sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Esta noite há poesia marginal


Para festejar o primeiro aniversário do Grupo de Intervenção Margem d'Arte, vai realizar-se o Marginália, leitura de poesia marginal por Luís Filipe Cristóvão, Gonçalo Veiga, Pedro Lopes, Mário Lisboa Duarte e Raquel Sousa. Haverá ainda música e expressões visuais estendalizadas de Frederico Fonseca.
Será no Manelbar em Santa Cruz, nesta noite de 31 de Agosto para 1 de Setembro, a partir da 1 h da madrugada. Para mais informações (tais como mapas, reservas de mesas e outras coisas dessas) visite este link.




terça-feira, 28 de agosto de 2007

bet and win segundo Boris Vian

Si j'avais 1,5 FF de Boris Vian

(é esta a nossa filosofia)

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Em busca da alegria

Hoje em dia há tanto profissionalismo, que temos que voltar a fazer com que os jogadores gostem do jogo, amem-no, joguem-no com alegria

Luís Felipe Scolari

( Esta devia ser, definitivamente, a nossa filosofia)

Torre Bela


Sempre nutri uma condescendente simpatia pelas ocupações de terras do tempo do PREC, principalmente as ocorridas no Alentejo, em que assalariados rurais reivindicavam um pedaço de terra para seu cultivo próprio. Ao mesmo tempo, sentia-me dividido ao ouvir os meus avós a falarem da insolência dos seus empregados ( eles trabalhavam na construcção civil) que durante esse período faziam exigências megalómanas em nome do povo.

O documentário Torre Bela, de Thomas Harlan, permite-nos sentir essa dualidade em permanência. Existem três prismas na ocupação desta Herdade pertencente ao Duque de Lafões: a de Wilson, suposto líder do movimento popular, um homem que durante todo o filme demonstra acreditar que a ocupação das terras e a formação de uma cooperativa são essenciais para a paz social na região e que tenta, sempre e a custo, dar o passo certo nesse sentido; o MFA, corpo estranho de frágeis teóricos e crianças fardadas, sem voz de comando, sem meios de fiscalização das políticas indicadas pelo Conselho de Revolução, a recorrer, vezes sem conta, à fórmula "é a minha opinião mas os camaradas já vão poder levantar o braço e aprovar"; a generalidade do povo, que tem um interesse apenas em todo este processo - a busca do seu bem-estar e a melhoria das suas condições de vida.

O momento que me parece mais importante e que reflecte a natureza da questão do PREC é quando, numa reunião em Lisboa, uma mulher que esteve desde o primeiro momento na ocupação das terras, repete pela enésima vez a história das azeitonas que eram enterradas pelo Duque e que deram origem a uma queixa à GNR quando um grupo de mulheres, já no pós-25 de Abril, se decidiu a aproveitar a azeitona. Nessa altura, os militares presentes olhavam incrédulos e adormecidos a mulher, que insistia em conta a história, não percebendo (como não tinham percebido antes, como nunca chegaram a perceber depois) que se o povo é o motor da revolução, a revolução far-se-á pelas azeitonas (ou pela jorna ou pelo pão ou por uma camisa lavada) e nunca pelas cooperativas, nem pelos direitos do homem, nem pela teoria marxista-leninista.

Torre Bela ajuda-nos a compreender o que foi o PREC: uma curta fase da história de Portugal em que todos puderam considerar como possível a realização dos seus sonhos. Não nutro nenhum tipo de simpatia pela dor mal simulada pelo Duque de Lafões ao ver as suas terras invadidas, como não nutro nenhuma simpatia pelo velho camponês que "martela" as teclas do piano do palácio. No entanto, não posso deixar de ser um utopista.

A malta da escola

Um relatório do Alto Conselho para a Educação Francês que será hoje entregue ao Presidente Nicolas Sarkozy nota que o ensino básico não resolve o problema maior que lhe é colocado: se com os bons alunos, se continuam a fazer óptimos resultados, com os "maus alunos", cerca de 300 000 crianças, na sua generalidade vindas de meios desfavorecidos, a escola não cria alternativas nem apresenta resultados.

Não deixa de ser curioso olhar para o Ensino em Portugal em comparação com estes dados. É prática conhecida a criação de "boas" e "más" turmas, que criam ambientes propícios aos supostos bons alunos e que colocam no mesmo saco crianças com dificuldades de aprendizagem, alunos que no ano anterior passaram à rasca, miúdos com todo o tipo de problemas. A partir daí, fica difícil pedir a um professor que faça milagres, aliás, bem sabemos que a grande maioria da classe de educadores não é muito dada a espíritos de sacrifício.

