sábado, 29 de setembro de 2007

E como ficou chato ser moderno - Luís Filipe Cristóvão


Semanário
Esta semana comecei um poema que fala de chuva e despedidas
chávenas de chá e borras de café, olhares quentes e polícias
e girassóis e livros e comboios e telefonemas com três palavras
e versos e poemas e músicas e abraços e insistências várias.
Esta semana comprei uma máquina de fazer olhares sensuais
e despi o meu casaco de senhor doutor para te dar as boas noites
e peguei num boné que era do meu avô e gritei golo algumas vezes
e fui ver o sol nascer no mar do lado de lá do lado de lá de mim.
Esta semana encontrei-te na rua e disse-te adeus em duas ocasiões
dancei desajeitado no corredor da minha casa desarrumada
lavei os dentes catorze vezes e tomei banho outras sete
dormi sempre pouco e sempre mal com calor e dores de garganta.
Esta semana pensei que podíamos ficar apaixonados para sempre
a música que eu ouvi na rádio poderia repetir em continuidade,
os dicionários podiam ser peças de armários onde nos encontrássemos,
as férias são uma estrada comprida com curvas e garrafas de água.
Esta semana fui às compras e trouxe, em sacos de plástico, requeijão
pão fresco manteiga chourição guardanapos fígado de porco
patê cervejas arroz doce salame salsichas alface iogurtes
papel higiénico bolos secos e uma revista de palavras cruzadas.
Esta semana a minha mãe não me falou e a minha avó faz anos,
todos os jornais trazem na capa jogadores de futebol e bandeirinhas,
um pneu do meu carro estava vazio e eu enchi-o antes de ir ver-te,
não me acabou a gasolina a meio do caminho e fiquei contente.
Esta semana tu foste embora para dentro de um livro que eu escrevi
e os meus versos longos ficaram cheios de pedacinhos de ti,
eu sorrio ao ver crescer os meus filhos que ainda não nasceram
e entretenho-me a ver desenhos animados e a mudar de calendário.


Todas as pessoas sozinhas

Todas as pessoas sozinhas dançam devagar na sala de espera
mesmo que o dia seja quente e convide a passeios ao luar.
A música é sempre a mesma, assobiada ao ouvido
por um rapazinho tímido e fechado do qual não se sabe o nome
e a destreza que podemos alcançar, neste querer dar o passo certo,
é apenas uma mínima ideia da força dos nossos desejos.
Todas as pessoas sozinhas sorriem em frente ao espelho
e lavam os dentes como quem arranca beijos à emoção
de ter ali, à nossa frente, alguém de quem gostamos muito.
A porta da rua é um lugar onde só se sai,
a nossa família é uma fotografia pendurada na parede
e os amigos são aqueles que nos dão bons dias no café.
Todas as pessoas sozinhas gritam baixinho os nomes esquecidos
que outras pessoas sozinhas lhes sussurraram alto uma vez,
quando ainda éramos todos uns dos outros.
Engomada a camisa, vestimo-nos com o cuidado solene
daqueles que vestem camisas com emoção e significado
enquanto esperam a hora certa para morrer ou nascer.
Todas as pessoas sozinhas todas as pessoas sozinhas
embrulhadas em lençóis frescos porque é Verão
a rebolar as dores de pescoço pelas duas almofadas da cama
e a pensar que de tanto dormir assim sem ninguém
vai ser difícil voltar a adormecer só num dos cantos do colchão.
Todas as pessoas sozinhas todas as pessoas sozinhas.


Male Love
Tinhas vestida uma camisa do Arsenal de Londres
e à tua frente uma garrafa vazia de Coca-Cola:
não sei que dia seria mas era seguramente Outono
ainda não muito frio mas cheio de cinzento no céu.
Eu sentei-me à tua frente e pedi mais uma Cola,
só a voz monocórdica do relator do jogo
se ouvia a todo o comprimento do café.
Tínhamos dezasseis, dezassete anos, não me lembro,
o suor a cair-nos pela face e um sorriso
muito mais que entristecido nos nossos lábios.
Lembro-me do jornal aberto na página trinta e três
de um jovem jogador acidentado e ferido
da ausência de qualquer esperança e qualquer alegria
naquele café longe de todos os estádios do mundo.
Tinhas vestida uma camisa do Arsenal de Londres
e à tua frente uma garrafa vazia de Coca-Cola:
era seguramente Outono, final de tarde a jogar futebol.
Ficámos calados quase uma hora, olhares estendidos um sobre o outro
e depois tu levantaste-te, deixaste umas moedas em cima da mesa, e foste embora.
Lembro-me o jornal aberto, impresso a uma cor,
com os resultados de todos os campeonatos nacionais
e também regionais, um mapa desfeito em uma só página
muito maior do que os nossos braços poderiam segurar
naquele café longe de todos os estádios do mundo
eu, que já sabia que tinhas ido embora para sempre,
dei enfim pela tua falta, entrada a pés juntos no meu coração.


