quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Sobre o Preço dos Livros

Descobri há pouco um post no blogue Vida de Livreiro que me concedeu a oportunidade, com um caso prático, o crime que vem sendo praticado pelo site Webboom com a sua denominada Campanha de Natal. Já tinha percebido que essa Campanha comportava alguns atropelos à Lei do Preço Fixo, mas no exemplo que vos vou dar a seguir, mais do que à Lei do Preço Fixo, a Webboom incorre num crime de falsificação de informação para praticar preços inacreditáveis em livros que foram lançados há pouco tempo no mercado.

O livro que serve para exemplificar esse caso tem por título A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis - Do Terremoto de Lisboa à Independência do Brasil, da autora Lilia Moritz Schwartz com Paulo Cesar de Azevedo e Angela Marques da Costa, numa edição da Assírio e Alvim. Como poderão constatar pela consulta do site, este livro foi lançado em 2007 e tem, como preço de capa do editor, 35 €.

Ora, o mesmo livro, no site da Webboom, tem como preço 23, 63€ e indica como ano de edição do livro, 2003. Ora, se essa informação fosse correcta, o desconto de 20% seria legal, propiciando ao cliente um preço de 18,9€. Mas como essa informação (data de edição e PVP) é falsa, a ilegalidade de vender um livro lançado em 2007 com 54% de desconto é clara!

Junto então o comparativo entre a ilegalidade da Webboom e um caso real (Livraria Livrododia). Não faço ideia a que preço a Webboom teve acesso a este livro, e para falar verdade, tendo em conta o preço a que vende, nem quero saber. É vergonhoso. A Livraria Livrododia, Lda, comprou, através do distribuidor oficial da Assírio e Alvim, a Sodilivros, exemplares deste livro a 24,50€ (um desconto de 30% sobre o PVP) e vende-os a 35€. Se decidirmos colocar este livro como Livro do dia, com um desconto de 20% (o máximo que se pode aplicar a uma novidade, em campanhas), o livro poderá ser adquirido por 28€. Na Webboom, é o que se vê.

O cliente fica a ganhar? Ocasionalmente. Em termos globais estes atropelos fazem com que o preço médio dos livros aumente todos os anos. Mais. Não vendendo nenhum exemplar deste livro, a tendência natural das livrarias é encomendar cada vez menos (e logo, disponibilizar cada vez menos ao público em geral) títulos que são usados pelos concorrentes para "queimar" a concorrência. E assim, quer a editora, quer o cliente final ficarão a perder. Uns por não venderem, outros por não conseguirem encontrar nas livrarias a diversidade que desejavam. Pela Internet, poderá comprar-se tudo, dizem alguns. É capaz de ser verdade. Mas se não soubermos que o livro existe, como o vamos poder encontrar?

Deixamos tudo ao acaso? Acho que é o que tem acontecido até aqui...

5 comentários:

  1. Sinceramente, não percebi por razão estes “atropelos” fazem o preço médio dos livros aumentar. Que é uma ilegalidade já percebi, mas que a consequência apontada exista, realmente, parece-me bastante forçado.
    A grande maioria dos meus livros é comprada na Internet (quase sempre na Webboom, diga-se de passagem) mas acho que este não é um mercado que prejudique nem as editoras nem os leitores. Acontecerá, sim, às editoras que não apostarem no virtual, ou àqueles que não têm acesso à Internet, mas culpar as livrarias virtuais, ou pelo menos atribuir-lhe essa culpa, não me parece justo. Já por várias vezes corri várias livrarias convencionais em busca dum livro para depois ter de o comprar na Internet, por não o encontrar em lado nenhum, livro que conheci, como é previsível, na Internet.
    Bom Natal!

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  2. Já agora, uma questão se me souber responder: os hipermercados fazem por regra os 10% sobre o preço do editor, e durante o período de Natal houve campanhas de desconto adicional de 20% (perfazendo quase 30%), pelo menos em dois hipermercados diferentes (em todos os livros, incluindo novidades).

    Estes descontos eram "em cartão" ou em vales de desconto. Isto é legal?

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  3. . O "crime" da Webboom foi terem introduzido no sistema um PVP errado, com 32,5% de desconto em relação ao PVP correcto, talvez o preço de custo. Foi corrigido quando o descobriram.