Lembro-me que na minha turma de 12º ano havia desde mentes brilhantes a alunos que mal sabiam escrever uma frase. Isso nunca foi motivo de atraso dos melhores, permitiu aos que tinham mais dificuldades beneficiar do apoio de colegas que estavam melhor preparados. A guetificação do ensino cria uma classe de desprotegidos, que prolongam as suas carências fora da escola para dentro do universo escolar. Quando se fecha os olhos a isto, não se está a fazer nada pelo futuro de um país.

sábado, 25 de agosto de 2007

Eduardo Prado Coelho (1944 - 2007): obituário


Não será lembrado pelos seus escritos sobre literatura, os vários textos que lhe li, de uma fase mais activa nessa matéria, a nível académico, entre os anos 70 e 80, são quase sempre pouquíssimo estimulantes, assim como aqueles que foi escrevendo para jornais. No fundo, lia-se Eduardo Prado Coelho porque era o Eduardo Prado Coelho, e por mais nada.
Filho de um nome enorme dos Estudos Literários Portugueses, discípulo de um estilo francês fora da corrente dos nossos dias, Prado Coelho usou das influências e tentou marcar o dia-a-dia do país com as suas crónicas diárias. Não ficarão na história também esses relatos, apesar de muito lidos. Aqueles que insistem em ver o país como se ele fosse a Praça do Saldanha estão, constantemente, expostos ao ridículo de falar sobre algo que não existe como se fosse essa a única verdade.
Será lembrado como o Castilho do Entre Séculos XX e XXI - estava no topo, mandou, escolheu, definiu, foi vangloriado e ridicularizado pelos seus pares, sem que o mundo tenha saído por um segundo dos carris por influência sua.
Suspeita-se, apesar de tudo, que tenha sido muito feliz.
Paz à sua alma.

Sobre o mesmo assunto, Eduardo Pitta diz que nada voltará a ser como dantes

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

em branco


as páginas estão em branco.
para te dizer a verdade, nem sequer tento.
antes fosse o silêncio a habitar-me a cabeça.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Movimentos Dada

Hard To Tell If Wikipedia Entry On Dada Has Been Vandalized Or Not

The Wikipedia entry on Dada—the World War I–era "anti-art" movement characterized by random nonsense words, bizarre photocollage, and the repurposing of pre-existing material to strange and disturbing effect—may or may not have been severely vandalized, sources said Monday.
"This is either totally messed up or completely accurate," said Reed College art history major Ted Brendon. "There's a mustache drawn on the photo of Marcel Duchamp, the font size keeps changing, and halfway through, the type starts going in a circle. Also, the majority of the actual entry is made up of Krazy Kat cartoons with abstract poetry written in the dialogue balloons."
The fact that the web page continually reverts to a "normal" state, observers say, is either evidence that ongoing vandalization is being deleted through vigilant updating, or a deliberate statement on the impermanence of superficial petit-bourgeois culture in the age of modernity.

Daqui, por aqui.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Novidades da Literatura Galega

Non é o verán a mellor data para empezar esta serie de colaboracións a propósito das novidades literarias do mercado editorial galego. Un modo de letargo apodérase do noso sistema literario neste período que empeza con xuño e dura até entrado outubro.

Asunto curioso, se se ten en conta que durante o verán (sobre todo en xullo) as cidades e vilas galegas teñen as súas feiras do libro, que poderían ser espazo axeitado para a difusión de novidades. Na realidade, durante estes eventos hai poucos actos de presentación de libros e, a maioría, son de títulos publicados antes do comezo do grande silenzo estival.

É o caso de Trinta e dous dentes, de Xabier López López, finalista do Premio Torrente Ballester 2006, un dos premios de narrativa máis relevantes do país; Made in Galiza, libro de relatos de Séchu Sende; Benquerida catástrofe, nova achega de Teresa Moure, autora do multi-premiado Herba moura (2005) ou L'affiche rouge de Mario Regueira, unha novela que está a receber bo trato da crítica.

