quarta-feira, 31 de outubro de 2007

assim se fazem encontros de escritores

para se ir a um encontro de escritores não é preciso acreditar em encontros de escritores, esta é uma verdade da qual eu nunca me vou esquecer. para se ir ouvir um escritor a falar, também não será preciso acreditar que os escritores falam. finalmente, para se acreditar que estes encontros existem, bem, a verdade é que eles existem e um deles realizou-se no passado fim-de-semana. atrevo-me a fazer um pequeno balanço, provavelmente para o recordar no futuro, quando voltar a ter que organizar um outro.

o encontro iniciou-se na sexta-feira de manhã, com leituras de contos para crianças em quatro escolas do concelho de Torres Vedras. sucesso total. as crianças deixaram-se envolver pelas contadoras de histórias e as professoras provaram um pouco deste encantamento que nasce nos livros. aposta ganha, a repetir sempre que possível, no futuro.
sexta-feira à tarde, conversa para graúdos sobre os miúdos - e o momento mais agridoce do encontro- uma mesa repleta de diamantes para uma plateia vazia. falou-se da avó da Ana Meireles e da influência que ela teve na forma de contar histórias da Ana, falou-se nos livros que o Zé António compra para os netos, falou-se na leve desilusão da Isabel Martins ao ter que encarar as forças do mercado, sentiu-se o realismo emocionado (ia dizer realismo mágico...) da Mafalda Milhões ao falar da sua experiência de todos os lados do livro (uff!) e pudemos aproveitar a presença da Dora Batalim para perceber como os livros para crianças podem ser livros para toda a gente e mais alguma, basta ter as antenas bem sintonizadas para as coisas que fazem mover as emoções. a esta conversa toda, ainda se seguiu um lanche na livrododia, para repor forças e para começar a acreditar que as coisas só podiam melhorar. e era verdade.
logo pela noite de sexta-feira, casa cheia na cafetaria do nosso espaço no centro histórico para me ouvir a mim, ao Mário Lisboa Duarte, à Rute Mota e ao Ozias Filho a ler poesia. Este quarteto funcionava aos pares. a Rute e o Ozias embalados pelo silêncio, com a Rute a ler exclusivamente originais e o Ozias a passear-se pela poesia brasileira, eu e o MLD num registo mais furioso, entre originais e traduções, produção própria e roubada aos melhores inventores de sensações em verso. não digo que foi um brilharete, mas tenho a certeza que agradamos a gregos e a troianos (o que nos tempos que correm...). e bem, mais uma vez, a seguir à seriedade da poesia, ainda houve tempo para nos passearmos até um dos bares da cidade. mas só para molhar o bico, porque o sábado estava logo ali.

o sábado começou cedinho, com a repetição das leituras para crianças na esplanada da livrododia, apanhando os pais e os miúdos que iam de passagem, mais uns quantos que já tinham reservado espaço na agenda para se virem sentar no nosso tapete a ouvir as aventuras da formiga, da cabra cabrês, do Willy Fogg, do Sr. Peabody e tantos outros... o coração estava apertado para a tarde (tendo em conta a falta de público da tarde anterior), mas ver a alegria e a atenção daqueles míúdos deixou-me mais confiante. e foi assim que a tarde se revelou cheia de surpresas. primeiro que tudo, conhecer pessoalmente (até que enfim!) o Paulo Bandeira Faria, um tipo cheio de graça e à vontade, embrulhados numa figura interessante e de voz baixa, que conquistou a atenção da plateia para a história do seu livro e para as suas aventureiras viagens. é disto que se fazem os escritores (e acho que não estou aqui a revelar nenhum segredo se disser que durante o jantar se falou das possíveis novidades do Paulo, em termos editoriais, e a sensação é de que vem aí ainda melhor). também não posso deixar escapar o contributo apaixonado da Inês e a lírica rasa à terra da Golgona, que cada uma ao seu estilo souberam incendiar na plateia uma vontade imensa de botar de discurso, o que se veio a materializar na mesa de debate mais concorrida do encontro. no intervalo dos debates, aproveitou-se para fazer a apresentação da Palavra Ibérica, iniciativa que junta o Ayuntamento de Punta Umbria, a Sulscrito, a Câmara Municipal de Vila Real de Santo António e a Livrododia, na organização de um encontro de escritores, de uma colecção bilingue dos dois lados da fronteira e de um prémio literário. o Fernando Esteves Pinto (no seu estilo de stand up amargurado) e o José Carlos Barros (que se viria a revelar como rei da festa) asseguraram comigo a apresentação. e logo se seguiu a última mesa em que a o Nuno Seabra Lopes, com a metafísica económica, fez uma caracterização certeira do mercado, o José Prata revelou-nos o intricado mundo das apostas e dos sucessos editoriais e o Miguel Real, em dia de lançamento do seu novo livro, teve tempo para nos dar uma lição sobre crítica literária no século xx. foi uma tarde inesquecível, onde os contactos e os conhecimentos que se proporcionaram auguram renovadas esperanças na possibilidade de encontros como este.

escusado será dizer que a festa ficou por aqui. houve jantar, houve conversa, houve bares e discotecas que prolongaram o acontecimento até ao raiar do sol. cada um à sua maneira contribuiu para o sucesso desta iniciativa e aos que ficaram, sobram agora forças e esperanças para a repetição de um encontro como este.

há que agradecer ao académico de torres vedras e à livrododia a organização do evento, à fundição de dois portos o patrocínio, à câmara municipal de torres vedras, ao hotel império e aos seguros nova torreense os apoios dados ao evento. eu, pessoalmente, tenho que agradecer sobretudo a todos aqueles, quer na organização quer entre os convidados, que vieram de coração aberto viver comigo estes dois dias tão cheios. a todos, o meu obrigado.

1 comentário: