sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Para ajudar ao passar das horas em greve geral...

Não que eu acredite em Greves Gerais à Sexta-feira, mas aqui deixo uns versos de Gregório de Matos, ilustre poeta português e brasileiro do séc.XVIII, como mote para os grevistas.

SÁTIRA AO GOVÊRNO DE PORTUGAL POR GREGÓRIO DE MATTOS
REÇUSITADO EM PERNAMBUCO NO ANNO DE 1713.

1 Um Reino de tal valor
e de povo tão honrado
é justo seja louvado
desde o vassalo ao Snr.
ainda que fraco orador
a verdade hei de dizer,
e cada qual recolher
pode aquilo que lhe toca
ainda que digna o provoca
uma imitação Real
Este é o bom governo de Portugal.

2 Um rei menino inocente
sem compaixão nem piedade
inimigo da verdade
com adulação contente
em uma sombra aparente
tanto se enleva este Rei
faltando do Reino a lei
seguindo somente os vícios
e com torpes exercícios
o chegou a extremo tal
Este é o bom governo de Portugal.

3 Para os povos bem reger
Deus o pôs neste lugar
não para o desgovernar,
nem para o Reino perder;
mas creio lhe fazem crer
que é já virtude o pecar
e o que deve, não pagar
ter ambição, e avareza
perseguindo a pobreza
com tributo desigual
Este é o bom governo de Portugal.

(...)
6 Que haja um Conselho de Estado
para mil resoluções
e que em todas as ocasiões
é sempre desacertado
o parecer sempre errado
foi de seus desacertos
obrar com desconcertos
e só para os bons intentos
lhe segua os entendimentos
o grão Demônio Infernal
Este é o bom governo de Portugal.

(...)
11 Anexa a contadoria
donde o Máximo é rezisto
porque na junta o que é visto
se remete a esta via:
se falta aqui a valia
para a boa informação
acha-se uma dilação
e uma dúvida no cabo
que té o mesmo Diabo
dirá por regra geral
Este é o bom governo de Portugal.

12 O Conselho da Fazenda
com dúvidas e demoras
passam anos, dias e horas;
os pobres nesta contenda
em dilação estupenda
três anos aqui andei
que na verdade não sei
como o posso referir
não houve que deferir
foi o despacho final
Este é o bom governo de Portugal.

(...)
23 Da Câmara, e Senado
que em obras, taxas, licenças
deve com toda a presteza
ter particular cuidado
o governo é de estado
e são as ruas da cidade
monturos e porquidade
e o que tem que vender
o vende pelo que quer
por ter seguro o costal
Este é o bom governo de Portugal.

24 Os Ministros de justiça
que nunca a fizeram direita
porque a valia respeita
pela puta, ou por cobiça
o Demônio assim lhe atiça
este fogo em seus ardores
juíz e corregedores
letrados e escrivães
alcaides, e tabeliães
todos vestem de um saial
Este é o bom governo de Portugal.

(...)
34 Que venha todo o estrangeiro
e cada um negociando
o ouro e prata vão levando
deixando-nos sem dinheiro
e não há já conselheiro
que seja homem de talento
que apurado o entendimento
algum remédio lhe aplique
para que o Reino não fique
exausto deste metal
Este é o bom governo de Portugal.

35 Que andem por esta cidade
roubando vários maraus
e que estes vaganaus
tenham a favor e amizade;
sem ter honra, nem verdade
furtando uma, e outra vez,
achando o Conde, ou Marquês
que dizem se presos vão
que são de sua obrigação
ao ministro principal
Este é o bom governo de Portugal.

(...)
38 Os mais que aqui não refiro
fiquem à eleição dos leitores
que de tão graves oradores
muito pouco me admiro:
corra a fortuna seu giro
com mil voltas e rodeios
pois, que por tão vários meios
vivem neste Reino insano
o bom, e o mau, alto, e malo
e como quer cada qual
Este é o bom governo de Portugal.

39 Já não temos que esperar
neste governo insolente
mais que perecer a gente
sem o bem nunca alcançar;
só para Deus apelar
pode o povo português
e pedir-lhe desta vez
que nos dê governo novo
para que com ele o povo
sigua no seu natural
Este é o bom governo de Portugal.

3 comentários:

  1. Atribuído a Gregório de Matos por Tomás Pinto Brandão, que, já após a morte de Gregório, os terá escrito e publicado.

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  2. Olá Henrique,

    Muito obrigado pela nota clarificadora quanto à origem dos textos.

    ;)

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