No ámbito da poesía, poucas son as novidades editoriais dos últimos meses. O nome máis salientable é o de Antonio García Teijeiro, escritor prolífico dedicado fundamentalmente á literatura para nenos e mozos que ten dous novos títulos na rúa: Petando nas portas de Dylan (Galaxia, colección Árbore), orientado a rapaces a partir dos 12 anos, e Arredor do teu corpo (Caldeirón), libro gañador do primeiro certame Illas Sisargas de poesía Erótica de Malpica. Aquí pódese ler un dos poemas de Petando nas portas de Dylan.

Anxo Angueira volve visitar os territorios da poesía con Fóra do sagrado (Xerais). Angueira é autor de versos que se declaman. Este termo, que non está de acordo cos modos actuais de realizar lecturas públicas de versos, pode aplicarse sen erro á poesía de Anxo Angueira: os seus poemas están escritos cunha clara consciencia da oralidade e cobran vigor de épica clásica cando o seu autor os enuncia en voz alta. Neste novo libro, o autor adica a súa atención a Vigo, dende a súa tradición libertaria e republicana, cun volume que non é unha colección de poemas senón un longo poema épico.

María Xosé Queizán presenta Cólera, conxunto de poemas sobre os homes loitadores. Nunha curiosa nota de contraportada, Queizán explica que a do libro é unha voz masculina xa que, de ser feminina, o título debería ser en plural. A crítica consultada dubida do éxito da empresa. A nota da contraportada demostra que a preocupación feminista da autora raia en obsesión.
Xiana Arias presentou en maio, Ortigas (Espiral Maior), gañador do premio de poesía Xosemaría Pérez Parallé para autores noveis. Xornalista, presenta neste primeiro libro unha serie sólida de poemas en prosa cunha voz que, construída con elementos do cotián, e con eles afonda na relación coa propia conciencia dun xeito novidoso e intelixente.

Outros títulos de Espiral Maior (editora galega de poesía por excelencia) publicados antes do inicio do verán son: Shakespeare mata o porco cunha rosa, de Ramón Reboiras; A ollada de Astarté, de Pura Salceda, Mar aberto, de Xosé Carlos Gómez Alfaro (Premio Cidade de Ourense 2006), As horas de María de Paco Souto (Premio Xohán Carballeira, 2006), Bergondo de Antonio Placer (trilingüe galego, español e francés).

Viron luz tamén os libros cos traballos gañadores do premio GZ-Crea: Manual do misántropo, de Xosé Antón Cascudo e un volume colectivo, Isto é un poema e hai xente detrás, que inclúe "Así" de Lucía Aldao, "Heraldos das escuras horas" de Brais González Pérez, "Aparicicón de triste" de Ledicia Costas Álvarez, "De ter un can chamarialle guenguis" de Alberte Momán Noval e "O ladrón de almas" de Verónica Martínez Delgado.

Finalmente, reseñar a aparición dun novo libro de poemas en galego de César Antonio Molina. Este coñecido autor da literatura española, actualmente Ministro de Cultura, naceu na Galiza (concretamente na Coruña). En 2006 a editorial Espiral Maior publicou unha tradución ao galego dunha antoloxía da súa obra castelá (Soños nos cantís). Agora a editorial Galaxia presenta Eume, o segundo poemario en galego do autor, despois de A fin de Fisterra (Deputación de Pontevedra, 2001).

Antes do limbo estival (e mesmo durante, ouh!) coñecéronse os libros gañadores dalgúns premios literarios: Xosé Luís Mosquera Camba obtivo o Premio de Poesía Concello de Carral con Nadja c’est moi; Alberte Momán Noval resultou favorecido coa segunda convocatoria do premio Illas Sisargas de poesía erótica co seu Baile Àtha Cliath, David Souto Alcalde acadou o Premio Fermín Bouza Brey con A árbore seca. Neste eido, resulta salientábel o resultado da edición 2007 do premio de poesía Espiral Maior que quedou nas mans de Yolanda Castaño, unha das poetas máis recoñecidas do panorama actual e, porén, moi poucas veces premiada en concursos. O libro co que alcanzou este xa prestixioso certame titúlase Profundidade de campo.

