segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

A Morte de Portugal - Miguel Real


Diálogo cruzado com Arte de Ser Português (1915), de Teixeirade Pascoais, Educação de Portugal (1970), de Agostinho da Silva,Labirinto da Saudade (1978), de Eduardo Lourenço, Repensar Portugal(1980), de padre Manuel Antunes, Pela Mão de Alice (1994),de Boaventura de Sousa Santos, Portugal Hoje. O Medo de Existir(2004), de José Gil, e Portugal. Identidade e Diferença (2007), de Guilherme d’Oliveira Martins, A Morte de Portugal, ensaiozinho
despretensioso e reflexivo de horas nocturnas, voluntariamente desguarnecido de citações eruditas, escrito no rescaldo dos congressos relativos aos 20 anos da morte de Padre Manuel Antunese aos 100 anos do nascimento de Agostinho da Silva e nos preparativosde um ensaio sobre Padre António Vieira, intenta demonstrar que a constelação cultural e civilizacional por que emergiu a realidade histórica designada por “Portugal”, enquadrada em quatro complexos culturais abaixo enunciados, atingiu o seu limite de esgotamento – menos por efeito de um decadentismo político (temos vivido em permanente decadência desde D. JoãoIII) e mais por causa de um fenómeno de aceleradíssima descristianização e desumanização ética da sociedade e de uma rapidíssima submersão social numa tecnocracia científica anónima que nivela as nações, metamorfoseando-as em regiões singulares de uma futura supranacionalidade europeia, comandada por títeres janotas que transfiguram a nobre arte da política numa cinzenta cadeia técnica de raciocínios causais – e está a chegar ao fim.

Assim, na linha de Eduardo Lourenço, este ensaiozinho diligencia desenhar os quatro complexos culturais por que Portugal se foi concebendo a si próprio ao longo de 800 anos de História:ora, segundo a tradição literária Renascentista, um país gerado exemplarmente no mais remoto dos tempos e contra as mais difíceis circunstâncias (Viriato); ora um país que, nos e após os Descobrimentos, se vê a si próprio como nação superior às demais, sintetizada na majestática arquitectónica do Quinto Império do padre António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho daSilva e na patética [tocante, mas idolátrica] pretensão de Fátima a “altar do mundo”; ora um país que, fracassado o sonho grandiloquente do Império, se lastima e se penitencia, considerando-se nação inferior, passível de máxima humilhação (Marquês dePombal); ora, finalmente, país mesquinho, venenoso e bárbaro,permanentemente ansioso de purificação ortodoxa (Tribunal do Santo Ofício; Index inquisitorial; Intendência pombalina;Real Mesa Censória; guerra civil entre liberais e absolutistas;carbonários e republicanos jacobinos perseguindo e chacinando instituições eclesiásticas; polícia política e tribunais plenários do Estado Novo, santificados pela Igreja Católica, perseguindo,prendendo e exilando a totalidade da oposição, levando a cabo uma guerra de 13 anos nas colónias), no qual cada corrente política e intelectual tem sobrevivido da canibalização das correntes adversárias, negando-as e humilhando-as.

1. ORIGEM EXEMPLAR: a figuração da origem exemplar de Portugal emerge na segunda metade do século XVI através da imagem de Viriato, herói impoluto, puro, virtuoso, soldado modelo,chefe guerreiro íntegro, homem simples, pastor humilde que se revolta contra a prepotência do ocupante estrangeiro,conduzindo os lusitanos a vitórias sucessivas – povo singelo e singular que, não obstante a sua fragilidade militar, é vencedor das legiões do império romano. Tão excelsa é a auréola de Viriato e tão recta e luminosa a sua conduta que só pela traição é derrotado. Concebida por Sá de Miranda e Camões, prolongada heroicamente por frei Bernardo de Brito e Brás Garcia Mascarenhas,a figura de Viriato sobressai no justo momento histórico do fim de 400 anos de ascensão vitoriosa de Portugal como povo exemplarmente católico, desde o conde D. Henrique a D.Manuel I, vencedor e expulsador de infiéis do território de Santa Maria, descobridor de mundos e reconvertor de pagãos. Deste modelo viriatino guarda cada português a imagem imaculada do português de antanho, patriarca da nação e exemplo ético de conduta, enraizado no terrunho natal, afeito à tradição, perfeito na humildade e na modéstia, tão sóbrio e decente quanto decoroso e conveniente – é o complexo viriatino, que nos guiou em Ourique e em Aljubarrota, que orientou a conduta histórica de Egas Moniz, Nuno Álvares Pereira, Afonso de Albuquerque e D. João de Castro e moveu fundo a política nacional de Oliveira Salazar; e quando, dúplice, a pátria abandonou à sua sorte os mazombos pernambucanos do século XVII, João FernandesVieira, madeirense desventurado, filho abandonado de um fidalgo e de uma rameira preta do cais do Funchal, fez despertar o seu complexo de Viriato e, com catanas, zagaias e arcos, inicioua guerra de guerrilha que, anos mais tarde, haveria de expulsar os holandeses do Brasil;

