, Ana Marques Gastão faz referência a ela sem anunciar nem título, nem editora.

Por uma questão de justiça, a prática jornalista, sempre que faz referências a livros deveria, julgo eu, fazer referência também à edição e à editora portuguesa da mesma. Neste caso, aqui fica. Sarte e Beauvoir - A História de uma vida, da Editora Caderno, Grupo Leya.

(Gostaria de ter aqui a imagem da capa, mas ela parece não estar disponível em site nenhum, nem de editoras, nem de livrarias...)

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Grupo Leya

Miguel Pais do Amaral apresentou ontem o Grupo LEYA, futuro maior grupo editorial português (já o é no livro geral, está em segundo no escolar) que agrupa as editoras Texto, Dom Quixote, Caminho, Asa, Nova Gaia e Gailivro (e isto só em Portugal, também detém editoras em Angola e Moçambique). Dessa apresentação há a notar os seguintes aspectos:

- Todas as editoras vão manter o seu nome e equipa criativa, sendo que partir de agora os livros passarão a estar no mercado com a denominação do grupo antes do da editora (Leya-Texto, Leya-Asa, Leya-Caminho, Leya-Dom Quixote,...). Ou seja, os receios de alguns autores em relação à identidade de cada um dos projectos editoriais confirmam-se. A partir de agora, a referência passa a ser a Leya, cada projecto editorial ganha o valor de uma sub-editora ou colecção, e assim se começa a esvaziar o valor da marca adquirida.

- Vão criar um prémio para um livro de ficção inédito no valor de 100 mil euros. Sim, 100 mil euros. Portugal passa a ter um prémio literário ao nível de vários prémios europeus. Mesmo que surjam dúvidas quanto aos critérios, aos júris e aos vencedores, um escritor receber um prémio deste valor só pode ser boa notícia. É bom saber que alguns de nós não vão precisar de esperar pela idade da reforma para receber um prémio que se veja.

- "A aposta é no escolar porque é na escola que se ganham os hábitos de leitura". Parece uma frase de um pai endinheirado que paga a propina num colégio ao seu filhinho loiro. Seria bem mais real dizer-se que a aposta é no escolar porque é na escola que as pessoas são mesmo obrigadas a comprar livros, porque é no escolar que praticam as margens mais benéficas para as editoras. Resta agora saber se funcionarão como a simpática e eficiente Nova Gaia ou se, à imagem da Texto, vão continuar a não fornecer caixas para quem levanta as encomendas do escolar nos seus armazéns.

- Quanto às práticas do grupo, nenhum esclarecimento. Percebe-se, pelos números dos despedimentos e pela notícia de eliminação de funções que se sobrepunham, que o mais provável é haver uma facturação conjunta e uma equipa de vendas com um comercial para cada zona em representação da totalidade do grupo. Ou muito me engano, ou vou mesmo ter que me habituar a racionar as compras destas editoras.

Em jeito de conclusão, o surgimento do Grupo Leya, para além de inevitável, é sinónimo de boas notícias para um grande grupo de pessoas - o investimento significará que muitos verão os seus meios melhorados. Em contrapartida, as exigências de resultados serão também muito maiores, mas uma coisa vem com a outra, nenhuma empresa deve ser a Santa Casa da Misericórdia. Ao mesmo tempo, os últimos dois exemplos de "entradas a matar" no mercado português (Dom Quixote no tempo da gestão-Gillete, Bertrand na ditadura da livraria) tiveram resultado díspares; no caso da Dom Quixote, uma editora, significou um recuo à casa de partida. Tenho a certeza que Pais do Amaral saberá o que está a fazer - e enquanto o livro poderá ganhar bastante com isso, talvez a literatura venha a perder.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Um conto para fumadores

Muito a propósito das novas leis sobre o tabaco, descobri um conto do escritor brasileiro Augusto Sales, coordenador editorial da revista paralelos.

Para vos tentar, deixo aqui um pequeno excerto:

"Certa vez, conseguiu parar de fumar por mais de seis meses. Nesse ínterim, separou-se da mulher, iniciou um regime, matriculou-se num curso de inglês, planejou uma viagem ao Taiti, e até chegou a flertar com algumas mulheres, digamos, interessantes. [...] Não durou muito."