Con todo, a novidade máis salientábel na poesía galega de 2007 é Facer Merzbau non ou posible? Este traballo dos poetas David e Estevo Creus contén un pequeno poemario (ao que os autores se refiren como variacións dun mesmo texto) e un dvd cun vídeo sen son. O traballo inaugura a colección "non ou edicións" que estará adicada á publicación de obxectos artísticos. Neste volume, os irmáns Creus fan dialogar os textos coas imaxes dun xeito moi suxestivo e confirman que son dúas das voces máis orixinais, ousadas e inconformistas da poesía galega actual.
O poemario dos Creus insírese na cada vez máis asentada tendencia a utilizar os medios visuais e as novas tecnoloxías como complemento dos textos ou en diálogo con eles. Na Galiza, traballos como o de Estíbaliz Espinosa, María Lado ou Lara Bacelo son outros bos exemplos. Internet (en particular o formato blog) é o medio escollido para dar cauce a estes productos multimedia. Non ou edicións é un novo espazo de difusión para estes traballos.




Eduardo Estévez é um poeta galego que vai, a partir de hoje, e o mais mensalmente possível, colaborar com o blogue 1 9 7 9, escrevendo crónicas sobre as novidades do mundo editorial galego.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Rentrée Política em Portugal

"Biltre" dos Repórter Estrábico

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Entrevista a Helena Carvalhão Buescu

LFC- A Helena é reconhecida pela sua brilhante carreira académica sendo que como autora tem publicado textos na área do ensaio e dos estudos literários. Os seus livros de poesia, por serem mais raros, surgem sempre com surpresa. Como surge Ardem as trevas e outros lugares? É fruto de um longo trabalho de oficina poética ou é, uma vez mais, depois de tanto tempo a estudar a literatura, a hora de experimentar escrevê-la?

HCB- Na realidade, foi pela poesia que eu comecei. Quase desde sempre. Mas, por um lado, tenho alguma (ou muita) desconfiança da juvenilia, bem como do pouco distanciamento que muitas vezes ela implica. O primeiro livro de poesia foi publicado em 1998 (De onde nascem os rios, Presença). O tempo que mediou entre um e outro tem também a ver com algo a que chamo por vezes o trabalho de “alijar carga”, que é talvez o trabalho mais difícil de ser conseguido. Mas é nele que me sinto envolvida. Largar pesos, coisas que julgámos importantes e não o são afinal. Também em poesia.

LFC- Caminhando entre os dois espaços, o da poesia e o do ensaio, como é que as duas produções comunicam entre si? Há um diálogo estreito entre ambas ou tratar-se-á de um intervalo onde essa comunicação sai menos visível?

HCB- Será talvez tarefa de quem lê compreender até que ponto poesia e ensaio são na realidade “vozes comunicantes”. Tanto quanto me é dado perceber, o meu ensaio fala sempre de coisas que experimento, mesmo como ideias ou outros acontecimentos, na minha vida. Nesse sentido, sim, ele está próximo da poesia que escrevo, não na medida em que possa conceber uma correspondência entre algo fora e algo dentro da escrita, mas porque ambas as actividades são para mim uma forma de interrogar o que vivemos. Parto muitas vezes, quer no ensaio quer na poesia, de uma ideia ou imagem mínima, mas para mim cintilante. O resto cresce à volta disso, e muitas vezes me surpreende no final.

LFC- Acompanha o que vai saindo da nova poesia portuguesa? Em que geração que se sente mais incluída? No grupo de poetas onde pontificam Fernando Pinto do Amaral e Manuel Gusmão ou naqueles que começaram a publicar na fronteira do novo século?

HCB- Acompanho de forma não sistemática o que vai saindo em poesia portuguesa. Gosto mais de folhear e, caso goste do que leio, comprar e ler com calma do que fazer um esforço no sentido de ter a certeza de que não escapa nada, ou quase nada. Corro o risco de descobrir às vezes alguns autores estranhamente tarde. Isso não me preocupa, devo dizer – pelo menos enquanto poeta. Penso que quando se lê é importante deixar espaço para o que acontece, ou não acontece. Já a situação é diferente, é claro, se leio enquanto ensaísta. Talvez por isso haja alguma vontade de não fazer coincidir os dois modos de leitura. Quanto a gerações, hesito. Não sei bem a que geração pertenço, se a alguma. Conheço os meus “maiores”, que hoje vivem – e o Manuel Gusmão (na foto) é sem qualquer dúvida um de entre eles, sim. Por todas as razões.