    . Não há estudos conclusivos quanto aos efeitos preço fixo vs. preço livre. Em mercados de preço fixo como em mercados de preço livre, as cadeias têm matado as independentes, as grandes têm matado as pequenas. Em mercados de preço livre, a concorrência anula as margens nos bestsellers, mas em contrapartida o fundo de catálogo costuma ser vendido acima do preço recomendado - quem recebe os dados ingleses da Nielsen sabe que isso é verdade porque pode comparar o ASP (actual street price) médio vs. RRP (recommended retail price).

    . O PMR (preço médio de retalho) de um livro em PT, segundo o último estudo da gfk, está nos 17€. Há 3 anos, seria de 12,5€. É uma subida de 10% ao ano, muito superior à da inflação, e no entanto o mercado não diminuiu em valor, pelo que o livreiro só tem de rejubilar porquanto: - não está a vender menos, - está a vender com mais margem porque está a beneficiar do aumento geral das margens para o mercado (a causa do aumento do PVP médio, juntamente com as maiores devoluções) puxado pelas exigências das grandes cadeias. Se ainda anda a comprar a 30%, então é caso para se ir aconselhar à Associação de Livreiros, caso não seja a mesma dos Editores...

    . Evidentemente que a Internet não mata as lojas - só se a Webboom tivesse tudo em stock e arrasasse em preços e em prazo de entrega - ora nem tem tudo em stock nem arrasa preços nem em prazo de entrega - e, já agora, nem vende nada de especial em volume - muito menos que UMA loja Fnac, a julgar pelo último Harry Potter - 4000 exs. na Webboom com um concurso com 9000 CONTOS de prémios vs. 2500 em média por Fnac. Corrijo: a Internet não mata as lojas se as lojas se actualizarem e puderem/quiserem encomendar e entregar em tempo útil os títulos que os clientes pedem e não têm em stock. Ora, quantas livrariasnão estão para se dar ao trabalho de pedir um livro para um cliente? E quantas livrarias nem têm base de dados de títulos publicados em Portugal? "Tem o 'Não Há Almoços Grátis'? Pode encomendar-mo?" A loja respondeu não e não? Pois, assim vai morrer porque não há mesmo almoços grátis.

    . O que não é bom é ter uma lei de preço fixo estúpida como é a nossa, em que o desconto permitido de 10% é suficientemente alto para as pessoas perceberem a diferença (22€ vs. 19,80 p.ex.), e em que a excepção dos 25 dias por ano em que se pode ir aos 20% está tão confusamente redigida que ninguém percebe o que se pode fazer. Em França, são 5% de desconto e na Alemanha fixo é mesmo fixo.

    . Rui Dantas, depois de contar os 25 dias por ano por loja por evento por local por campanha por interprete-a-lei-à-sua-maneira, fique a saber que o desconto máximo permitido em novidades - e como é que as distingue das não-novidades? - é de 10%, e que tudo o que seja oferta de vales para livros, vales para batatas, descontos em cartão, pontos em cartão-fidelidade que dêem ofertas posteriores e, desde há algum tempo, oferta de portes devido à jurisprudência estabelecida em França e que é invocável em qualquer país da UE, tudo isso constitui na prática um desconto adicional e, portanto, proibido. Se escrever para igacgeral@igac.pt, vai ver que tem uma resposta bastante rápida às suas denúncias. Note que na IGAC há muita falta de meios para andar a contar os 25 dias em todos os lados porque não há obrigatoriedade de registo dessas acções, pelo que todos nós temos a obrigação legal de a ajudar, isto se concordarmos que esta lei é melhor que nenhuma lei.

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  4. Obrigado pela resposta, Anónimo da 1:01AM.

    Compreendo que os 25 dias até sejam difíceis de fiscalizar, mas mesmo dentro dos 25 dias o desconto máximo permitido é 20%, correcto?

    Nos casos que referi o desconto era de 10% + 20% (ou seja, 28%), e foi bastante publicitado. Se estes 20% extra em cartão são realmente ilegais, é estranha a situação.

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  5. rui dantas, correcto.

    O Jumbo deu 10+20 em vales no lançamento do Harry Potter; o Leclerc de Loures deu 30% em todos os livros na inauguração. O Continente está esta semana com 20%, depois de já ter estado uma semana em Novembro e depois de ter feito feiras durante o ano - ultrapassou os 25dias? Quem sabe? Há 3 motivos para tudo isto acontecer; 1 desconhecimento da lei; 2 interpretação própria da lei; 3 análise ponderada do risco de ser apanhado vs. vendas adicionais. Inclino-me mais para a 3 porque o risco de ser apanhado é efectivamente baixo.

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