sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Deutsche Grammophon - Vincent Delerm et Iréne Jacob

Quatrieme de couverture - Vincent Delerm

23 juillet, Paris s'éteint
Et sur le Quai des Grands Augustins
Nous tournons les pages à l'improviste
Devant l'étalage d'un bouquiniste
Je ne vous connais pas, je vous frôle,
Là sur le Quai, épaule contre épaule.
Nous jetons en même temps un oeil sur
Les quatrièmes de couverture.
Une biographie de Signoret
Voilà le genre de choses qui vous plaît.
Un storyboard de Fellini
Le genre de truc qui vous fait lever la nuit.
Je vous devine à Juan-les-Pins
Un Press-Pocket entre les mains
Emportez-vous à Maisons-Laffite
Ce Boris Vian en 10/18?
Je connais bien votre poignet
Je connais vos mains, votre bracelet.
J'aime la manière dont vous reposez
Tristan Corbière sur le côté
Qu'allez-vous donc penser de moi si
J'attrape en rayon "Les années Platini"?
Finalement, je préfère me rabattre
Sur la NRF de 54
300 pages sur la guerre d'Espagne
Le genre de chose qui nous éloigne
Un vieux Sempé en Livre de poche
Le genre de truc qui nous rapproche
Guide du Routard du Sri Lanka
Dieu soit loué, on ne se connaît pas.
Hitchkock-Truffaut : les "Entretiens"
Nous avons tant de choses en commun. .
23 juillet, Paris s'éteint
Et sur le Quai des Grands Augustins
Nous tournons les pages à l'improviste
Devant l'étalage d'un bouquiniste
Je ne vous connais pas, je vous frôle,
Là sur le Quai, épaule contre épaule.
Sur les quatrièmes de couverture
Nous cherchons la même aventure.
Sur les quatrièmes de couverture...

Para ajudar ao passar das horas em greve geral...

Não que eu acredite em Greves Gerais à Sexta-feira, mas aqui deixo uns versos de Gregório de Matos, ilustre poeta português e brasileiro do séc.XVIII, como mote para os grevistas.

SÁTIRA AO GOVÊRNO DE PORTUGAL POR GREGÓRIO DE MATTOS
REÇUSITADO EM PERNAMBUCO NO ANNO DE 1713.

1 Um Reino de tal valor
e de povo tão honrado
é justo seja louvado
desde o vassalo ao Snr.
ainda que fraco orador
a verdade hei de dizer,
e cada qual recolher
pode aquilo que lhe toca
ainda que digna o provoca
uma imitação Real
Este é o bom governo de Portugal.

2 Um rei menino inocente
sem compaixão nem piedade
inimigo da verdade
com adulação contente
em uma sombra aparente
tanto se enleva este Rei
faltando do Reino a lei
seguindo somente os vícios
e com torpes exercícios
o chegou a extremo tal
Este é o bom governo de Portugal.

3 Para os povos bem reger
Deus o pôs neste lugar
não para o desgovernar,
nem para o Reino perder;
mas creio lhe fazem crer
que é já virtude o pecar
e o que deve, não pagar
ter ambição, e avareza
perseguindo a pobreza
com tributo desigual
Este é o bom governo de Portugal.

(...)
6 Que haja um Conselho de Estado
para mil resoluções
e que em todas as ocasiões
é sempre desacertado
o parecer sempre errado
foi de seus desacertos
obrar com desconcertos
e só para os bons intentos
lhe segua os entendimentos
o grão Demônio Infernal
Este é o bom governo de Portugal.

(...)
11 Anexa a contadoria
donde o Máximo é rezisto
porque na junta o que é visto
se remete a esta via:
se falta aqui a valia
para a boa informação
acha-se uma dilação
e uma dúvida no cabo
que té o mesmo Diabo
dirá por regra geral
Este é o bom governo de Portugal.

12 O Conselho da Fazenda
com dúvidas e demoras
passam anos, dias e horas;
os pobres nesta contenda
em dilação estupenda
três anos aqui andei
que na verdade não sei
como o posso referir
não houve que deferir
foi o despacho final
Este é o bom governo de Portugal.

(...)
23 Da Câmara, e Senado
que em obras, taxas, licenças
deve com toda a presteza
ter particular cuidado
o governo é de estado
e são as ruas da cidade
monturos e porquidade
e o que tem que vender
o vende pelo que quer
por ter seguro o costal
Este é o bom governo de Portugal.

