quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Lixo

Não, não sou assim teimoso, nem tenho a cara verde, apenas esta luz, dentro do quarto que frio, esta maneira de dizer as coisas umas seguidas das outras, como se trocasse o posto de rádio a cada frase quase feita, puxar a manta para me aconchegar do frio, romper a manhã com os meus dedos, buscar infinitamente o ponto-de-vista que imagino enganado - mas afinal sou eu que me escondo ou ninguém me vê mesmo, passível de ser trocado a cada instante por, sei lá, uma música melhor que a minha.

Mas não, esta não é a minha vida, apenas uma maneira como as outras de começar um romance que não passará nunca da primeira página, eu sentava-me numa livraria pequena que conheci a ler primeiras páginas, fazia montes de livros sobre uma mesa onde havia o cinzeiro e depois saía, deixando o monte de livros por arrumar, estou certo que alguém esperava religiosamente a minha saída para voltar a ordenar os livros, todos os livros da história da humanidade - é para isso que servem as livrarias, os livreiros - estou certo que era alguém, mas eu agora não sou capaz de dizer quem.

Não, não sou assim teimoso, esta minha mania de repetir as coisas como as outras, tanto faz preto ou branco não quero saber, deixei-te na carteira um bilhete de autocarro já usado, quero que te lembres de mim quando chegares a casa, a roupa molhada estendida faz dias, o Pedro Eiras sentado num sofá a alinhavar versos numa tela só de letras, uma revista Cruzadex deixada ao meu lado no comboio, o homem que ressonava, esta minha mania de repetir as coisas, eu sou como os outros, como os outros, não sei, e tenho medo, do que te possa ter feito pensar de outra maneira.

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