Arquitectura
A nossa vida como nos filmes
imagens a passar muito depressa – folhas –
os pés a subir direitos rumo ao sol
as olheiras escondidas atrás de lentes escuras:
a nossa vida – filmes – uma voz que te chama,
é de noite e ainda não encontraste
o teu lado certo na cama, agora que a cama
é toda tua, e o roupeiro, e a janela, e o chuveiro.
Abres a porta do frigorífico e faltam os iogurtes
dele, uma cerveja, a nossa vida:
filmes – a rever pela noite fora – filmes,
lembras-te de quando eram felizes
e namoravam a olhar o rio ou o mar –
água corrente é qualquer coisa de romântico –
lembras-te de quando eram mistério
e os dez dedos das mãos serviam para descobrir,
lembras-te de quando as palavras
ainda só serviam para amar ou seduzir:
a nossa vida, hoje, como nos filmes,
como uma fita a andar às voltas
em frente de uma luz, perigo de fogo,
as unhas roídas porque é fim-de-semana
e os passeios com ele não se repetem,
porque é fim-de-semana, dolorosamente,
e à hora que ele sai do trabalho continuas sozinha,
a nossa vida, a nossa vida, a nossa vida.

Título: E como ficou chato ser moderno
Autor: Luís Filipe Cristóvão
Editor: Livrododia

Sessões de apresentação com a presença do autor a 6 de Outubro, pelas 16 horas, na Livrododia- Centro Histórico, em Torres Vedras, e a 12 de Outubro, pelas 21h30, na Book House do Monumental, em Lisboa.

Entrevista

Entrevista no Blogtailors, por aqui.

Alegrias Sociais-democratas


Porque, de vez em quando, o PSD dá-me destas alegrias. O país recupera um pouco de cor, e o stand up volta aos palcos da política.
That's the way I like it!

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Viskovitz? virá no próximo ano

Os grandes livros começam assim:

Eravamo rimasti soli su quella crosta di ghiaccio alla
deriva nella notte polare. Viskovitz si girò e mi disse:
«Vorrei che tu mettessi nero su bianco la nostra conversazione».
«Non è possibile», risposi. «Non sono né tipografo
né scrittore. Sono un pinguino. E per me “mettere nero
su bianco” significa tutt’al più fare altri pinguini».
E invece, un mese dopo, eccomi qui, immobile, con
un uovo sotto la pancia, a ricordare.
Ero stato io ad attaccare discorso…
Alessandro Boffa, Sei una bestia, Viskovitz?, em breve na Livrododia Editores