24 Os Ministros de justiça
que nunca a fizeram direita
porque a valia respeita
pela puta, ou por cobiça
o Demônio assim lhe atiça
este fogo em seus ardores
juíz e corregedores
letrados e escrivães
alcaides, e tabeliães
todos vestem de um saial
Este é o bom governo de Portugal.

(...)
34 Que venha todo o estrangeiro
e cada um negociando
o ouro e prata vão levando
deixando-nos sem dinheiro
e não há já conselheiro
que seja homem de talento
que apurado o entendimento
algum remédio lhe aplique
para que o Reino não fique
exausto deste metal
Este é o bom governo de Portugal.

35 Que andem por esta cidade
roubando vários maraus
e que estes vaganaus
tenham a favor e amizade;
sem ter honra, nem verdade
furtando uma, e outra vez,
achando o Conde, ou Marquês
que dizem se presos vão
que são de sua obrigação
ao ministro principal
Este é o bom governo de Portugal.

(...)
38 Os mais que aqui não refiro
fiquem à eleição dos leitores
que de tão graves oradores
muito pouco me admiro:
corra a fortuna seu giro
com mil voltas e rodeios
pois, que por tão vários meios
vivem neste Reino insano
o bom, e o mau, alto, e malo
e como quer cada qual
Este é o bom governo de Portugal.

39 Já não temos que esperar
neste governo insolente
mais que perecer a gente
sem o bem nunca alcançar;
só para Deus apelar
pode o povo português
e pedir-lhe desta vez
que nos dê governo novo
para que com ele o povo
sigua no seu natural
Este é o bom governo de Portugal.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Uma questão de língua (afiada e certeira)

Por não estar sozinho neste mundo, e para aqueles que, pouco clarificados, ainda precisavam de mais qualquer coisa, as opiniões de:

- Eduardo Pitta

- Francisco José Viegas

(a partir do Dossier de Alexandra Lucas Coelho, publicado no Jornal Público)

Nova Lei Eleitoral Autárquica


Pede-me o Francisco Rodrigues, do blogue Mais vale tarde do que nunca, um comentário à nova lei do poder autárquico. Como o seu post me inspira mais que um breve comentário, decidi escrever aqui a minha opinião.

A primeira impressão que tiro desta notícia é que, a partir das próximas eleições autárquicas, 21% dos votos serão exactamente o mesmo que 60%, passando a desvalorizar-se a maior parte da participação dos cidadãos. Ou seja, vamos ter municípios em que candidatos com 21% terão maiorias no executivo, enquanto noutro casos, poderemos chegar a ter candidatos com mais de 30% dos votos que apenas tenham direito a um lugar de vereação.

Assim, a responsabilidade total do que é feito e do que não é feito numa Autarquia passará a estar nas mãos do Presidente, que tendo possibilidade de escolher o seu executivo, estará sempre sob o escrutínio da Assembleia Municipal (um órgão, até aqui, perfeitamente acessório no poder autárquico) que, a meu ver, não possui as mínimas capacidades para acompanhar e fiscalizar o trabalho do Executivo. Isto deve-se à própria natureza do órgão, que está normalmente preenchido com uns quantos dinossáurios do concelho, em conjunto com alguns candidatos frustrados a vereadores e outros, membros de juventudes partidárias, com desejos inexplicáveis de protagonismo. Ou seja, o Presidente da Câmara vai passar a viver numa Zona de Caça, à mão da imaginação ressabiada dos pequenos coitos senhoriais que sobrevivem nos vários concelhos do nosso país. Junto a isso, e vendo a intenção da diminuição dos executivos, o que vai sobrar é mais trabalho e mais responsabilidade nas mãos de menos gente, o que um escrutinador como a Assembleia Municipal, já se pode ver bem que o que irá acontecer é a total "cubanização" do sistema.

Em suma, a verdade é esta: a um sistema que funcionou sem problemas de maior durante 23 anos (1976-1999) e ao qual foi adicionado o seu grande factor de desestabilização com a possibilidade de participação de listas de independentes em 1999, acção patrocinada pelo Bloco Central e aproveitada pelos seus rejeitados (vide os casos de Fátima Felgueiras, Isaltino Morais e Valentim Loureiro), invoca-se agora uma alteração que, a meu ver, nada trará de positivo para o eficaz desenvolvimento da acção governativa das autarquias.
P.S: Na foto, retrato-robô do futuro candidato-tipo às Presidências de Câmaras Municipais.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

A Associação Comercial do Porto e o Aeroporto de Lisboa (sim, isso mesmo, leram bem...)