LFC- Durante o Séc.XX, e aproveitando novos meios de comunicação, como o crescimento dos Jornais impressos e o aparecimento da Rádio e da Televisão, as Faculdades de Letras forneceram grandes influenciadores à vida cultural e ao espaço público do nosso país. Na entrada do Séc. XXI, esses actores sociais vêm de outras paragens. Ao mesmo tempo, os cursos de letras perdem alunos. O que se está a passar com as Letras e com as Literaturas? Dê-nos a sua visão.

HCB- É verdade que a situação mudou muito, e muito depressa. E que o estatuto simbólico das Letras e das Literaturas não é hoje o mesmo que há 20 ou há 50 anos. Devo dizer, entretanto, que não sou demasiado pessimista. Primeiro, porque esse “outro” estatuto simbólico foi, em grande medida, um equívoco histórico: foi atribuída à Literatura uma função de coesão social (especificamente nacional) que ela não precisa de ter (e há quem considere que não deve ter). Provavelmente, tal aconteceu à custa do esquecimento daquilo a que eu gostaria de chamar o seu valor de arte. Julgo que estamos a assistir a uma alteração do quadro em que a Literatura (e outras artes com ela) se pode pensar, e pode ser pensada. Se isso talvez signifique perder um certo tipo de público massificado, também por outro lado significa ganhar em intensidade de leitura e de leitores. Aliás, curiosamente a situação está a mudar no panorama universitário das grandes Universidades, começando pelas inglesas e norte-americanas: é a Literatura, e não os Estudos Culturais, sobretudo na sua versão mais rasa, que é ensinada nas Universidades de primeiro plano. E com orgulho. Porque é que temos de pensar que uma mudança é o fim da história?

LFC - Confesso que a saída da Literatura do campo da massificação me agrada, mas continuamos a não conseguir evitar a confusão instalada que trata como literatura tudo aquilo que é publicado em livro. Então, essa confusão chega a ser dolorosa, quando, por exemplo, numa livraria (que é o local onde eu passo grande parte do meu tempo), se mede com a mesma balança, a grande literatura e o entretenimento que acontece surgir em formato livro. Confesso que isso não me magoará mais porque já tinha percebido, no tempo da faculdade, que mesmo alguns colegas, que supostamente são hoje, como eu, licenciados em Letras, não conseguiam distinguir entre o que seja Literatura e o que seja aquilo que vem nos livros.
A solução é mesmo sermos poucos e bons, certo?


HCB- Hesito em chamar-lhe solução. Mas há uma dimensão de consciência histórica, artística e até política (no sentido mais lato do termo) que, em meu entender, é decisiva na construção da Literatura, e que é muito exigente, de facto. E sim, há um certo nível de entrada no discurso artístico que é fortemente electivo. O interessante é que essa dimensão electiva não coincide (ou melhor, não precisa de coincidir, e é por isso que a educação é tão importante) com as linhas de clivagem social que estamos habituados a reconhecer.
E compreendo (sinto, partilho) a dificuldade dessas indistinções. É com elas que todos os anos tenho de trabalhar na Faculdade. E todos os anos recomeço com uma ideia de Literatura. Há certos anos, não sei porquê, que nos compensam de outros que pareciam desertos. Por exemplo, o ano que passou, em que tive alunos de uma qualidade absolutamente excepcional, e que me fizeram sentir privilegiada por poder dar-lhes aulas.

LFC- Para terminar, queria perguntar-lhe quais são os seus planos de edição para o futuro próximo. Pode adiantar-nos alguma novidade?

HCB- Espero que possa sair em 2008 um livro de ensaios que tenho já entregue. Mas o panorama editorial nem sempre é muito confiável… Intitula-se Emendar a morte. Pactos e(m) literatura. Nele desenvolvo a ideia de pacto literário, em diversíssimas formulações, como uma forma de corrigir a morte, adoptando o verso de Luiza Neto Jorge. E, claro, planos de outro livro de poesia, que está entretanto apenas em formato de esboço.
LFC - Obrigado e felicidades para os seus projectos.

American Scientist - António Gregório



AMERICAN SCIENTIST

Lemos que estava a expandir-se o universo e
imaginámos perplexos a quantidade
de espaço novo a dispor entre todos quando
bem contados nem somos muitos. Ela disse
com certeza calhar-nos-á algum e que era
um luxo quase imoral como tomar banho
de banheira cheia nestes meses de seca
prosseguirmos os dois à beira da fusão.
Numa carta electrónica de resposta à
minha o articulista garantiu que nada
se expande eternamente e no prazo de algumas
gerações estelares há-de o universo
encolher outra vez e que por isso o espaço
que nos aparta é só uma questão de tempo.