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

O Vírus da Vida - JP Simões e André Carrilho


Applefeiçoador integral em embalagens de duas doses diárias

Já era tardíssimo para pensar objectivamente no que lhe dizer. Tinham combinado passar uns dias juntos e conversar muito seriamente sobre se valeria a pena continuarem com aquela relação. Ela vinha no comboio das nove: meia hora antes já ele estava na estação, com um raminho de miosótis meio amassados e um medo terrível de não a conseguir fazer sorrir. Ele julgava-se um dos homens mais confusos do mundo, mais vacilantes. Um desencanto com pernas. E ela parecia afastar-se mais um pouco em cada lua nova, cada vez mais exigente e menos satisfeita: os violinos da separação timbravam-lhe os gestos, cada vez mais ásperos. Houve dias em que a ternura era uma maravilhosa praga de gafanhotos, aos pulos por todo o corpo, a devastar todas as dúvidas que bloqueavam o tango. «We’re going to see the Wizard, the wonderful wizard of Oz», cantavam os dois no duche, e aquela alegria infantil era um milagre para duas pessoas que tinham residência fixa na melancolia. Esses dias passavam como cometas de açúcar. Noutras alturas maior era a queda. Ela não imaginava um futuro para os dois, ele imaginava futuros muito improváveis e impingia-lhe uma data de sonhos em segunda mão. Ele era quase crédulo e de vontade fraca, ela fingia-se forte e capaz de raciocinar sobre os factos, o que é próprio das pessoas fortes. Ele desculpava-se, ela culpava-o de estar sempre a pedir desculpas; ele assumia tudo e mais alguma coisa que o mundo tivesse de mau, para pôr em relevo as suas qualidades; ela sabia que essa era muito velha e dizia-lhe que talvez não tivessem mais nada a conversar. Acabavam por chorar os dois, abandonados sobre a cama desfeita, e das cinzas renascia uma fagulha de ternura que haveria de incendiar tudo outra vez. Resumindo: por mais errado que tudo pudesse estar ele só desejava que assim permanecesse. Ele sabia que não era como nos livros, mas sabia que todos os dias se escrevem livros novos. Amava-a, mas o amor não era a mesma coisa para cada um deles, e ele estava convencido de que o grande problema vinha dele, do facto de ser um homem pouco exuberante e de uma atroz insegurança. Mas ela havia de amá-lo, cada vez mais; em cada despedida, em cada reencontro: ele iria tornar-se perfeito para ela, depressa, já. O Applefeiçoador Integral era infalível: duas injecções de Performa e Charmintosh e zás!
– Fizeste boa viagem? Perguntou ao pegar-lhe na mala, por entre uma multidão de sapatos recém-chegados.
– Mais ou menos, respondeu. Estou cansada. Podemos ir para casa, ou se calhar podíamos ir tomar um café?
– Vamos para onde quiseres, sorriu ele. Estava cheio de saudades tuas. O cabelo fica-te muito bem assim!
– Reparaste?! Que grande progresso, disse ela meio condescendente.
– Estás muito bonita, disse ele. Cada vez mais.
Estendeu-lhe então um pequeníssimo ramo de miosótis e, mal ela esboçou um sorriso, ele abraçou-a e disse-lhe que nunca mais a queria longe dele, que as cotovias lhe contaram o segredo da felicidade, que Vénus e Júpiter lhes abençoaram o amor, que teve um sonho onde ela caía do céu e ele a agarrava em pleno ar para caírem os dois e o chão desaparecia debaixo deles, que o mundo inteiro não vale uma lágrima dela, que ela vale todas as lágrimas do mundo, que deus prometeu pagar a renda do pequeno apartamento na colina com vista para o mar, que a lua prometeu balançar ao som daquela canção que ele lhe escreveu entre dois suspiros, que bastavam duas doses de Applefeiçoador por dia para que fossem felizes para sempre…
– Tomaste essa merda?! Disse-lhe ela, ríspida, afastando-o.
– Por ti faço tudo! insistiu ele, sorrindo. Ela arrancou-lhe a mala da mão, largou-a no chão e gritou:
– És mesmo estúpido!

Título: O Vírus da Vida

Autor: JP Simões (contos) e André Carrilho (ilustrações)

Editora: Sextante

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Nós e os outros

26 a 1, é este o resultado da tentativa de instituição de um dia europeu para a abolição da pena de morte. A Polónia, em época eleitoral, e na tentativa de agradar ao eleitorado católico, coloca no mesmo saco pena de morte, eutanásia e aborto. A proposta da comissão fica sem efeito.

Não me parece que se tenha a União Europeia para estes jogos, embora reconheça que eles são recorrentes. Não me parece que as regras devessem ser as da unanimidade, pois os braços no ar também já foram colocados de lado. Não me parece, finalmente, que o povo católico, em tempo eleitoral ou fora dele, tome como atestado da sua própria inteligência, uma saca de pena de morte, eutanásia e aborto.

Temo bem que esta classe política não sirva mesmo para nada. Tal como temo que a forma como são comunicadas decisões e resultados, à escala global, se torne apenas numa fórmula muito simples de lançar a confusão à volta de uma fogueira que vai ser esquecida nas primeiras páginas, mas que resistirá em lume brando dentro das nossas consciências. Como a História nunca acaba, já podemos prever as consequências.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Bombas e Cabeças de Vácuo - II

Ouviu-se da boca de muita gente, por estes dias, a frase " quem nunca errou que atire a primeira pedra". Mas o facto é que, de um treinador se espera que os erros sejam tácticos, técnicos, a nível da escolha dos jogadores para o onze ou da convocatória. De um líder de uma representação nacional espera-se que os erros sejam gaffes em conferências de imprensa, chegar atrasado a encontros decisivos, renunciar a cumprimentar outros líderes em situações de pressão.