Sou só eu que acha estranho que não se questione o porquê do estudo sobre um novo aeroporto de Lisboa encomendado pela Associação Comercial do Porto? Não deveriam estes senhores encomendar estudos sobre aeroportos na Região do Porto?

Pelo que se pode ver no site deles, em questões de lobbying e representação, são estes os seus objectivos:

"Enquanto Câmara de Comércio e Indústria, e para além dos serviços que disponibiliza, a ACP-CCIP assume a representação de interesses e a reflexão estratégica como sua natural vocação, ajudando a formar opinião e influenciando decisões que determinam o destino da sua comunidade.
Participa e representa a Região do Porto nos principais fóruns e centros de influência e decisão nacionais e internacionais, estabelecendo redes de contactos no sentido de reforçar e potenciar a sua capacidade de intervenção política.
Entre outros, é membro da Câmara de Comércio Internacional, da Eurochambres e da AICO - Associação Ibero-Americana de Câmaras de Comércio, mantendo canais privilegiados de contacto com Missões Diplomáticas e Gabinetes de Promoção Comercial e Turística.
Promove inúmeras iniciativas e emite recorrentemente Posições Públicas e Documentos de Reflexão.
O Conselho dos 24 e o Conselho Geral da ACP-CCIP - órgãos de consulta da sua Direcção - são constituídos por antigos Directores da ACP-CCIP e por outras personalidades representativas dos diferentes sectores de actividade da região."

Acho que poderiam acrescentar: ah! e para além disto tudo, defendemos um aeroporto no Montijo. Quanto a Pedras Rubras, que se lixe...

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Sonhar acordado


Sair de casa no Bairro de Alvalade e apanhar este autocarro para o escritório, todas as manhãs.

sábado, 24 de novembro de 2007

Para Noel (Paulo Ferraz)

Perfeitas em peso e
medida, duas obras
do gênio me tocam:
são as portas sem trancas
que cedem com um simples
toque (ou, se alto o porre,
com um tombo) e essas louças
para mijar. Nossa,
chegar sem sentir as
pernas, dar de testa
com a parede, abrir o
zíper e observar o
dourado no ralo
não têm tradução!

Paulo Ferraz

Gonçalo M. Tavares na Livrododia

No próximo sábado, o Gonçalo M. Tavares vai voltar a estar na Livrododia. Para muitos, poderá ser apenas mais um evento cultural que organizamos na cidade de Torres Vedras, no entanto, para mim, esta vinda tem um sentimento especial porque marca um ciclo na vida desta livraria.

O Gonçalo foi o primeiro autor de expressão nacional a fazer uma sessão de autógrafos na Livrododia. Foi no dia 19 de Novembro de 2005. Estavamos abertos ao público há pouquíssimo tempo e era a hora de começar com a nossa programação, cumprindo aquilo a que nos tínhamos proposto, trazendo autores à cidade. Convidar o Gonçalo foi uma opção relativamente fácil, já que é um dos meus autores preferidos, daqueles de quem tento ler tudo o que há disponível (e sabe-se o quanto no caso do Gonçalo isso é difícil). Na altura, também já tinha contagiado o Francisco e a Paula com o entusiasmo pela escrita do Gonçalo e pela sua colecção de Senhores, e então, aproveitando o lançamento do Senhor Krauss, conseguido o seu contacto através do Sr. Punilhas, vendedor da Caminho, chegou aquele que foi, para mim, um grande dia.

Estava bastante nervoso, era a primeira vez que recebíamos um autor, estava uma tarde fria de Novembro, a livraria era pequena, bem, tudo concorria para a incerteza em relação à sessão de autógrafos. Aquando da sua chegada, a simplicidade do Gonçalo foi desarmante. Acabou por ser ele a acalmar-me em relação às expectativas e aproveitou para se passear pelas prateleiras do nosso cantinho e levar para casa um exemplar do Apenas uma narrativa, o livro do António Pedro na velhinha edição da Estampa. Desse dia, ainda antes do início da sessão, relembro um curioso episódio, quando o Gonçalo foi efusivamente cumprimentado por um jogador de hóquei do Académico da Amadora que passava à porta da Livrododia em direcção ao Pavilhão da Física de Torres, mesmo ali ao lado.