O FUMO

Somos quase quase como os outros amantes
tirando a parte mais clara do dia quando
ela marsupialmente se esconde aqui
por causa da luz sinistra malfazeja à
fauna dos sonhos aos espectros à memória
(problemas de pele creio eu) – e que bem
podendo tornaria tudo em pó num ápice.
Sai à noite à manhã dos candeeiros – o
vidro sujo côa ainda algum excesso – e
senta-se na cama. Depois eu venho da
cozinha com o prato desbeiçado que faz
as vezes do cinzeiro e sento-me também;
e ficamos quedos fumando todos os
nossos cigarros ouvindo o que o fumo – onírico
espectral memoroso – tem hoje a contar-nos
tal como os outros amantes no zaping dos
telejornais: a diferença é só não termos
televisão.

O PRIMEIRO VOLUME DO DOM QUIXOTE

Algumas horas mais e entrará ela no
dia de aniversário sem que eu resolva
o negligenciado problema do corte
da mão que primeiro segurou o cutelo.
Posso mandar-lhe apenas uma mas embirro
com pares desirmanados: nunca esqueci
o despropósito que foi certa vez há
muitos anos um embrulho promissor trazer
um desoladíssimo volume do dom
Quixote – presente de uma prima que não
lê e por isso coitada sabia lá
quantos volumes tinha a história completa.
Título: American Scientist
Autor: António Gregório
Editor: Quasi Edições

do lado esquerdo

13 de Agosto - Dia Mundial do Canhoto

pensamento do dia

A lo único a lo que aspiro es a parecerme cada vez más a mí mismo.

David González

sábado, 11 de agosto de 2007

Philippe Katerine ~ Mort à la Poésie

Philippe Katerine ~ Mort à la Poésie

Je fais de ma vie un chef d'oeuvre
que l'on visite pour 100 francs tous les deux ou trois ans

j'écrase des insectes merveilleux sur des visages adolescents et absolument consentents

je marcherai nu sur le pont neuf le 7 avril de 2009

en criant "mort à la poésie"
"mort à la poésie"
je suis un homme libre

je fais de ma vie un chef d'oeuvre en buvant des alcools blancs dans des endroits très déguoutants

je nagerai jusqu'à Tunis le 7 avril de 2010

en criant "mort à la poésie ", "mort à la poésie " je suis un homme libre

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

legalização a preço de custo

Uma criança russa encontra-se entre a vida e a morte depois de ter caído de um quarto andar em Amiens, França, no momento em que a polícia, com a ajuda de um serralheiro, se preparava para entrar na sua casa e prender os seus pai e mãe, russos, com 33 e 29 anos de idade.

Este casal encontra-se em França desde 2003 e esgotou recentemente todas as possibilidades de legalização através de pedidos de asilo político. A polícia preparava-se para entrar no apartamento depois dos dois cidadãos russos terem falhado uma convocatória para se apresentarem junto dos Serviços de Emigração Franceses.

Segundo o RESF (Réseau Education Sans Frontiéres) têm-se intensificado nos últimos dias a perseguição a pais de alunos "sem-papéis" com vista à sua expulsão do país. Para Damien Nantes, activista ligado a esta organização "o que era, anteriormente, uma situação excepcional, passou a ser medida recorrente, mesmo antes que o processo administrativo esteja dado como terminado".

Fonte da informação: www.liberation.fr

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Publicidade no Futebol



O Sporting, SAD, já ganhou o Campeonato... da Publicidade. É com esta campanha. Simplesmente genial.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Tenho Qualquer Coisa de Árvore - Selecta de Poetas de Léon

Poetas presentes na Antologia: Antonio Gamoneda, José Luis Puerto, Gaspar Moisés Gómez, Juan Carlos Mestre, Tomás Sanchez Santiago, Ildefonso Rodríguez, Victor M. Díez, Silvia Zayas, Aldo Z. Sanz, Eloisa Otero, Miguel Suárez, Rubén Mielgo, Jorge Pascual. A Selecção é de Silvia Zayas e a traducção de Alberto Augusto Miranda

*

Cavalo Morto

Cavalo Morto é um lugar que existe num poema de Lêdo Ivo.
Um poema de Lêdo Ivo é um pirilampo que procura uma moeda perdida. Cada moeda perdida é uma andorinha de costas pousada sobre a luz de um pára-raios. Dentro de um pára-raios há um bulício de abelhas pré-históricas em redor de uma melancia. Em Cavalo Morto as melancias são mulheres semi-adormecidas que têm no meio do coração o barulho de um molho de chaves.