Nem de um, nem de outro se espera que o erro seja esmurrar ou tentar esmurrar outra pessoa seja porque motivo for. Ao contrário do que o Sr.Scolari tentou fazer passar, defender um jogador dentro de campo não se faz socando um outro, mas sim tentando segurá-lo, que foi o que tiveram que fazer vários elementos do banco português depois do momento irreflectido de Scolari.

Para agravar toda esta situação, o Sr. Scolari negou tudo na entrevista rápida da RTP e voltou a negar na Conferência de Imprensa realizada no Estádio de Alvalade. Passadas menos de 24 horas, este mesmo senhor, embuído do "espírito cristão" e depois de um ralhete da sua esposa, organiza nova Conferência de Imprensa onde dá o dito por não dito, tentando justificar o que toda a gente tinha visto e ele tinha negado na noite anterior. Não satisfeito (e aqui as culpas repartem-se), tem direito a Grande Entrevista com Judite de Sousa onde, com olhar choroso, repete as balelas que nos tentou pregar desde o momento em que agrediu o sérvio Dragutinovic.

Toda esta retórica após o erro, muito típica da federação portuguesa que, nos últimos anos, teve que andar a justificar a destruição de um balneário em França pelos sub-21, a histeria do Euro 2000, o soco do João Vieira Pinto, o baile de Zequinha com um cartão vermelho na mão, é balofa e foge do essencial. Se bem se lembram, de todos os intervenientes nestes casos, sempre existiu um discurso para os protegidos e outro para os fragilizados. Ronaldos e Companhia dos Sub-21, Nuno Gomes e, pressente-se agora, Scolari, são os criminosos bons. Abel Xavier, João V.Pinto e Zequinha, os criminosos maus. Há alguém que me explique isto?

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

A questão das devoluções

Como comentário ao texto do Nuno Seabra Lopes no Extratexto, deixo aqui algumas considerações sobre a sua proposta quanto aos temas das devoluções.

A primeira fragilidade que encontro na sua proposta, que aliás nem é original sua visto que a APEL comete o mesmo erro com o APEL Digital, é imaginar um mercado livreiro onde é possível fazer transações com documentos digitais. A verdade é dolorosa, neste campo. Existem centenas de livrarias e dezenas de editoras sem capacidade de actuar a esse nível - em algumas delas os problemas são tão básicos como não saber enviar um e-mail - e, repetidamente, existem dificuldades de responder a pedidos feitos electronicamente.

A questão das colocações é outra que exige uma reformulação muito maior no mercado do livro. O interesse de editoras e comerciais é a colocação dos livros, a colocação em quantidade, de modo a expôr ao máximo as edições (muitas vezes exageradas) de alguns livros. É muito mais habitual um livreiro sentir a pressão para encomendar mais do que para encomendar menos. Apesar de às editoras interessar pouco a recepção dos livros numa devolução, há sempre a esperança de vender tudo o que se coloca. E a esperança é colocar mais, colocar tudo.

Chegando finalmente ao sumo da questão, o NSL propõe a impossibilidade de se devolver livros comprados a firme. Sim, compreendo que isso implicaria uma maior noção de compra da parte do livreiro. Mas a consequência seria outra - se não posso devolver o que compro, não compro nada. Centenas ou milhares de títulos que têm oportunidade de passar pelos escaparates perderiam essa possibilidade. Matava-se, definitivamente as edições de autor, as edições dos amigos, as apostas para aproveitar papel, para aproveitar tempo de gráfica. Seria um novo mundo no mercado do livro. Se eu não estou de acordo em chegarmos aí? Mas é claro que estou, é claro que a minha posição é totalmente a favor disso. Mas não assim, não mudando a questão das devoluções.

O que há a mudar neste mercado é bem mais profundo. Desde um acordo de parceria entre editores e livreiros que marque as regras de funcionamento na relação entre as duas partes, o anulamento da lei do preço fixo e a criação de um novo modelo de comercialização do livro, até ao estabelecimento de um código de conduta que possa servir o mercado. Mas isso, Nuno, seria pedir demais...

