quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Da leitura de E como ficou chato ser moderno por Rita Faria

É uma poesia adolescente, no sentido em que parece ali haver muitas memórias de adolescente. Gostei muito desta reminiscência – a lembrança de um tempo em que os dias eram mais longos, com mais tédio, com mais problemas simples, com mais dúvidas, com mais domingos, com mais desgosto, com mais desilusões amorosas, e também com muito mais simplicidade.

O ritmo da poesia também me encantou – lento, pausado, quase aquele ritmo confortável da rotina do quotidiano. Escrevo isto porque li cada poema, como disse, com muita calma, quase como se estivesse a ouvir o matraquear dos dedos nas teclas da máquina (ou computador, o que será mais provável nos dias de hoje) ou até mesmo o som do lápis de carvão no papel – um som que não oiço há anos. Era o próprio poema que impunha esta serenidade, talvez pelos versos, em geral, se alongarem, de modo que este ritmo tranquilo se transferiu para a leitura. Lembrei-me de dias de sol passados aqui nesta cidade e do silêncio da hora de almoço, em que as lojas fecham e não se vê ninguém na rua – as pessoas estão ocupadas nas suas pausas pessoais. E há uma certa felicidade nesta calmaria morta.

Um dos poemas que mais gostei foi Terreno. Fez-me lembrar um outro terreno, também baldio, também ao pé da casa de um avô (o meu, neste caso), ocupado por mim e pelo meu irmão. Todas as tardes lá íamos, não só para o encher de ficções (muitas delas importadas dos desenhos animados na altura, e eu adoro pensar nesse momento da minha vida em que os desenhos animados assumiam uma importância estrondosa), mas também para observar, estudar e manipular uma velha e ferrugenta bomba de água que ali jazia. O meu avô garantia-nos que a terra estava seca, que ali já não havia água nenhuma; porém, quando o meu irmão e eu decidimos tentar, e depois de longos minutos a dar à manivela (os braços doíam-nos já, latejavam), veio finalmente um fio de água fresca, gelada, dos gemidos enferrujados da velha bomba. Aquele fio de água era a glória das nossas aventuras.

Depois, talvez por estar embaladas nestas memórias de infância, sempre tão melancólicas, mais até do que propriamente felizes, gostei muito de A Minha Família. Pensava que era só eu que tinha este sentimento meio triste de a família ser mais um, mais um, mais um, de nos amarmos mas não percebermos, não porque nos falta amor, mas sim porque nos falta alfabetizar o coração (!) – afinal não estou sozinha. Não há mais nada que eu possa acrescentar a estes versos – são a consumação daquilo que a poesia pode fazer por nós, que é verbalizar o que nos é tão difícil de explicar mas que percebemos tão bem.

Gostei muito. É um livro bonito, silencioso, calmo, bem escrito. A frase da contracapa (enfrentar um poema é como visitar um país estrangeiro) fez-me lembrar, talvez por estar influenciada por estas recordações do passado, da frase com que L.P. Hartley inicia um livro que adorei, e que também se baseia na memória, na lembrança, no presente e no passado, The Go-Between: the past is a different country. They do things differently there. Fazem mesmo. E nos poemas também. E ainda bem. Dizia o Almada Negreiros que a salvação não pode estar nos livros. E na poesia?

A Rita Faria é amiga do Lourenço Bray e vai publicando n' O Nascer do Sol alguns dos seus textos. Eu gosto muito de a ler e, num jantar onde nos encontramos os três, pedi-lhe para escrever algo a partir do meu livro. Aqui está o resultado. Obrigado, Rita.

Sem comentários:

Enviar um comentário