Cavalo Morto é um lugar que existe num poema de Lêdo Ivo.
O Lêdo Ivo é um homem velho que mora no Brasil e sai nas antologias com cara de louco. Em Cavalo Morto os loucos têm asas de mosca e voltam a guardar na sua caixa os fósforos queimados como se fossem palavras roçadas pelo esplendor doutro mundo. Outro mundo é o fundo dum copo, um lugar onde o recto tem forma de ferradura e há uma só tarde forrada com tecido de gabardina.

Cavalo Morto é um lugar que existe num poema de Lêdo Ivo.
Um lugar que existe num poema de Lêdo Ivo é um rio que madruga para ir fabricar a água das lágrimas, pequenas mentiras de chuva feridas por uma pua de acácia. Em Cavalo Morto os aviões atam com fitas de vapor o céu como se as nuvens fossem uma prenda de Natal e os felizes e os infelizes sobem directamente aos hipódromos eternos pela escadinha do anilhador de gaivotas.

Cavalo Morto é um lugar que existe num poema de Lêdo Ivo.
Um poema de Lêdo Ivo é o amante de um relógio de sol que abandona em pontas de pés as hospedarias da manhã seguinte. A manhã seguinte é o que iam dizer-se aqueles que nunca chegaram a encontrar-se, os que mesmo assim se amaram e saem de braço dado com a brisa do anoitecer a festejar o aniversário das árvores e escrevem partituras com a campainha das bicicletas.

Cavalo Morto é um lugar que existe num poema de Lêdo Ivo.
Lêdo Ivo é uma escola cheia de tentilhões e um timoneiro que canta no pratinho de leite. Lêdo Ivo é um enfermeiro que liga as ondas e acende com o seu beijo as lâmpadas dos barcos. Em
Cavalo Morto todas as coisas perfeitas pertencem a outro, como pertence a porca das estrelas de mar ao saqueador das cabeças sonâmbulas e o carteiro das rosas do domingo à coroazinha de luz das empregadas domésticas.

Cavalo Morto é um lugar que existe num poema de Lêdo Ivo.
Em Cavalo Morto quando morre um cavalo chama-se Lêdo Ivo para que o ressuscite, quando morre um evangelista chama-se Lêdo Ivo para que o ressuscite, quando morre o Lêdo Ivo chamam o alfaiate das borboletas para que o ressuscite. Acreditem-me, as recordações formosas são fugazes como os esquilos, cada amor que acaba é um cemitério de abraços e Cavalo Morto é um lugar que não existe.

Juan Carlos Mestre

*


Posições

Posição nº1: Habitar. Nada mais que habitar e habitar. Tudo branco. Todo o habitado tem uma distância indescritível. Vejo a distância da minha casa comigo e do mar com o seu próprio movimento. Fome e distância nos cacifos do lugar destinado às migrações. Tudo branco.

Posição nº2: Bulir. Vou encher o meu ventre de água, aquecê-lo e amamentá-lo como a um filho mínimo. Definições de solidão: O meu corpo tem hoje uma existência atroz. Corpo. Mais nada.

Posição nº3: Fazer de árvore. Caminhar com as mãos. Tapar os pés com um chapéu.

Posição nº4: Quartos de relógio desbocado. Fui a mulher sem benzer baixo a mansidão (15'), fui a mulher com o corpo coalhado de relógios (30'). Ponteiros no corpo (45'). Pausa. Passou o relojoeiro a pôr-me em hora (60'), e agora e na hora inteira da minha vida fingi estar adormecida. Definições de solidão: Taque taque taque incha-se o páramo, cresce dentro, alisa, aplana, filtra-se pelos pianos.

Posição nº5: Aumentar o número de patas para correr à frente do desencanto. Cinco. 5 patas para morder a aceleração.

Posição nº6: Deitada com uma tijela de barro com água a ferver em cima do umbigo. Definições de solidão: Em caso de urgência, ligue o cento e doze. Em caso de urgência poética, sobreviva.
[...]

Silvia Zayas

Título: Qualquer Coisa de Árvore
Autores: Vários Poetas de Léon
Editor: Intensidez