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Bombas e Cabeças de Vácuo

Alguma imprensa nacional dá hoje destaque aos sucessos da nova Bomba de Vácuo produzida pela Rússia que se anuncia como "um projéctil relativamente barato com alto potencial destrutivo", acrescentando-se que esta bomba, "vinte vezes superior ao projéctil norte-americano quanto à superfície de destruição, quatro vezes mais potente e [que] gera uma temperatura duas vezes superior no epicentro da explosão", tem até preocupações ecológicas, visto não deixar rasto de contaminação como deixava a bomba atómica.

Confesso que ouço e leio esta notícia com alguma incredulidade. Do que se está a falar aqui é de uma bomba com alto potencial destrutivo, uma clara ameaça de crescimento da corrida ao armamento das mais paranóicas nações mundiais. Para mais, o responsável russo que anunciou o feito declarou que, com esta arma, a Rússia se encontra preparada para enfrentar a ameaça terrorista, frase da qual apenas posso retirar que o objectivo de ter tal bomba é poder, no futuro, destruir um país ou região por inteiro sem ter que lá pôr os pés.

Era realmente uma ilusão pensar que, por um destes dias, íamos mesmo conseguir viver num mundo diferente...

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Bertrand, Editoras, Livrarias, Descontos e Preços Fixos

Bertrand em risco de perder grandes editoras é o título de uma notícia dada à estampa, hoje, no Diário de Notícias. Como é do conhecimento generalizado no meio editorial e livreiro, a imposição pela Bertrand de novas regras no que toca aos custos recorrentes do envio e devolução dos livros causou um pequeno tremor de terra. Ao mesmo tempo, as margens de desconto cada vez maiores que a cadeia vai tentando impôr aos editores (a reboque dos hipermercados e da Fnac), vão criando um problema para o qual grande parte dos editores estavam avisados mas no qual foram preferindo não acreditar. Quando se tem um mercado centralizado em três grandes clientes, e sendo o mercado editorial português muito pouco diferenciado (visto que havendo uma grande incidência de compra de livros para oferta, as vertentes preço e disponibilidade de produto em exposição contam mais do que seria expectável), esse grandes clientes podem impôr as regras. E por impôr as regras entenda-se ter o poder para deixar de vender qualquer editora que bem lhes apeteça, se essa editora não aceitar as "novas" regras da casa (que pelo que é normal no mercado livreiro português, são sempre passíveis de mudança).

A resposta das editoras, na notícia do DN, surge em forma de ameaça de aumento do preço dos livros, o que, na prática, mais beneficiará a Bertrand visto que aumentando o preço do livro aumenta também o valor dos seus lucros. As editoras estão num beco sem saída. São cinquenta lojas em centros comerciais e em ruas de bastante movimento nos centros das principais cidades do país. Curiosamente, foram as próprias editoras que fizeram a cama onde agora se aprestam a serem deitadas à força. Como também é possível ler na notícia em causa, a Cotovia pratica um desconto de 42%, ou seja, mais 12% do que pratica com as livrarias independentes. Não será justo que a ameaça de aumento do preço dos livros tenha reflexo, apenas, nessas cadeias onde as editoras praticam maiores descontos? Sim, este, para mim, é o mais forte argumento à anulação da Lei do Preço Fixo que tem vindo apenas a beneficiar as grandes cadeias, em detrimento dos clientes e das livrarias independentes. Seria como que uma terapia de choque ao mercado, mas uma terapia mais que necessária neste momento de evolução. E então, optamos pelo conservadorismo ou arriscamos esta inovação?

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Ainda os Livros Escolares

A Livraria Livrododia é um dos vários pontos de venda de Livros Escolares em Portugal.

A semana passada, divulgou aos seus clientes uma Carta Aberta sobre o tema. Para quem se interessar, aconselho a sua leitura no blogue da livraria. O link directo está aqui.

Festa do Avante


É completamente diferente uma Festa do Avante onde se vai para trabalhar e uma festa onde se vai só para usufruir. Chamem-me workaholic mas trabalhar na Festa é das experiências mais fantásticas que pode haver, especialmente se for durante bastante tempo, como me aconteceu um ano, em que tive a oportunidade de trabalhar na festa desde o início do verão, onde toda a quinta é apenas um imenso relvado verde, até ao último dia da festa, onde se começam a desmontar algumas das bancas. Nesse período, a festa é vivida com a maior das intensidades.