2. NAÇÃO SUPERIOR: da decadência do Império a partir deD. João III, do fracasso de Alcácer Quibir e da perda da independência nasce o assombro de nos sentirmos insignificantes depois de nos termos sabidos gigantes na descoberta da totalidade do mundo. Padre António Vieira, resgatando o providencialismo de Ourique e o milenarismo judaico de Bandarra,deu voz majestática a este cruzado sentimento de grandeza e pequenez, recusando testemunhar a nossa real insignificância europeia, dourando-nos o futuro com o regresso anunciado às glórias do passado, agora sob o divino nome de Quinto Império.Pela arte da palavra de padre António Vieira, Portugal, país de valor exíguo no século XVII, valendo apenas pelo legado dos territórios do Império, permanece desde então sebastianisticamente em permanente estado inquieto de vigília, aguardando o “despertar”, a “Hora!” pessoana, porque de novo cruzará os mares – agora do espírito e da cultura, falhados que foram os reais, tornando-se de novo grande – é o complexo vieirino, que nos determina a desejarmos mais do que nos pedem as forças e nos exigem as circunstâncias, pulsão social que orientou as caravelas portuguesas;

3. NAÇÃO INFERIOR: no final do século XVIII, após 250 anos de domínio exclusivo da Igreja Católica na formação da mentalidade colectiva portuguesa, arrefecido o afluxo de ouro e pedras preciosas do Brasil ao erário régio, Portugal reconheceu a sua pobreza intrínseca – o comércio urbano e as exportações nas mãos dos ingleses, o pão confeccionado com farinha branca inglesa, o carvão importado da Inglaterra, os trajes tecidos de seda de Lyon e de fazenda dos teares de Manchester, a louça provinda de Itália, as berlindas armadas em Paris, escolas públicas inexistentes, estradas reais inexistentes, hospitais públicos reduzidos ao de Hospital de Todos-os-Santos de Lisboa, quese incendiara em 1750. Magro, macérrimo era Portugal; gordo,gordérrimo o Estado de D. João V; magro, macérrimo era Portugal; gorda, gordérrima a Igreja de Portugal. Pela Europa culta ostentavam-se os espectáculos públicos nacionais como exemplo de barbárie e superstição: autos-de-fé, procissões penitenciais e touradas. O Marquês de Pombal reagiu a esta situação catastrófica, revolucionando o todo de Portugal – tesouro régio,educação, economia, urbanismo, política regalista –, assente na profunda convicção de que a Portugal, país em permanente estado de inferioridade civilizacional, nada lhe faltava para ser igual aos restantes caso se alterasse drasticamente o perfil das elites,insuflando-lhes um banho de Europa. Desde a revolução liberal de 1820, todos os ímpetos modernistas portugueses têm nascido deste complexo cultural que eleva a Europa a destino e sentido de Portugal – o complexo pombalino, hoje acefalamente política dominante do Estado português, que, como “bom aluno”,se põe na fila das estatísticas, subordinando a sua imensa valia cultural à mera e exclusiva valia dos indicadores económicos,gerando um notório sentimento de mal-estar e de inferioridade entre as actuais elites portuguesas, envergonhadas do povo rústico, bruto e arcaico que comandam, esquecendo-se de que o mesmo povo, em outros países da Europa central, governado por outras elites, atinge indicadores económicos valorosos e comportamentos educacionais distintos;

