terça-feira, 7 de agosto de 2007

Tenho Qualquer Coisa de Árvore - Selecta de Poetas de Léon

Poetas presentes na Antologia: Antonio Gamoneda, José Luis Puerto, Gaspar Moisés Gómez, Juan Carlos Mestre, Tomás Sanchez Santiago, Ildefonso Rodríguez, Victor M. Díez, Silvia Zayas, Aldo Z. Sanz, Eloisa Otero, Miguel Suárez, Rubén Mielgo, Jorge Pascual. A Selecção é de Silvia Zayas e a traducção de Alberto Augusto Miranda

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Cavalo Morto

Cavalo Morto é um lugar que existe num poema de Lêdo Ivo.
Um poema de Lêdo Ivo é um pirilampo que procura uma moeda perdida. Cada moeda perdida é uma andorinha de costas pousada sobre a luz de um pára-raios. Dentro de um pára-raios há um bulício de abelhas pré-históricas em redor de uma melancia. Em Cavalo Morto as melancias são mulheres semi-adormecidas que têm no meio do coração o barulho de um molho de chaves.

Cavalo Morto é um lugar que existe num poema de Lêdo Ivo.
O Lêdo Ivo é um homem velho que mora no Brasil e sai nas antologias com cara de louco. Em Cavalo Morto os loucos têm asas de mosca e voltam a guardar na sua caixa os fósforos queimados como se fossem palavras roçadas pelo esplendor doutro mundo. Outro mundo é o fundo dum copo, um lugar onde o recto tem forma de ferradura e há uma só tarde forrada com tecido de gabardina.

Cavalo Morto é um lugar que existe num poema de Lêdo Ivo.
Um lugar que existe num poema de Lêdo Ivo é um rio que madruga para ir fabricar a água das lágrimas, pequenas mentiras de chuva feridas por uma pua de acácia. Em Cavalo Morto os aviões atam com fitas de vapor o céu como se as nuvens fossem uma prenda de Natal e os felizes e os infelizes sobem directamente aos hipódromos eternos pela escadinha do anilhador de gaivotas.

Cavalo Morto é um lugar que existe num poema de Lêdo Ivo.
Um poema de Lêdo Ivo é o amante de um relógio de sol que abandona em pontas de pés as hospedarias da manhã seguinte. A manhã seguinte é o que iam dizer-se aqueles que nunca chegaram a encontrar-se, os que mesmo assim se amaram e saem de braço dado com a brisa do anoitecer a festejar o aniversário das árvores e escrevem partituras com a campainha das bicicletas.

Cavalo Morto é um lugar que existe num poema de Lêdo Ivo.
Lêdo Ivo é uma escola cheia de tentilhões e um timoneiro que canta no pratinho de leite. Lêdo Ivo é um enfermeiro que liga as ondas e acende com o seu beijo as lâmpadas dos barcos. Em
Cavalo Morto todas as coisas perfeitas pertencem a outro, como pertence a porca das estrelas de mar ao saqueador das cabeças sonâmbulas e o carteiro das rosas do domingo à coroazinha de luz das empregadas domésticas.

Cavalo Morto é um lugar que existe num poema de Lêdo Ivo.
Em Cavalo Morto quando morre um cavalo chama-se Lêdo Ivo para que o ressuscite, quando morre um evangelista chama-se Lêdo Ivo para que o ressuscite, quando morre o Lêdo Ivo chamam o alfaiate das borboletas para que o ressuscite. Acreditem-me, as recordações formosas são fugazes como os esquilos, cada amor que acaba é um cemitério de abraços e Cavalo Morto é um lugar que não existe.

Juan Carlos Mestre

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Posições

Posição nº1: Habitar. Nada mais que habitar e habitar. Tudo branco. Todo o habitado tem uma distância indescritível. Vejo a distância da minha casa comigo e do mar com o seu próprio movimento. Fome e distância nos cacifos do lugar destinado às migrações. Tudo branco.

Posição nº2: Bulir. Vou encher o meu ventre de água, aquecê-lo e amamentá-lo como a um filho mínimo. Definições de solidão: O meu corpo tem hoje uma existência atroz. Corpo. Mais nada.

Posição nº3: Fazer de árvore. Caminhar com as mãos. Tapar os pés com um chapéu.

Posição nº4: Quartos de relógio desbocado. Fui a mulher sem benzer baixo a mansidão (15'), fui a mulher com o corpo coalhado de relógios (30'). Ponteiros no corpo (45'). Pausa. Passou o relojoeiro a pôr-me em hora (60'), e agora e na hora inteira da minha vida fingi estar adormecida. Definições de solidão: Taque taque taque incha-se o páramo, cresce dentro, alisa, aplana, filtra-se pelos pianos.

Posição nº5: Aumentar o número de patas para correr à frente do desencanto. Cinco. 5 patas para morder a aceleração.

Posição nº6: Deitada com uma tijela de barro com água a ferver em cima do umbigo. Definições de solidão: Em caso de urgência, ligue o cento e doze. Em caso de urgência poética, sobreviva.
[...]

Silvia Zayas

Título: Qualquer Coisa de Árvore
Autores: Vários Poetas de Léon
Editor: Intensidez

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