quinta-feira, 20 de setembro de 2007

O Vírus da Vida - JP Simões e André Carrilho


Applefeiçoador integral em embalagens de duas doses diárias

Já era tardíssimo para pensar objectivamente no que lhe dizer. Tinham combinado passar uns dias juntos e conversar muito seriamente sobre se valeria a pena continuarem com aquela relação. Ela vinha no comboio das nove: meia hora antes já ele estava na estação, com um raminho de miosótis meio amassados e um medo terrível de não a conseguir fazer sorrir. Ele julgava-se um dos homens mais confusos do mundo, mais vacilantes. Um desencanto com pernas. E ela parecia afastar-se mais um pouco em cada lua nova, cada vez mais exigente e menos satisfeita: os violinos da separação timbravam-lhe os gestos, cada vez mais ásperos. Houve dias em que a ternura era uma maravilhosa praga de gafanhotos, aos pulos por todo o corpo, a devastar todas as dúvidas que bloqueavam o tango. «We’re going to see the Wizard, the wonderful wizard of Oz», cantavam os dois no duche, e aquela alegria infantil era um milagre para duas pessoas que tinham residência fixa na melancolia. Esses dias passavam como cometas de açúcar. Noutras alturas maior era a queda. Ela não imaginava um futuro para os dois, ele imaginava futuros muito improváveis e impingia-lhe uma data de sonhos em segunda mão. Ele era quase crédulo e de vontade fraca, ela fingia-se forte e capaz de raciocinar sobre os factos, o que é próprio das pessoas fortes. Ele desculpava-se, ela culpava-o de estar sempre a pedir desculpas; ele assumia tudo e mais alguma coisa que o mundo tivesse de mau, para pôr em relevo as suas qualidades; ela sabia que essa era muito velha e dizia-lhe que talvez não tivessem mais nada a conversar. Acabavam por chorar os dois, abandonados sobre a cama desfeita, e das cinzas renascia uma fagulha de ternura que haveria de incendiar tudo outra vez. Resumindo: por mais errado que tudo pudesse estar ele só desejava que assim permanecesse. Ele sabia que não era como nos livros, mas sabia que todos os dias se escrevem livros novos. Amava-a, mas o amor não era a mesma coisa para cada um deles, e ele estava convencido de que o grande problema vinha dele, do facto de ser um homem pouco exuberante e de uma atroz insegurança. Mas ela havia de amá-lo, cada vez mais; em cada despedida, em cada reencontro: ele iria tornar-se perfeito para ela, depressa, já. O Applefeiçoador Integral era infalível: duas injecções de Performa e Charmintosh e zás!
– Fizeste boa viagem? Perguntou ao pegar-lhe na mala, por entre uma multidão de sapatos recém-chegados.
– Mais ou menos, respondeu. Estou cansada. Podemos ir para casa, ou se calhar podíamos ir tomar um café?
– Vamos para onde quiseres, sorriu ele. Estava cheio de saudades tuas. O cabelo fica-te muito bem assim!
– Reparaste?! Que grande progresso, disse ela meio condescendente.
– Estás muito bonita, disse ele. Cada vez mais.
Estendeu-lhe então um pequeníssimo ramo de miosótis e, mal ela esboçou um sorriso, ele abraçou-a e disse-lhe que nunca mais a queria longe dele, que as cotovias lhe contaram o segredo da felicidade, que Vénus e Júpiter lhes abençoaram o amor, que teve um sonho onde ela caía do céu e ele a agarrava em pleno ar para caírem os dois e o chão desaparecia debaixo deles, que o mundo inteiro não vale uma lágrima dela, que ela vale todas as lágrimas do mundo, que deus prometeu pagar a renda do pequeno apartamento na colina com vista para o mar, que a lua prometeu balançar ao som daquela canção que ele lhe escreveu entre dois suspiros, que bastavam duas doses de Applefeiçoador por dia para que fossem felizes para sempre…
– Tomaste essa merda?! Disse-lhe ela, ríspida, afastando-o.
– Por ti faço tudo! insistiu ele, sorrindo. Ela arrancou-lhe a mala da mão, largou-a no chão e gritou:
– És mesmo estúpido!

Título: O Vírus da Vida

Autor: JP Simões (contos) e André Carrilho (ilustrações)

Editora: Sextante

2 comentários:

  1. Os Blogues também servem para isto! Ainda bem que não o comprei.
    No entanto, gostos não se discutem, parece-me que só os desgostos..... li com atenção, mas----- Atento ao que por aqui vai aparecendo ....

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