O encontro desse dia correu muitíssimo bem, não apareceram muitas pessoas, mas a conversa prolongou-se no Café Império que ficava logo ao lado da livraria. Falou-se dos livros, das edições, das crianças. Ficamos todos contentes. Agora, no próximo sábado, vamos voltar a ter o Gonçalo M. Tavares connosco, desta vez na Livrododia - Centro Histórico, e desta vez será o último evento que vamos realizar no ano de 2007. O encontro com o autor vai marcar a série de eventos que organizámos este ano, desde a presença da Inês Leitão, em Março, passando pelas provas de vinho, os concertos de Jazz, o encontro de escritores de Torres Vedras, a Árvore da Ciência, o lançamento de vários livros editados por nós. Passados dois anos, crescemos, aprendemos imenso, tivemos todo o tipo de experiências que nos permitem não já sentir o nervosismo do início, mas a certeza que estamos a fazer o nosso caminho como uma livraria de referência, com dois espaços na cidade, com procura da parte de várias escolas para a realização de Feiras do Livros (este Natal vão ser sete!), com a apresentação de um catálogo sério e preenchido na nossa actividade editorial.

São muitas canseiras, muitas noites perdidas, muito stress acumulado, muitas discussões, mas no fim, estamos seguramente muito orgulhosos do que temos vindo a fazer nestes últimos dois anos. E no dia 1 de Dezembro à tarde, lá estaremos, com o Gonçalo, a festejar isso mesmo.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Lixo

Não, não sou assim teimoso, nem tenho a cara verde, apenas esta luz, dentro do quarto que frio, esta maneira de dizer as coisas umas seguidas das outras, como se trocasse o posto de rádio a cada frase quase feita, puxar a manta para me aconchegar do frio, romper a manhã com os meus dedos, buscar infinitamente o ponto-de-vista que imagino enganado - mas afinal sou eu que me escondo ou ninguém me vê mesmo, passível de ser trocado a cada instante por, sei lá, uma música melhor que a minha.

Mas não, esta não é a minha vida, apenas uma maneira como as outras de começar um romance que não passará nunca da primeira página, eu sentava-me numa livraria pequena que conheci a ler primeiras páginas, fazia montes de livros sobre uma mesa onde havia o cinzeiro e depois saía, deixando o monte de livros por arrumar, estou certo que alguém esperava religiosamente a minha saída para voltar a ordenar os livros, todos os livros da história da humanidade - é para isso que servem as livrarias, os livreiros - estou certo que era alguém, mas eu agora não sou capaz de dizer quem.

Não, não sou assim teimoso, esta minha mania de repetir as coisas como as outras, tanto faz preto ou branco não quero saber, deixei-te na carteira um bilhete de autocarro já usado, quero que te lembres de mim quando chegares a casa, a roupa molhada estendida faz dias, o Pedro Eiras sentado num sofá a alinhavar versos numa tela só de letras, uma revista Cruzadex deixada ao meu lado no comboio, o homem que ressonava, esta minha mania de repetir as coisas, eu sou como os outros, como os outros, não sei, e tenho medo, do que te possa ter feito pensar de outra maneira.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

The Carpenters - Rainy Days and Mondays

Ainda o acordo ortográfico

Tem-se referido, só para citar dois exemplos, que, em Portugal, passará a escrever-se "fato" em vez de "facto" embora se pronuncie o c , por uma questão de renúncia face aos brasileiros que escrevem e dizem "fato". E, ainda, que «os portugueses deixarão de escrever "húmido"; para usar a nova ortografia - "úmido".» , em atenção à tradição ortográfica do Brasil. Nada de mais falso.


O texto inteiro, da linguista Irma González, aqui

Porto (uma vez mais)

Nunca as viagens de comboio foram pautadas por tanto sono e esse é um sinal bem forte de que tenho andado a dormir pouco. Ainda assim, houve tempo para ler do princípio ao fim O Último Minuto da Vida de S., a novela escrita pelo Miguel Real e recentemente lançada na Quidnovi. É um livro de leitura rápida, por sinal possível de se ler no Intercidades entre Lisboa e Porto. Apostando numa linguagem construída, algo a que já nos habitou o autor, este livro fala-nos de um flashback da personagem no momento em que se apercebe da sua morte (após a detonação de um explosivo na avioneta). Sendo a personagem Snu Abecassis e o ambiente a evolução do Portugal do Estado Novo para os primeiros anos da Democracia, o tema é suficientemente atraente para se tornar numa agradável leitura. Não traz nenhuma intenção polémica, na minha leitura. É um documento da visão de uma mulher no país que temos.

