segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Torre Bela


Sempre nutri uma condescendente simpatia pelas ocupações de terras do tempo do PREC, principalmente as ocorridas no Alentejo, em que assalariados rurais reivindicavam um pedaço de terra para seu cultivo próprio. Ao mesmo tempo, sentia-me dividido ao ouvir os meus avós a falarem da insolência dos seus empregados ( eles trabalhavam na construcção civil) que durante esse período faziam exigências megalómanas em nome do povo.

O documentário Torre Bela, de Thomas Harlan, permite-nos sentir essa dualidade em permanência. Existem três prismas na ocupação desta Herdade pertencente ao Duque de Lafões: a de Wilson, suposto líder do movimento popular, um homem que durante todo o filme demonstra acreditar que a ocupação das terras e a formação de uma cooperativa são essenciais para a paz social na região e que tenta, sempre e a custo, dar o passo certo nesse sentido; o MFA, corpo estranho de frágeis teóricos e crianças fardadas, sem voz de comando, sem meios de fiscalização das políticas indicadas pelo Conselho de Revolução, a recorrer, vezes sem conta, à fórmula "é a minha opinião mas os camaradas já vão poder levantar o braço e aprovar"; a generalidade do povo, que tem um interesse apenas em todo este processo - a busca do seu bem-estar e a melhoria das suas condições de vida.

O momento que me parece mais importante e que reflecte a natureza da questão do PREC é quando, numa reunião em Lisboa, uma mulher que esteve desde o primeiro momento na ocupação das terras, repete pela enésima vez a história das azeitonas que eram enterradas pelo Duque e que deram origem a uma queixa à GNR quando um grupo de mulheres, já no pós-25 de Abril, se decidiu a aproveitar a azeitona. Nessa altura, os militares presentes olhavam incrédulos e adormecidos a mulher, que insistia em conta a história, não percebendo (como não tinham percebido antes, como nunca chegaram a perceber depois) que se o povo é o motor da revolução, a revolução far-se-á pelas azeitonas (ou pela jorna ou pelo pão ou por uma camisa lavada) e nunca pelas cooperativas, nem pelos direitos do homem, nem pela teoria marxista-leninista.

Torre Bela ajuda-nos a compreender o que foi o PREC: uma curta fase da história de Portugal em que todos puderam considerar como possível a realização dos seus sonhos. Não nutro nenhum tipo de simpatia pela dor mal simulada pelo Duque de Lafões ao ver as suas terras invadidas, como não nutro nenhuma simpatia pelo velho camponês que "martela" as teclas do piano do palácio. No entanto, não posso deixar de ser um utopista.

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