Para ler o conto completo, façam-no, por favor, na zona reservada.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Neste blogue não se fuma

Fernanda Câncio, no DN de hoje, "O Inspector, a lei, a cigarrilha, o casino e o país pacóvio" :

"O pior de tudo isto é a pacovice provinciana de um país que, cinco meses e meio após a aprovação da lei, acorda para a realidade como se lhe tivessem decretado de surpresa as novas regras e como se leis como esta - e mais rigorosas que esta - não estivessem em vigor, há anos, noutros países, onde, diz-se, parece que também há casinos, e discotecas, e restaurantes, e cafés, e pubs e, imagine-se, fumadores. E onde, consta, ninguém foi à falência ou se suicidou."

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Pimbolim é Matraquilho

Laurentino Dias, representante desportivo do dono da bola cá do quintal, anunciou aos restantes meninos uma grande novidade: a redução da taxa de IVA em "ginásios, escolas de futebol, aulas de ténis e outros desportos", com o argumento de "diminuir os custos da actividade física desportiva para aqueles que pagam para terem acesso a modalidades desportivas."

Ora, se bem me lembro, ginásios, escolas de futebol e aulas de ténis são, na sua maioria, serviços prestados por entidades privadas que visam o lucro, que oferecem, através de aposta no marketing, serviços que concorrem grande parte das vezes com serviços prestados, não raras vezes com melhor qualidade, por associações desportivas e recreativas.

Assim, de uma só penada, o governo dá um empurrãozinho a um grupo de empresas e livra-se de ter que reconhecer o que são serviços de qualidade ou de mérito, ao mesmo tempo que satisfaz um grupo de eleitores (daqueles classe A, que frequentam ginásios e têm filhos que frequentam escolas de futebol e aulas de ténis, em dias intercalados durante a semana).

Para mim, isto só pode ser uma piada. Digam-me, por favor, que é uma piada.

Livreiros em greve


A Librería Fuentetaja, propriedade do Pedro Pablo Mansilla, promotor imobiliário ligado ao PSOE entrou recentemente nas notícias do dia em Espanha por uma espantosa razão: parte dos seus funcionários entrou em greve.

Segundo os grevistas, desde que Mansilla passou a controlar 90% da livraria, passou a ser notória a falta de aposta no fundo da livraria, não existe um conceito para o espaço, parte da livraria vai-se esvaziando e não se apostou na criação de uma página web.

Para além de tudo isto, os seus funcionários tinham os ordenados congelados há 8 anos(!!!). Perante isto, os seus funcionários decidiram entrar em greve. No momento em que a greve foi anunciada, o dono da empresa propôs aumentos entre os 8% e os 10% aos seus funcionários, provocando uma cisão entre estes. Neste momento, continuam em greve metade dos funcionários da livraria, um deles foi já despedido pelo dono da empresa, e mantêm um blogue onde vão dando notícia do desenvolvimento da greve.

Aproveito a divulgação desta notícia, para expressar o meu apoio às razões dos grevistas e para saudar a crença no verdadeiro papel que cabe às livrarias pela parte destes livreiros.


Lobo Antunes, Coerência e Capitalismo (2)

"Os camponeses ricos têm uma forte propensão para o capitalismo"
Mao Tse-Tung

Lobo Antunes, Coerência e Capitalismo

O Manuel, durante as minhas férias, chamou a atenção para a coerência editorial, aquando da indignação pública de Lobo Antunes pela venda da Dom Quixote ao Grupo Paes do Amaral sem que ninguém o avisasse previamente. Passo a citar:

"Lobo Antunes ameaça deixar de publicar em Portugal. Fala de coerência editorial e coisas do género. Mas desde quando é que a Dom Quixote tem coerência editorial? Principalmente nos últimos anos. Prometeram a obra completa de Robert Musil: ficaram-se (até agora) por um título. Publicaram Carolina Salgado, Ana Bola, António Sala, Inês Pedrosa, Io Appoloni, Paulo Cardoso, Pecadora, Rita Ferro, Ana Zanatti, Clara Ferreira Alves. Coerência? Afinal até há. Não sei é se Lobo Antunes já reparou nisso."