Na volta do comboio, o sono ganhou aos livros. Enquanto ia espreitando dois livros de poesia que viajaram comigo, deixei-me levar pelo balanço da carruagem e pus em dia um sono que andava ao abandono. Na verdade, soube-me muito bem deixar-me assim levar pelo inevitável, e perceber, no fim, que aquilo que o corpo pede não pode ser esquecido, já que os seus avisos retornam, sempre, com uma insistência maior e mais vital que os anteriores.

Falo de sono e esqueço o que terá sido mais importante destes dois dias da viagem ao Porto. A tarde de sexta-feira foi passada a descobrir o Porto a pé, juntando finalmente no meu mapa mental três ou quatro pontos do Porto onde tinha ido de carro, agora que os vejo tão próximos uns dos outros. Ao chegar ao Porto percebi desde logo que o frio tinha chegado comigo ( ou teria sido eu a chegar ao frio? Não sei...) e isso é um daqueles bons presentes que me podem dar. Estava um dia brilhante de sol fresco, o ideal para me ir perdendo por várias ruas da cidade, a encantar-me com os nomes das lojas, os edifícios que vão caíndo ao sabor das vontades de donos com ideais de construção renovada. O Porto está, felizmente, cheio de uma vida familiar e fortemente ligada às redes de conhecimento e de contacto, o que faz desta cidade um dos bons lugares para se viver. Passeia-se pelas ruas e sente-se que algo de familiar nos toca, seja pelo desenho da cidade, seja pelo contacto com as pessoas. Ser do Porto é como ser de uma grande família, que nos aconchega e nos repreende. E apesar dos sentimentos contraditórios que isso possa dar a entender, estar no Porto de passagem é sempre muito muito bom.

À noite, a apresentação do livro. Tenho que agradecer à Márcia Barbosa que aguentou estoicamente o frio desta noite de sexta-feira (é maldade o balcão da livraria estar assim à mão do frio) e tornou possível a apresentação. E tenho que agradecer também ao Pedro Eiras a disponibilidade e o brilhantismo que emprestou ao meu livro durante aqueles minutos em que falou dele. Cada livro, para ser um verdadeiro livro, tem que ter um leitor assim, que o lê nas várias possibilidades do discurso e o entende como um todo criado por um autor. O que posso dizer é que ele deu ao meu livro a possibilidade de o ser, e estou-lhe eternamente grato por isso. Foi também bom rever algumas caras conhecidas e partir entretanto em busca da noite para um quarto andar da Rua do Coliseu, o Espaço Maus Hábitos, que é daqueles lugares em que dá vontade de voltar regularmente.

Ao voltar a casa, o tempo pareceu pequeno para a ida e volta. Fica, como sempre, a vontade de parar, por ali.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Uma questão de língua

Volta à ordem do dia a discussão acerca da língua portuguesa com o anúncio de intenções do Governo Português em avançar para a ratificação do Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico. APEL e SPA colocam-se na linha da frente para combater esta medida que, segundo argumentos apresentados no Público Online, será prejudicial para o ensino da língua, para o posicionamento de editoras portuguesas no mercado dos PALOP e, ainda, contrário ao esforço que tem vindo a ser desenvolvido pelo Plano Nacional de Leitura.

O que a APEL e a SPA não perceberam, com toda a certeza, é que o inevitável não se trava com o acessório. Os 15 anos de silêncio que são referidos na notícia são 15 anos de oportunidade perdidos, pensando que se poderia estar a entrar numa nova era da edição portuguesa com todas as ferramentas preparadas para estarmos presentes em todos os países de língua oficial portuguesa. Não foi, na minha opinião, o Acordo Ortográfico que parou, foi, claramente, o conjunto dos agentes da edição que fizeram por o esquecer, mostrando-se agora surpreendidos com o que há muito era esperado.

Alegrem-se, pois, os falantes da língua. Vamos finalmente ter uma língua portuguesa universal e abrangente, que nos colocará a par dos falantes das outras línguas europeias que se expandiram pelo mundo e vamos deixar de ter na nossa língua, a pose colonialista de Academia que fala diferente dos demais.

Homens da Luta


Os Homens da Luta - Neto e Falâncio - interromperam o treino da Selecção Nacional de Futebol incentivando os jogadores a dedicarem as vitórias "aos desempregados e a quem ganha pouco".
Foi preciso a provocação extrema destes dois actores para trazer de volta o discurso social para o mundo do futebol. O glamour, as jóias e as histórias cor-de-rosa continuam dentro de momentos.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Trabant - 50 anos




o carro

terça-feira, 13 de novembro de 2007

blogues supostamente bons que na nossa imaginação poderiam ser muito melhores

Bara Bröst, é como se chama.