Depois de ter saído do PCP, em 2001, voltei duas vezes à Festa. Em 2005, por uma variedade de concertos e peças de teatro que me interessavam muito ver, e este ano, porque me apetecia viver o espírito e porque havia um concerto que eu não perderia por nada deste mundo. Esse concerto era o dos romenos Fanfare Ciorcalia, que se apresentaram com vários convidados de Espanha, Bulgária e Macedónia. Foi um concerto fantástico, com todos os ingredientes expectáveis, uma festa dentro da festa. Pelo concerto valeu imenso a pena. Foi provavelmente dos melhores concertos a que assisti na vida. De resto, assisti a poucos concertos e todos eles pouco entusiasmantes (não estive na festa sexta-feira, onde a Cantata de Outubro parece ter sido do melhor também).

O resto do tempo ocupei-me a passear pela Festa e saboreei o outro lado, o lado da Bienal, da Exposição sobre a Revolução de 1917 no Espaço Central, a variedade de cheiros, sabores, cores e músicas do Espaço Internacional, todos os atractivos da Festa nas representações das várias Organizações Regionais. Este ano voltou-se a sentir alguma paz na festa, já passou tempo suficiente para que as animosidades da guerrilha renovadores /ortodoxos estejam agora retraídas. No fundo, as pessoas aceitam-se, tal como elas são. O que eu vi este ano na Festa é que estamos todos um pouco mais velhos, mais maduros, mais conscientes do nosso lugar do mundo. Podemos não partilhar já os mesmos sonhos, certamente não estamos de acordo quanto aos caminhos a seguir, mas temos as referências e a história passada que nos liga. Acho que na Festa, este ano, percebi, pacificamente, que a vida é mesmo assim. E a Festa continuará sempre de todos.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Leitores Marginais

Luís Filipe Cristóvão
Mário Lisboa Duarte
Poesia para Ninguém
Depois do sucesso no Manel Bar em Santa Cruz, anunciamos agora a nossa disponibilidade para bares, estádios, casamentos, baptizados e funerais.
Quem quiser poesia, contacte-nos.

sábado, 1 de setembro de 2007

10 livros que não mudaram a vida do gajo que escreve neste blogue

Pede-me o Manuel Domingos que indique 10 livros que não mudaram a minha vida. Se eu estivesse em casa, poderia enumerar bem uns 200, talvez muito mais, se buscasse na base de dados da BN ou da APEL.

Explicito duas coisas: os livros de que não gosto, não leio. Ficou, quase sempre, com os livros por terminar. A minha taxa de sucesso em ler um livro do princípio ao fim é quase nula, acontecendo muito mais nos livros de poesia do que na ficção. Leio apenas aquilo que procuro no livro e, bem vistas as coisas, talvez eu procure muito pouco (ou procure tanto que ando sempre a trocar de leitura). A segunda coisa é que são 17h33 de um Sábado e há 11 horas atrás estava eu a terminar um recital de poesia num bar, seguido de sessão de cantoria acompanha à guitarra por alguns resistentes e os funcionários do bar. A cabeça pode não estar no seu máximo funcionamento.

Segue a lista:

1- A Síbila, da Agustina - 8 capítulos quando tinha 17, 18 anos. Apesar de adorar ouvi-la, nunca mais tive coragem para a ler. O livro foi oferecido a uma colega de faculdade para não ser encontrado, no futuro, na minha biblioteca.
2- Poesias, da Florbela Espanca - nunca tive paciência para o "ser poeta é ser mais alto" da suícida da praia de Matosinhos
3- O Segredo, de Rhonda Byrne - duas páginas e uma reportagem de jornal chegaram para o recusar.
4- Todos os Livros do Paulo Coelho - li um página, sentado na mesa do bar da Faculdade de Direito. Não é a minha praia.
5- Contos, de Miguel Torga - não consigo engolir a pedra.
6- Poemas de Deus e do Diabo, José Régio- não vou por aí.
7- Ensaio sobre a Cegueira, do Saramago - bleargh
8- Anuário da Fórmula 1 1995 - mais ou menos quando percebi que ver carros a andar às voltinhas não tinha piada nenhuma
9- Arquitectura Mourisca - um tema que me fascina embrulhado pela Taschen num texto perfeitamente entediante
10 - Livros de Cheques - Nunca tive um livro meu, nem nunca me deram um cheque com um número que eu não conseguisse visualizar facilmente (helás!)