quinta-feira, 13 de setembro de 2007

A questão das devoluções

Como comentário ao texto do Nuno Seabra Lopes no Extratexto, deixo aqui algumas considerações sobre a sua proposta quanto aos temas das devoluções.

A primeira fragilidade que encontro na sua proposta, que aliás nem é original sua visto que a APEL comete o mesmo erro com o APEL Digital, é imaginar um mercado livreiro onde é possível fazer transações com documentos digitais. A verdade é dolorosa, neste campo. Existem centenas de livrarias e dezenas de editoras sem capacidade de actuar a esse nível - em algumas delas os problemas são tão básicos como não saber enviar um e-mail - e, repetidamente, existem dificuldades de responder a pedidos feitos electronicamente.

A questão das colocações é outra que exige uma reformulação muito maior no mercado do livro. O interesse de editoras e comerciais é a colocação dos livros, a colocação em quantidade, de modo a expôr ao máximo as edições (muitas vezes exageradas) de alguns livros. É muito mais habitual um livreiro sentir a pressão para encomendar mais do que para encomendar menos. Apesar de às editoras interessar pouco a recepção dos livros numa devolução, há sempre a esperança de vender tudo o que se coloca. E a esperança é colocar mais, colocar tudo.

Chegando finalmente ao sumo da questão, o NSL propõe a impossibilidade de se devolver livros comprados a firme. Sim, compreendo que isso implicaria uma maior noção de compra da parte do livreiro. Mas a consequência seria outra - se não posso devolver o que compro, não compro nada. Centenas ou milhares de títulos que têm oportunidade de passar pelos escaparates perderiam essa possibilidade. Matava-se, definitivamente as edições de autor, as edições dos amigos, as apostas para aproveitar papel, para aproveitar tempo de gráfica. Seria um novo mundo no mercado do livro. Se eu não estou de acordo em chegarmos aí? Mas é claro que estou, é claro que a minha posição é totalmente a favor disso. Mas não assim, não mudando a questão das devoluções.

O que há a mudar neste mercado é bem mais profundo. Desde um acordo de parceria entre editores e livreiros que marque as regras de funcionamento na relação entre as duas partes, o anulamento da lei do preço fixo e a criação de um novo modelo de comercialização do livro, até ao estabelecimento de um código de conduta que possa servir o mercado. Mas isso, Nuno, seria pedir demais...

3 comentários:

  1. Olá Luís,
    compreendo algumas das tuas questões e até poderia acrescentar outras.
    Em relação à transferência electrónica de documentos, recorda-te que em alguns países isso já sucede. Sem investimento é que não vão a lado nenhum e morrem rapidamente, como tu bem sabes. Se não sabem é porque não conseguem fazer um bom trabalho e morrem a grande velocidade (o mercado está complicado e já não os deixa estar, infelizmente).
    Em relação às colocações, eu coloquei a questão nos dois sentidos: utilizar históricos para evitar sub e sobre-colocação.
    Isso significa que as distribuidoras têm de acabar com a estratégia de sobre-colocação (que é a forma que elas usam para contrariar as devoluções preventivas).
    Se não se colocarem regras é que tudo ficará igual, como compreendes.
    Em relação aos livros a firma a situação pode ser dividida em duas partes: 1. passam a ser a firme as edições pedida um mês após terem sido devolvidas - de forma a aumentar o grau de responsabilidade da devolução); 2. não falo que tudo tenha de ser a firme, digo antes que livro com venda garantida devem ser a firme.
    Com isso falo em pré-venda (tanto do livreiro ao cliente como do editor ao livreiro).
    Vais dizer que isso só beneficia os Harry Potter e outros livros comerciais. Não o nego, mas são esses livros que te permitem vender outros, assim como aos editores publicar outros.
    Em relação aos livros de autor, etc. Trata-se de uma questão de posicionamento, um espaço livreiro deve ser diferente da concorrência e, desde sempre, essa foi uma vantagem concorrencial: a oferta de produtos que não se encontram noutros espaços. Não estou à espera que esses produtos sejam a firme, obviamente. Nem nunca o quis dar a entender.

    Abraço!

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  2. demais , de menos ou de demasiado?

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  3. demais , de menos ou de demasiado?

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