Não percebendo eu patavina de sueco, posso no entanto dizer, já que vi por interposta pessoa anunciado, que se trata de um blogue criado por um grupo de cidadãs suecas que reivindicam o seu direito a fazer topless nas piscinas da, infelizmente, longínqua Suécia.

Solidariedade, alguém?

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

No Porto



A Livraria Index do Porto e a Livrododia Editores convidam-no para a Sessão de Apresentação do livro E como ficou chato ser moderno de Luís Filipe Cristóvão. A sessão realiza-se no próximo dia 16 de Novembro, sexta-feira, pelas 21h30, e contará com a presença do autor e de Pedro Eiras, que apresentará o livro.

A Livraria Index situa-se na Rua D.Manuel II, 320 (junto ao Jardim do Palácio de Cristal), na cidade do Porto.

sábado, 10 de novembro de 2007

par example...


Mon chat le plus bête du monde, de Gilles Bachelet, Éditions Seuil Jeunesse

os franceses

os franceses apanham aviões de madrugada com destino a Lisboa onde se queixam do calor. os franceses apanham táxis (e os taxistas, que eu saiba, nem sempre são muito simpáticos, nem sequer conhecem o Fernando Pessoa). os franceses encontram-se em salas onde sorriem perante as memórias de passados encontros em Paris ou em Frankfurt. os franceses fazem contas. os franceses têm dinheiro. os franceses sentam-se à mesa de restaurantes a falar daqueles que não são franceses. os franceses preocupam-se com a sua filosofia. os franceses preocupam-se com a filosofia dos outros. os franceses preocupam-se com a forma como a filosofia dos outros trata a sua própria filosofia. dos franceses que vivem em portugal, nem todos são franceses (temos belgas, por exemplo, belgas que são como os franceses, não belgas dos outros). os franceses não acreditam como se aguenta aqui com o que se ganha por cá. os franceses têm tempo. os franceses têm visão. os franceses já não dão assim tanto o corpo ao manifesto. os franceses gostam de descansar. os franceses gostam de se divertir. os franceses fazem coisas lindas. os franceses estão convencidos que todos nós devíamos ser como os franceses (e, pelos franceses que conheço, até me parece que não seria mal de todo). os franceses são fixes.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Da leitura de E como ficou chato ser moderno por Rita Faria

É uma poesia adolescente, no sentido em que parece ali haver muitas memórias de adolescente. Gostei muito desta reminiscência – a lembrança de um tempo em que os dias eram mais longos, com mais tédio, com mais problemas simples, com mais dúvidas, com mais domingos, com mais desgosto, com mais desilusões amorosas, e também com muito mais simplicidade.

O ritmo da poesia também me encantou – lento, pausado, quase aquele ritmo confortável da rotina do quotidiano. Escrevo isto porque li cada poema, como disse, com muita calma, quase como se estivesse a ouvir o matraquear dos dedos nas teclas da máquina (ou computador, o que será mais provável nos dias de hoje) ou até mesmo o som do lápis de carvão no papel – um som que não oiço há anos. Era o próprio poema que impunha esta serenidade, talvez pelos versos, em geral, se alongarem, de modo que este ritmo tranquilo se transferiu para a leitura. Lembrei-me de dias de sol passados aqui nesta cidade e do silêncio da hora de almoço, em que as lojas fecham e não se vê ninguém na rua – as pessoas estão ocupadas nas suas pausas pessoais. E há uma certa felicidade nesta calmaria morta.

Um dos poemas que mais gostei foi Terreno. Fez-me lembrar um outro terreno, também baldio, também ao pé da casa de um avô (o meu, neste caso), ocupado por mim e pelo meu irmão. Todas as tardes lá íamos, não só para o encher de ficções (muitas delas importadas dos desenhos animados na altura, e eu adoro pensar nesse momento da minha vida em que os desenhos animados assumiam uma importância estrondosa), mas também para observar, estudar e manipular uma velha e ferrugenta bomba de água que ali jazia. O meu avô garantia-nos que a terra estava seca, que ali já não havia água nenhuma; porém, quando o meu irmão e eu decidimos tentar, e depois de longos minutos a dar à manivela (os braços doíam-nos já, latejavam), veio finalmente um fio de água fresca, gelada, dos gemidos enferrujados da velha bomba. Aquele fio de água era a glória das nossas aventuras.

