segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Entrevista a Helena Carvalhão Buescu

LFC- A Helena é reconhecida pela sua brilhante carreira académica sendo que como autora tem publicado textos na área do ensaio e dos estudos literários. Os seus livros de poesia, por serem mais raros, surgem sempre com surpresa. Como surge Ardem as trevas e outros lugares? É fruto de um longo trabalho de oficina poética ou é, uma vez mais, depois de tanto tempo a estudar a literatura, a hora de experimentar escrevê-la?

HCB- Na realidade, foi pela poesia que eu comecei. Quase desde sempre. Mas, por um lado, tenho alguma (ou muita) desconfiança da juvenilia, bem como do pouco distanciamento que muitas vezes ela implica. O primeiro livro de poesia foi publicado em 1998 (De onde nascem os rios, Presença). O tempo que mediou entre um e outro tem também a ver com algo a que chamo por vezes o trabalho de “alijar carga”, que é talvez o trabalho mais difícil de ser conseguido. Mas é nele que me sinto envolvida. Largar pesos, coisas que julgámos importantes e não o são afinal. Também em poesia.

LFC- Caminhando entre os dois espaços, o da poesia e o do ensaio, como é que as duas produções comunicam entre si? Há um diálogo estreito entre ambas ou tratar-se-á de um intervalo onde essa comunicação sai menos visível?

HCB- Será talvez tarefa de quem lê compreender até que ponto poesia e ensaio são na realidade “vozes comunicantes”. Tanto quanto me é dado perceber, o meu ensaio fala sempre de coisas que experimento, mesmo como ideias ou outros acontecimentos, na minha vida. Nesse sentido, sim, ele está próximo da poesia que escrevo, não na medida em que possa conceber uma correspondência entre algo fora e algo dentro da escrita, mas porque ambas as actividades são para mim uma forma de interrogar o que vivemos. Parto muitas vezes, quer no ensaio quer na poesia, de uma ideia ou imagem mínima, mas para mim cintilante. O resto cresce à volta disso, e muitas vezes me surpreende no final.

LFC- Acompanha o que vai saindo da nova poesia portuguesa? Em que geração que se sente mais incluída? No grupo de poetas onde pontificam Fernando Pinto do Amaral e Manuel Gusmão ou naqueles que começaram a publicar na fronteira do novo século?

HCB- Acompanho de forma não sistemática o que vai saindo em poesia portuguesa. Gosto mais de folhear e, caso goste do que leio, comprar e ler com calma do que fazer um esforço no sentido de ter a certeza de que não escapa nada, ou quase nada. Corro o risco de descobrir às vezes alguns autores estranhamente tarde. Isso não me preocupa, devo dizer – pelo menos enquanto poeta. Penso que quando se lê é importante deixar espaço para o que acontece, ou não acontece. Já a situação é diferente, é claro, se leio enquanto ensaísta. Talvez por isso haja alguma vontade de não fazer coincidir os dois modos de leitura. Quanto a gerações, hesito. Não sei bem a que geração pertenço, se a alguma. Conheço os meus “maiores”, que hoje vivem – e o Manuel Gusmão (na foto) é sem qualquer dúvida um de entre eles, sim. Por todas as razões.

LFC- Durante o Séc.XX, e aproveitando novos meios de comunicação, como o crescimento dos Jornais impressos e o aparecimento da Rádio e da Televisão, as Faculdades de Letras forneceram grandes influenciadores à vida cultural e ao espaço público do nosso país. Na entrada do Séc. XXI, esses actores sociais vêm de outras paragens. Ao mesmo tempo, os cursos de letras perdem alunos. O que se está a passar com as Letras e com as Literaturas? Dê-nos a sua visão.

HCB- É verdade que a situação mudou muito, e muito depressa. E que o estatuto simbólico das Letras e das Literaturas não é hoje o mesmo que há 20 ou há 50 anos. Devo dizer, entretanto, que não sou demasiado pessimista. Primeiro, porque esse “outro” estatuto simbólico foi, em grande medida, um equívoco histórico: foi atribuída à Literatura uma função de coesão social (especificamente nacional) que ela não precisa de ter (e há quem considere que não deve ter). Provavelmente, tal aconteceu à custa do esquecimento daquilo a que eu gostaria de chamar o seu valor de arte. Julgo que estamos a assistir a uma alteração do quadro em que a Literatura (e outras artes com ela) se pode pensar, e pode ser pensada. Se isso talvez signifique perder um certo tipo de público massificado, também por outro lado significa ganhar em intensidade de leitura e de leitores. Aliás, curiosamente a situação está a mudar no panorama universitário das grandes Universidades, começando pelas inglesas e norte-americanas: é a Literatura, e não os Estudos Culturais, sobretudo na sua versão mais rasa, que é ensinada nas Universidades de primeiro plano. E com orgulho. Porque é que temos de pensar que uma mudança é o fim da história?

LFC - Confesso que a saída da Literatura do campo da massificação me agrada, mas continuamos a não conseguir evitar a confusão instalada que trata como literatura tudo aquilo que é publicado em livro. Então, essa confusão chega a ser dolorosa, quando, por exemplo, numa livraria (que é o local onde eu passo grande parte do meu tempo), se mede com a mesma balança, a grande literatura e o entretenimento que acontece surgir em formato livro. Confesso que isso não me magoará mais porque já tinha percebido, no tempo da faculdade, que mesmo alguns colegas, que supostamente são hoje, como eu, licenciados em Letras, não conseguiam distinguir entre o que seja Literatura e o que seja aquilo que vem nos livros.
A solução é mesmo sermos poucos e bons, certo?


HCB- Hesito em chamar-lhe solução. Mas há uma dimensão de consciência histórica, artística e até política (no sentido mais lato do termo) que, em meu entender, é decisiva na construção da Literatura, e que é muito exigente, de facto. E sim, há um certo nível de entrada no discurso artístico que é fortemente electivo. O interessante é que essa dimensão electiva não coincide (ou melhor, não precisa de coincidir, e é por isso que a educação é tão importante) com as linhas de clivagem social que estamos habituados a reconhecer.
E compreendo (sinto, partilho) a dificuldade dessas indistinções. É com elas que todos os anos tenho de trabalhar na Faculdade. E todos os anos recomeço com uma ideia de Literatura. Há certos anos, não sei porquê, que nos compensam de outros que pareciam desertos. Por exemplo, o ano que passou, em que tive alunos de uma qualidade absolutamente excepcional, e que me fizeram sentir privilegiada por poder dar-lhes aulas.

LFC- Para terminar, queria perguntar-lhe quais são os seus planos de edição para o futuro próximo. Pode adiantar-nos alguma novidade?

HCB- Espero que possa sair em 2008 um livro de ensaios que tenho já entregue. Mas o panorama editorial nem sempre é muito confiável… Intitula-se Emendar a morte. Pactos e(m) literatura. Nele desenvolvo a ideia de pacto literário, em diversíssimas formulações, como uma forma de corrigir a morte, adoptando o verso de Luiza Neto Jorge. E, claro, planos de outro livro de poesia, que está entretanto apenas em formato de esboço.
LFC - Obrigado e felicidades para os seus projectos.

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