sábado, 29 de setembro de 2007

E como ficou chato ser moderno - Luís Filipe Cristóvão


Semanário
Esta semana comecei um poema que fala de chuva e despedidas
chávenas de chá e borras de café, olhares quentes e polícias
e girassóis e livros e comboios e telefonemas com três palavras
e versos e poemas e músicas e abraços e insistências várias.
Esta semana comprei uma máquina de fazer olhares sensuais
e despi o meu casaco de senhor doutor para te dar as boas noites
e peguei num boné que era do meu avô e gritei golo algumas vezes
e fui ver o sol nascer no mar do lado de lá do lado de lá de mim.
Esta semana encontrei-te na rua e disse-te adeus em duas ocasiões
dancei desajeitado no corredor da minha casa desarrumada
lavei os dentes catorze vezes e tomei banho outras sete
dormi sempre pouco e sempre mal com calor e dores de garganta.
Esta semana pensei que podíamos ficar apaixonados para sempre
a música que eu ouvi na rádio poderia repetir em continuidade,
os dicionários podiam ser peças de armários onde nos encontrássemos,
as férias são uma estrada comprida com curvas e garrafas de água.
Esta semana fui às compras e trouxe, em sacos de plástico, requeijão
pão fresco manteiga chourição guardanapos fígado de porco
patê cervejas arroz doce salame salsichas alface iogurtes
papel higiénico bolos secos e uma revista de palavras cruzadas.
Esta semana a minha mãe não me falou e a minha avó faz anos,
todos os jornais trazem na capa jogadores de futebol e bandeirinhas,
um pneu do meu carro estava vazio e eu enchi-o antes de ir ver-te,
não me acabou a gasolina a meio do caminho e fiquei contente.
Esta semana tu foste embora para dentro de um livro que eu escrevi
e os meus versos longos ficaram cheios de pedacinhos de ti,
eu sorrio ao ver crescer os meus filhos que ainda não nasceram
e entretenho-me a ver desenhos animados e a mudar de calendário.


Todas as pessoas sozinhas

Todas as pessoas sozinhas dançam devagar na sala de espera
mesmo que o dia seja quente e convide a passeios ao luar.
A música é sempre a mesma, assobiada ao ouvido
por um rapazinho tímido e fechado do qual não se sabe o nome
e a destreza que podemos alcançar, neste querer dar o passo certo,
é apenas uma mínima ideia da força dos nossos desejos.
Todas as pessoas sozinhas sorriem em frente ao espelho
e lavam os dentes como quem arranca beijos à emoção
de ter ali, à nossa frente, alguém de quem gostamos muito.
A porta da rua é um lugar onde só se sai,
a nossa família é uma fotografia pendurada na parede
e os amigos são aqueles que nos dão bons dias no café.
Todas as pessoas sozinhas gritam baixinho os nomes esquecidos
que outras pessoas sozinhas lhes sussurraram alto uma vez,
quando ainda éramos todos uns dos outros.
Engomada a camisa, vestimo-nos com o cuidado solene
daqueles que vestem camisas com emoção e significado
enquanto esperam a hora certa para morrer ou nascer.
Todas as pessoas sozinhas todas as pessoas sozinhas
embrulhadas em lençóis frescos porque é Verão
a rebolar as dores de pescoço pelas duas almofadas da cama
e a pensar que de tanto dormir assim sem ninguém
vai ser difícil voltar a adormecer só num dos cantos do colchão.
Todas as pessoas sozinhas todas as pessoas sozinhas.


Male Love
Tinhas vestida uma camisa do Arsenal de Londres
e à tua frente uma garrafa vazia de Coca-Cola:
não sei que dia seria mas era seguramente Outono
ainda não muito frio mas cheio de cinzento no céu.
Eu sentei-me à tua frente e pedi mais uma Cola,
só a voz monocórdica do relator do jogo
se ouvia a todo o comprimento do café.
Tínhamos dezasseis, dezassete anos, não me lembro,
o suor a cair-nos pela face e um sorriso
muito mais que entristecido nos nossos lábios.
Lembro-me do jornal aberto na página trinta e três
de um jovem jogador acidentado e ferido
da ausência de qualquer esperança e qualquer alegria
naquele café longe de todos os estádios do mundo.
Tinhas vestida uma camisa do Arsenal de Londres
e à tua frente uma garrafa vazia de Coca-Cola:
era seguramente Outono, final de tarde a jogar futebol.
Ficámos calados quase uma hora, olhares estendidos um sobre o outro
e depois tu levantaste-te, deixaste umas moedas em cima da mesa, e foste embora.
Lembro-me o jornal aberto, impresso a uma cor,
com os resultados de todos os campeonatos nacionais
e também regionais, um mapa desfeito em uma só página
muito maior do que os nossos braços poderiam segurar
naquele café longe de todos os estádios do mundo
eu, que já sabia que tinhas ido embora para sempre,
dei enfim pela tua falta, entrada a pés juntos no meu coração.


Arquitectura
A nossa vida como nos filmes
imagens a passar muito depressa – folhas –
os pés a subir direitos rumo ao sol
as olheiras escondidas atrás de lentes escuras:
a nossa vida – filmes – uma voz que te chama,
é de noite e ainda não encontraste
o teu lado certo na cama, agora que a cama
é toda tua, e o roupeiro, e a janela, e o chuveiro.
Abres a porta do frigorífico e faltam os iogurtes
dele, uma cerveja, a nossa vida:
filmes – a rever pela noite fora – filmes,
lembras-te de quando eram felizes
e namoravam a olhar o rio ou o mar –
água corrente é qualquer coisa de romântico –
lembras-te de quando eram mistério
e os dez dedos das mãos serviam para descobrir,
lembras-te de quando as palavras
ainda só serviam para amar ou seduzir:
a nossa vida, hoje, como nos filmes,
como uma fita a andar às voltas
em frente de uma luz, perigo de fogo,
as unhas roídas porque é fim-de-semana
e os passeios com ele não se repetem,
porque é fim-de-semana, dolorosamente,
e à hora que ele sai do trabalho continuas sozinha,
a nossa vida, a nossa vida, a nossa vida.

Título: E como ficou chato ser moderno
Autor: Luís Filipe Cristóvão
Editor: Livrododia

Sessões de apresentação com a presença do autor a 6 de Outubro, pelas 16 horas, na Livrododia- Centro Histórico, em Torres Vedras, e a 12 de Outubro, pelas 21h30, na Book House do Monumental, em Lisboa.

4 comentários:

  1. Não vou poder estar, mas vou poder comprar!!!

    Abraço!

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  2. vamos lá ver se dou um pulinho ao Monumental. Entretanto... gostei muito!

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  3. É como que quase dizer ..
    " Nas borras de café, no fundo da xícara, usada e fria, aquela que já gasta pelo tempo não fazia diferença se era lavada ou não, porque o tempo realmente passava por ela, e nada a fazia ser aquilo que um dia foi, veria o meu futuro resplandecendo num livro de páginas soltas"
    Parabéns

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  4. parabéns!..será, com toda a certeza, um exit..

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