Depois, talvez por estar embaladas nestas memórias de infância, sempre tão melancólicas, mais até do que propriamente felizes, gostei muito de A Minha Família. Pensava que era só eu que tinha este sentimento meio triste de a família ser mais um, mais um, mais um, de nos amarmos mas não percebermos, não porque nos falta amor, mas sim porque nos falta alfabetizar o coração (!) – afinal não estou sozinha. Não há mais nada que eu possa acrescentar a estes versos – são a consumação daquilo que a poesia pode fazer por nós, que é verbalizar o que nos é tão difícil de explicar mas que percebemos tão bem.

Gostei muito. É um livro bonito, silencioso, calmo, bem escrito. A frase da contracapa (enfrentar um poema é como visitar um país estrangeiro) fez-me lembrar, talvez por estar influenciada por estas recordações do passado, da frase com que L.P. Hartley inicia um livro que adorei, e que também se baseia na memória, na lembrança, no presente e no passado, The Go-Between: the past is a different country. They do things differently there. Fazem mesmo. E nos poemas também. E ainda bem. Dizia o Almada Negreiros que a salvação não pode estar nos livros. E na poesia?

A Rita Faria é amiga do Lourenço Bray e vai publicando n' O Nascer do Sol alguns dos seus textos. Eu gosto muito de a ler e, num jantar onde nos encontramos os três, pedi-lhe para escrever algo a partir do meu livro. Aqui está o resultado. Obrigado, Rita.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

rua


Travessa do Quebra-Costas, Torres Vedras

terça-feira, 6 de novembro de 2007

correntes - 161

"I didn't want to tell you this way, yelling it, and I'm sorry I did, but I'm tired of hiding. I'm a lesbian, and Roxy and I, we're not just friends like you think, we're-"

Nancy Garden, Hear us out! Lesbian and Gay Stories of Struggle, Progress, and Hope, 1950 to the Present, pág.161

confuso, à noite

a minha estrada é um carro que sobe depois da planície, em busca de encontrar de novo o plano de poder ver tudo sem obstáculos. a minha estrada. tenho evitado repetir-me - e talvez não esteja a ser assim tão evidente, mas, tenho evitado. no entanto, o relógio é mais forte que a minha mente. e a resposta tem sido, sempre, dia a dia, o renovar da capacidade de engolir, em silêncio, o resto de comida que me é colocada no prato. malavita esta, hein? o relógio a aproximar os seus ponteiros da frente do meu carro, estrada esta a subir, talvez só a um andar mais alto, antes que o elevador se avarie, na hora em que não houver mais ninguém no prédio e o telemóvel estiver sem bateria.

não, não sou pessimista - aliás, atendo a tudo isto com um sorriso leve e os cabelos suficientemente despenteados para parecer que o vento me acaricia a face. este ano o outono ainda não trouxe nuvens, nem suficiente frio para sacar o cachecol da gaveta do armário. este ano nem sequer a literatura parece trazer grande conforto. desde que arranjei este emprego mais exigente que voltei a gostar do natal. anseio há mais de um mês a noite de consoada, o sossego de não ter restado nada mais a fazer no escritório. e se até lá escrevo aqui, é só para fingir, só para não se perceber, que não há nada mais o que dizer.