4. CANABALISMO CULTURAL: em função dos três complexos referidos,idiossincraticamente portugueses, se quiséssemos definir o tempo moderno e contemporâneo da cultura portuguesa entre 1580 – data da perda da independência – e 1980 – data do acordo de pré-adesão à Comunidade Económica Europeia –, passando simbolicamente pelo ano de 1890 – data do Ultimatum britânico a Portugal –, atravessando 400 anos de história pátria, defini-lo-íamos como o tempo do canibalismo, o tempo da culturofagia,o tempo em que os portugueses se foram pesadamente devorando uns aos outros, cada nova doutrina emergente destruindo e esmagando a(s) anterior(es), estatuídas estas como inimigas de vida e de morte, alvos a abater, e as suas obras como negras peçonhas a fazer desaparecer. Católicos ou erasmitas, papistas ou hereges protestantes, jesuítas ou iluministas, religiosos ou maçónicos,carbonários-jacobinos ou eclesiásticos, tradicionalistas ou modernistas, espiritualistas ou racionalistas, cada corrente só se entendia como una e independente quando via o seu reflexo“puro” nos olhos aterrorizados do adversário, quando o desapossava de bens, lhe subtraía o recurso para a sobrevivência e, em última instância, quando o prendia ou matava, por vezes mesmo “matando-o” depois de este estar morto, como sucedeu com os restos mortais de Garcia da Horta, em Goa, exumados e queimados. Porém, se umas correntes “matavam” o morto, privilégio dos dominicanos da Santa Inquisição, orgulhosamente autocognominados de os “cães do Senhor”, outras – animadas do mesmo ódio teológico e racionalista – “ressuscitavam-no”,como aconteceu com os maçónicos e republicanos face ao legado pombalino, fundado numa das mais impressionantes mitologias culturais alguma vez inventadas em Portugal (cf. obra de José Eduardo Franco, nomeadamente O Mito dos Jesuítas em Portugal, no Brasil e no Oriente (Séculos XVI a XX), 2007) erguendo a maior e mais importante estátua do Marquês de Pombal em pleno centro de Lisboa. Assassínios individuais e colectivos (perseguição dos judeus pela Inquisição; perseguição dos hereges pela Igreja; perseguição da alta nobreza, dos jesuítas, do “herético” Cavaleiro de Oliveira e de pensadores e poetas pré-românticos pelo Marquês de Pombal; perseguição de sacerdotes pelos jacobinos positivistas e republicanos; perseguição de comunistas e socialistas pela Igreja Católica e pelo Estado Novo no século XX; actual perseguição a funcionários públicos rebeldes pelos poderes partidários instituídos pelo governo de José Sócrates/Cavaco Silva), prisões individuais e colectivas – todos os protagonistas da história da cultura portuguesa, com raríssimas excepções, entre as data sindicadas (1580-1980), têm as mãos sujas e não poucos morreram em desespero às suas próprias mãos, ora abandonando desalentados a cortesia do Poder (de Sá de Miranda, recolhido solitário a Terras do Basto, a Alexandre Herculano, Domingos Tarroso,José Régio e Miguel Torga), ora exilando-se (desde Francisco Sanches, António Nunes Ribeiro Sanches e Luís António Verney a praticamente todos os grandes vultos da cultura portuguesa do século XX, de Aurélio Quintanilha a Adolfo Casais Monteiro, de Agostinho da Silva a Barradas de Carvalho e Fernando Gil, dos irmãos Cortesão a Eduardo Lourenço, Oliveira Marques, Vitorino Magalhães Godinho, Jorge de Sena e José-Augusto França; a imensa maioria dos pintores portugueses do século XX), ora suicidando-se (Antero de Quental, Camilo Castelo Branco e Manuel Laranjeira). Animados por um “pensamento pobre” (Pedro Roseta),não temos feito história da cultura com o pensamento, mas com o sangue, sustentando-nos antropofagicamente do corpo do adversário – complexo canibalista –, que alimenta o desejo de cada pai de família portuguesa de se tornar súbdito do chefe ou do patrão, “familiar” do Tribunal da Inquisição, sicofanta da Intendência-Geral de Pina Manique, “informador” de qualquer uma das várias polícias políticas, carreirista do Estado, devoto acrítico da Igreja, histrião da claque de um clube de futebol,bisbilhoteiro do interior da casa dos vizinhos, denunciador ao superior hierárquico.


Título: A Morte de Portugal
Autor: Miguel Real
Editor: Campo das Letras

5 comentários:

  1. Belíssimo, interessantíssimo trabalho. Recomendável reflexão sobre a nossa história.

    PALAVROSSAVRVS REX

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  2. Excelente! Deveria ser obrigatório que todos os nossos o lêssem!

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  3. belíssimo, interessantissimo, excelente, recomendável? isto é uma piada de mau gosto? nunca pensei encontrar elogios destes neste blogue a um livrinho que´só é interessante por aquilo que ignora ou escolhe ignorar.

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  4. A nossa filosofia e os nossos movimentos culturais são canibalistas, marcados pela negativização constante? Isto não só significa pouco como revela um profundo desconhecimento em relação ao assunto e, pior do que isto, uma desonestidade intelectual, (que, infelizmente, tem precedentes.) Bastaria ler com atenção as obras dos autores que Miguel Real cita e os movimentos culturais que analisa para compreender que há mais, muito mais para além das sínteses, algumas das quais erradas, que dá a conhecer aos seus leitores. Tenho ideia de que M.R quis que o ouvissem, mais, fiquei com a certeza de que é um bom escritor, um agradável dramaturgo, mas um muito fraquinho pensador, recuperando teses do passado, melhor elaboradas, escritas em seu tempo próprio. (Penso, por exemplo, no 'labirinto da saudade' do E.L.) Mas Miguel Real vem tarde, muito tarde, só não sei é explicar porquê, que razões tem.... que sentido este livrinho faz?

    Um abraço.
    L.

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  5. Portugal está morto já há muito. Sempre que aí vou, nos meus intervalos do emigras, oiço tanto português quanto [i]brasilês[/i].

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