Acredito que este seja um problema interessante de ser discutido, afinal quantos autores literários estariam disponíveis para se sentar ao lado de Carolina Salgado na apresentação do seu livro? E, no entanto, é desta realidade que se trata quando se fala de livros. Hoje em dia, o mais apetecível para o mercado do livro é a novidade que vende bem, a novidade que toda a gente quer, e por aí se vê que os livros mais vendidos são os segredos, os rios das flores e os sétimos selos. Também são desses livros que os jornais falam, aos quais dedicam páginas e até capas. São com esses livros que se pagam os ordenados e que se arrendondam os números para apresentar ao investidores. São desses livros que se fazem concentrações editoriais e grandes grupos com cotação na bolsa.

Tudo isso está para lá da literatura, como está Lobo Antunes quando tenta marcar terreno quanto às suas vontades. Não está, nem nunca esteve, no seu horizonte, escolher quem é ou não é publicado na sua editora (afinal ele nem deve ler assim tantas novidades). O que está no seu horizonte é poder continuar a lançar, a dar entrevistas, a receber elogios ou críticas de quem ele quiser, quando ele escolher.

E então, o que vemos, não é o Lobo Antunes literário. É apenas o Lobo Antunes a tentar impôr o seu ritmo no mercado do livro em que vivemos. Poderia ser uma questão de orgulho. Mas será apenas esperteza saloia.

Venda a Retalho - II

Já foi divulgado o top de vendas de 2007 da Livrododia. Em primeiro lugar ficou O Segredo, de Rhonda Byrne (Ed.Lua de Papel). Os seguintes lugares da lista ficaram reservados para O Rio das Flores de Miguel Sousa Tavares (Oficina do Livro), Histórias de Torres Vedras de John Gideon Millingen (Livrododia), Harry Potter e os Talismãs da Morte de J.K.Rowling (Ed. Presença) e Entre o Mar e Montejunto de João Carvalho Ghira (Livrododia).

Em comparação com os anos anteriores, há repetentes. Em 2006, o mais vendido tinha sido Entre o Mar e Montejunto, seguido do Burro Pateta de Ana Meireles e Marta Pereira (Livrododia) e O Outro Pé da Sereia de Mia Couto (Caminho). Em 2005, o primeiro lugar do top foi de Harry Potter e o Príncipe Misterioso de J.K.Rowling (Presença), seguido de Registo de Nascimento de Luís Filipe Cristóvão (Livrododia) e Astérix - O Céu cai-lhe em cima da Cabeça (Asa).

Prémios Livrododia 2007 - Nomeados

Entramos na segunda fase da escolha dos Prémios Livrododia 2007.
Assim, para cada uma das categorias, os nomeados são:

Ficção:
Aprender a Rezar na Era da Técnica, Gonçalo M. Tavares, Caminho
Debaixo do Vulcão, Malcolm Lowry, Relógio d'Água
O Meu Nome é Vermelho, Orhan Pamuk, Presença
Margarita e o Mestre, Mikhail Bulgakhov, Relógio d'Água
As Sete Estradinhas de Catete, Paulo Bandeira Faria, Quidnovi

Poesia:
Paroles/Palavras, Jacques Prévert, Sextante
Sonetos a Orfeu e Elegias de Duíno, Rainer Maria Rilke, Bertrand
E Como Ficou Chato Ser Moderno, Luís Filipe Cristóvão, Livrododia
Compêndio para o uso de Pássaros, Manoel de Barros, Quasi
Orlando Furioso, Ludovico Ariosto, Cavalo de Ferro

Ilustração:
Mulheres que lêem são perigosas, Stefan Bollman, Quetzal
O Filho do Demónio/ A Adivinha do Rei, Alice Vieira e Daniel Silvestre Silva, Caminho
Os Dois Lados, Gonçalo M. Tavares e Rachel Caiano, Caminho
O Casaquinho Vermelho, Lynn Roberts, Dinalivro
Tratado de Umbrografia, José Carlos Fernandes e Luís Henriques, Devir

Capa:
Tópicos para uma Catástrofe, Elizabeth Colberg, Guerra & Paz
O Sonho de Borges, Blanca Riestra, Livros de Areia
Quando eu Nasci, Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso, Planeta Tangerina
O Meu Nome é Vermelho, Orhan Pamuk, Presença
Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, Jonathan Safran Foer, Quetzal

A votação faz-se, online, no endereço http://www.diariodeumlivreiro.blogspot.com/