sábado, 3 de novembro de 2007

Histórias de Torres Vedras - John Gideon Millingen

Todos conhecem a belíssima vila de Vale da Mula. Pois bem, eu sou o seu indigno cura. No outro dia, tinha eu ido ver o meu velho tio a Alfaiates, quando ouvi que estes malandros Franceses andavam a percorrer o país. Tinha deixado para trás a minha sobrinha, Maria das Chagas - Santo António a abençoe – e sabia que ela não tinha hipótese com aqueles amaldiçoados vagabundos – e lá voltei eu. Mal tinha chegado à entrada da vila quando fui informado que umoficial dragão francês e os seus quatro comparsas tinham chegado para exigir dez mil rações e um tributo que, se não fossem fornecidosem vinte e quatro horas, o pobre Gomes Pinto, nosso juiz de fora, seria enforcado na manhã seguinte, quando a brigada avançasse. De seguida, soube que este sujeito se tinha alojado em minha casa – sem dúvida pensando que um pobre sacerdote mantinha uma boa mesa euma bonita sobrinha – e não estava errado de todo; que fazer? Era de noite e pensei que a pobre senhora das Chagas devia estar a precisar da Senhora dos Aflitos. Fui ter com o meu primo José da Silva, o farmacêutico, e disse-lhe que estavam apenas quatro franceses em minha casa e que era bem capaz de tratar deles. Dito isto, pedi-lhe uma onça de arsénico branco, uma pistola, umas quantas preces elá fui eu.
Dirigi-me primeiro ao estábulo, para deixar a mula – chamei o meu moço João, mas não fui capaz de encontrar o diabo do rapaz: sem resposta, e não admira, pois ao abrir a porta do estábulo lá estava o João, pendurado pelo pescoço. “Começam bem”, disse eu; “é esta a vossa filantrópica protecção! Veremos como isto acaba”.
Subi as escadas e que foi que eu vi senão este infernal oficial francês sentado à minha mesa, com a Maria a seu lado, bebendo o meu melhor Borba e mastigando os meus bolos – bolos que me foram enviados pela minha prima, a abadessa de Pinhel – e que bolos! Em toda a Beira não se faziam outros assim! Dei ordem à minha sobrinha para que preparasse o jantar para o meu hóspede– ele empurrou-me para fora da sala dizendo que a minha sobrinha não era nenhuma cozinheira e que me cortaria ambas as orelhas se não lhe apresentasse imediatamente uma malassada, enquanto os seus exuberantes camaradas juravam que me lançariam ao rios e não lhes desse mais vinho. E eu dei-lhes vinho – correctamente adoçado com o açúcar refinado do primo José. Eles estavam num anexo, a certa distância, e, depois de lhes servir a sua dose, dei a volta à chave e deixei-os a apreciar a bebida.
Não havia tempo a perder – fiz uma tortilha e levei-a ao capitão,que havia sentado a Maria no colo e tinha a imprudência de a beijar diante de mim; mas o que me vexava mais era pensar que ela não parecia achar esta conduta inapropriada.
“Jesus, Maria, José!”, exclamou a rapariga atrás dele, benzendo se.“Deixa lá isso,” continuou o sacerdote, “deixa lá, já passou” – e o dragão devorou a sua malassada, e depois bebeu mais do meu precioso Borba, e pediu mais bolos. Ele estava desarmado, o sabre e pistolas estavam na mesa de entrada – por isso fui buscar um cesto de bolos e coloquei-o diante dele; então, deu outro beijo à Maria e mandou-me para a cama ou para o inferno – o que me fosse mais conveniente.(...)

Nota: Histórias de Torres Vedras é um volume de contos publicados originalmente em Inglês, no ano de 1839. O autor, John Gideon Millingen, fez parte do Exército Inglês presente em Portugal durante as Guerras Peninsulares.
Título: Histórias de Torres Vedras
Autor: John Gideon Millingen
Tradutor: Justa Barbosa
Editora: Livrododia Editores

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

para um primeiro capítulo ou para um primeiro poema

talvez seja chegada a hora de vos contar como começam as ideias dentro das cabeças dos poetas que escrevem poemas. humm. murmuro baixinho testemunhos falsos sobre muitas e variadas coisas. páro espantado a olhar a porta de uma igreja. arrumo todas as fotografias e classifico-as segundo uma ordem que desconheço. compro um pack de cervejas mini. tapo o nariz se alguém fuma ao meu lado na rua. rompo o pacote dos rolos de papel higiénico que comprei no hipermercado. fujo de mim a toda a hora. fujo de ti a todas as horas. abro o jornal desportivo na página certa, para conferir o horário da transmissão. conto as moedas com os dedos das duas mãos. conto-vos como começam as ideias dentro das cabeças dos poetas que escrevem poemas.

sete horas

voltava a casa era de noite, diariamente, assim fazia. os tons da rua eram outros, outros os cheiros e os sons, as caras com que se cruzada. de noite, voltava a casa. onde antes havia a luz a entrar pelas janelas, agora apenas o escuro, não aquele que se guarda entre os livros espalhados sobre a mesa da sala, mas o escuro que envolve todas as coisas. como dizer, a noite, como dizer este frio que nos rompe mesmo os casacos e se agarra à nossa pele. sim, essa noite, esse frio. não era uma sensação muito poética. apenas a notícia de que chegado o outono as pessoas vão para casa mais cedo, ou se mantém a mesma hora, vão para casa mais caladas, nesse silêncio que não se encontra só nas palavras, mas o silêncio da casa, dessa mesma casa escura, onde ela voltava, agora, de noite.