segunda-feira, 13 de agosto de 2007

American Scientist - António Gregório



AMERICAN SCIENTIST

Lemos que estava a expandir-se o universo e
imaginámos perplexos a quantidade
de espaço novo a dispor entre todos quando
bem contados nem somos muitos. Ela disse
com certeza calhar-nos-á algum e que era
um luxo quase imoral como tomar banho
de banheira cheia nestes meses de seca
prosseguirmos os dois à beira da fusão.
Numa carta electrónica de resposta à
minha o articulista garantiu que nada
se expande eternamente e no prazo de algumas
gerações estelares há-de o universo
encolher outra vez e que por isso o espaço
que nos aparta é só uma questão de tempo.

O FUMO

Somos quase quase como os outros amantes
tirando a parte mais clara do dia quando
ela marsupialmente se esconde aqui
por causa da luz sinistra malfazeja à
fauna dos sonhos aos espectros à memória
(problemas de pele creio eu) – e que bem
podendo tornaria tudo em pó num ápice.
Sai à noite à manhã dos candeeiros – o
vidro sujo côa ainda algum excesso – e
senta-se na cama. Depois eu venho da
cozinha com o prato desbeiçado que faz
as vezes do cinzeiro e sento-me também;
e ficamos quedos fumando todos os
nossos cigarros ouvindo o que o fumo – onírico
espectral memoroso – tem hoje a contar-nos
tal como os outros amantes no zaping dos
telejornais: a diferença é só não termos
televisão.

O PRIMEIRO VOLUME DO DOM QUIXOTE

Algumas horas mais e entrará ela no
dia de aniversário sem que eu resolva
o negligenciado problema do corte
da mão que primeiro segurou o cutelo.
Posso mandar-lhe apenas uma mas embirro
com pares desirmanados: nunca esqueci
o despropósito que foi certa vez há
muitos anos um embrulho promissor trazer
um desoladíssimo volume do dom
Quixote – presente de uma prima que não
lê e por isso coitada sabia lá
quantos volumes tinha a história completa.
Título: American Scientist
Autor: António Gregório
Editor: Quasi Edições

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