sábado, 3 de novembro de 2007

Histórias de Torres Vedras - John Gideon Millingen

Todos conhecem a belíssima vila de Vale da Mula. Pois bem, eu sou o seu indigno cura. No outro dia, tinha eu ido ver o meu velho tio a Alfaiates, quando ouvi que estes malandros Franceses andavam a percorrer o país. Tinha deixado para trás a minha sobrinha, Maria das Chagas - Santo António a abençoe – e sabia que ela não tinha hipótese com aqueles amaldiçoados vagabundos – e lá voltei eu. Mal tinha chegado à entrada da vila quando fui informado que umoficial dragão francês e os seus quatro comparsas tinham chegado para exigir dez mil rações e um tributo que, se não fossem fornecidosem vinte e quatro horas, o pobre Gomes Pinto, nosso juiz de fora, seria enforcado na manhã seguinte, quando a brigada avançasse. De seguida, soube que este sujeito se tinha alojado em minha casa – sem dúvida pensando que um pobre sacerdote mantinha uma boa mesa euma bonita sobrinha – e não estava errado de todo; que fazer? Era de noite e pensei que a pobre senhora das Chagas devia estar a precisar da Senhora dos Aflitos. Fui ter com o meu primo José da Silva, o farmacêutico, e disse-lhe que estavam apenas quatro franceses em minha casa e que era bem capaz de tratar deles. Dito isto, pedi-lhe uma onça de arsénico branco, uma pistola, umas quantas preces elá fui eu.
Dirigi-me primeiro ao estábulo, para deixar a mula – chamei o meu moço João, mas não fui capaz de encontrar o diabo do rapaz: sem resposta, e não admira, pois ao abrir a porta do estábulo lá estava o João, pendurado pelo pescoço. “Começam bem”, disse eu; “é esta a vossa filantrópica protecção! Veremos como isto acaba”.
Subi as escadas e que foi que eu vi senão este infernal oficial francês sentado à minha mesa, com a Maria a seu lado, bebendo o meu melhor Borba e mastigando os meus bolos – bolos que me foram enviados pela minha prima, a abadessa de Pinhel – e que bolos! Em toda a Beira não se faziam outros assim! Dei ordem à minha sobrinha para que preparasse o jantar para o meu hóspede– ele empurrou-me para fora da sala dizendo que a minha sobrinha não era nenhuma cozinheira e que me cortaria ambas as orelhas se não lhe apresentasse imediatamente uma malassada, enquanto os seus exuberantes camaradas juravam que me lançariam ao rios e não lhes desse mais vinho. E eu dei-lhes vinho – correctamente adoçado com o açúcar refinado do primo José. Eles estavam num anexo, a certa distância, e, depois de lhes servir a sua dose, dei a volta à chave e deixei-os a apreciar a bebida.
Não havia tempo a perder – fiz uma tortilha e levei-a ao capitão,que havia sentado a Maria no colo e tinha a imprudência de a beijar diante de mim; mas o que me vexava mais era pensar que ela não parecia achar esta conduta inapropriada.
“Jesus, Maria, José!”, exclamou a rapariga atrás dele, benzendo se.“Deixa lá isso,” continuou o sacerdote, “deixa lá, já passou” – e o dragão devorou a sua malassada, e depois bebeu mais do meu precioso Borba, e pediu mais bolos. Ele estava desarmado, o sabre e pistolas estavam na mesa de entrada – por isso fui buscar um cesto de bolos e coloquei-o diante dele; então, deu outro beijo à Maria e mandou-me para a cama ou para o inferno – o que me fosse mais conveniente.(...)

Nota: Histórias de Torres Vedras é um volume de contos publicados originalmente em Inglês, no ano de 1839. O autor, John Gideon Millingen, fez parte do Exército Inglês presente em Portugal durante as Guerras Peninsulares.
Título: Histórias de Torres Vedras
Autor: John Gideon Millingen
Tradutor: Justa Barbosa
Editora: Livrododia Editores

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