segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Porto (uma vez mais)

Nunca as viagens de comboio foram pautadas por tanto sono e esse é um sinal bem forte de que tenho andado a dormir pouco. Ainda assim, houve tempo para ler do princípio ao fim O Último Minuto da Vida de S., a novela escrita pelo Miguel Real e recentemente lançada na Quidnovi. É um livro de leitura rápida, por sinal possível de se ler no Intercidades entre Lisboa e Porto. Apostando numa linguagem construída, algo a que já nos habitou o autor, este livro fala-nos de um flashback da personagem no momento em que se apercebe da sua morte (após a detonação de um explosivo na avioneta). Sendo a personagem Snu Abecassis e o ambiente a evolução do Portugal do Estado Novo para os primeiros anos da Democracia, o tema é suficientemente atraente para se tornar numa agradável leitura. Não traz nenhuma intenção polémica, na minha leitura. É um documento da visão de uma mulher no país que temos.

Na volta do comboio, o sono ganhou aos livros. Enquanto ia espreitando dois livros de poesia que viajaram comigo, deixei-me levar pelo balanço da carruagem e pus em dia um sono que andava ao abandono. Na verdade, soube-me muito bem deixar-me assim levar pelo inevitável, e perceber, no fim, que aquilo que o corpo pede não pode ser esquecido, já que os seus avisos retornam, sempre, com uma insistência maior e mais vital que os anteriores.

Falo de sono e esqueço o que terá sido mais importante destes dois dias da viagem ao Porto. A tarde de sexta-feira foi passada a descobrir o Porto a pé, juntando finalmente no meu mapa mental três ou quatro pontos do Porto onde tinha ido de carro, agora que os vejo tão próximos uns dos outros. Ao chegar ao Porto percebi desde logo que o frio tinha chegado comigo ( ou teria sido eu a chegar ao frio? Não sei...) e isso é um daqueles bons presentes que me podem dar. Estava um dia brilhante de sol fresco, o ideal para me ir perdendo por várias ruas da cidade, a encantar-me com os nomes das lojas, os edifícios que vão caíndo ao sabor das vontades de donos com ideais de construção renovada. O Porto está, felizmente, cheio de uma vida familiar e fortemente ligada às redes de conhecimento e de contacto, o que faz desta cidade um dos bons lugares para se viver. Passeia-se pelas ruas e sente-se que algo de familiar nos toca, seja pelo desenho da cidade, seja pelo contacto com as pessoas. Ser do Porto é como ser de uma grande família, que nos aconchega e nos repreende. E apesar dos sentimentos contraditórios que isso possa dar a entender, estar no Porto de passagem é sempre muito muito bom.

À noite, a apresentação do livro. Tenho que agradecer à Márcia Barbosa que aguentou estoicamente o frio desta noite de sexta-feira (é maldade o balcão da livraria estar assim à mão do frio) e tornou possível a apresentação. E tenho que agradecer também ao Pedro Eiras a disponibilidade e o brilhantismo que emprestou ao meu livro durante aqueles minutos em que falou dele. Cada livro, para ser um verdadeiro livro, tem que ter um leitor assim, que o lê nas várias possibilidades do discurso e o entende como um todo criado por um autor. O que posso dizer é que ele deu ao meu livro a possibilidade de o ser, e estou-lhe eternamente grato por isso. Foi também bom rever algumas caras conhecidas e partir entretanto em busca da noite para um quarto andar da Rua do Coliseu, o Espaço Maus Hábitos, que é daqueles lugares em que dá vontade de voltar regularmente.

Ao voltar a casa, o tempo pareceu pequeno para a ida e volta. Fica, como sempre, a vontade de parar, por ali.

3 comentários:

  1. mágoa non estar no porto para compartir contigo a presentación da criatura.

    vida saudábel para ela e apertas para ti.

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  2. O Porto também gostou da tua presença por cá e agradece que voltes mais regularmente...

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