quarta-feira, 11 de julho de 2007

a ponte submersa - Manuel da Silva Ramos


CHAMEM A SUZANA

1.
Passaram-se seis meses.
Caio agora sobre os castanheiros de Treixedo. Sou outra vez
útil, concitante, tenho o condão de aparecer lá onde sou menos
esperada.
Um bando de melros ao ver-me passar enfiou-se para dentro
de uma mina de água em Papízio. Um cuco deixou de cantar num
carvalho postado numa curva antes da Póvoa de João de Dias.
Agora vou com ligeireza até à Rotunda da Adega.
Bato agora com força no telhado preto de uma casa de Santa
Comba Dão. Entre duas estradas velozes.
O homem pequeno e seco limpa de pé as unhas com a ponta de
um canivete numa cozinha que brilha.
Caio agora sobre o meticuloso quintal, sobre a meticulosa
horta onde as couves altas fazem figura de nobres pagens, sobre as
alfaces aprincesadas, sobre a misteriosa salsa, sobre o plástico implacavelmente
novo da estufa, sobre o conífero que olha o IP3,
sobre o buxo impecavelmente cortado, sobre o Santo António que
amosaicado na parede da casa expõe a criança maternal, sobre a
bruxa cuja vassoura contém indícios de um interesse passageiro,
sobre o fio de estender a roupa onde nunca vi as cuecas do homem
pequeno e seco ao lado das da mulher.
É o mês de Novembro. Catorze dias depois do dia de finados.
O resto do dia vai ser um dia espaldado.
O sacristão Pinto não pode tossir. Tem medo de cuspir a Virgem.
Cuidadosamente, com um lenço imaculadamente branco
que lhe metera a mulher no bolso limpa o rosto da Virgem porque
viu nela um grão de pó – trazido pelos ares de Oliveira do Hospital.
Agora é uma gota miraculosa que tombou não se sabe donde,
translúcida, pacata, ominosa.
E que pelos vistos vem anunciar o fim do mundo…
Sou eu.
Volto célere de Fátima à Rotunda da Catraia.
São sete horas e Suzana ainda dorme no seu quarto, no rés-do-
-chão da casa modesta situada ao lado da estrada local, a um nível
inferior, entre árvores.
Suzana sonha.
Está numa passerellecom o mais deslumbrante dos vestidos
feito pelo Karl Lagerfeld.
É um vestido todo cortado e desigual, com grandes decotes e
grandes aberturas laterais, faz lembrar a chuva. E é de um verde
a tirar a crosta…
Ela exibe agora o seu corpo bem feito dentro desta seda que
é para festas…
Vai de um lado para outro, pára, avança, regressa ao mesmo
sítio…
A luz intensa dos holofotes fá-la suar. Sente que todo o seu
corpo está húmido, explicativo. Até a sua bela vagina rodeada de
alguns pêlos loiros está húmida.
Está feliz. É a primeira vez que participa numa passagem de
modelos no estrangeiro.
Viu o anúncio na Internet, mandou a sua fotografia, o seu curriculum,
foi aprovada, mandaram-lhe o bilhete de avião.
E agora estava nessa cidade onde não sabia falar a língua, mas
todas as pessoas eram imensamente simpáticas com ela.
As luzes são cada vez mais cruas e ela agora despacha-se a ir de
um local para outro com as poses menos desbravadas.
Disseram-lhe que haveria muita gente, e na verdade ela ouve as
respirações e às vezes um pequeno gritinho de espanto.
As suas longas pernas têm uma segurança espectacular e são
verdadeiros postes de orientação do trânsito.
Adora as suas pernas. A beleza das mulheres começa e termina
nas pernas.
Quando era miúda, por causa das suas altas pernas, a mãe tratava-
a por «escadote». Se ela pudesse ver agora o sítio onde ela
chegou…
De repente todas as luzes se apagaram…
Ela ficou no escuro, indecisa. Havia uma falta de electricidade?
Ou era uma avaria de gosto? Ou uma ordem do costureiro para
condicionar os compradores hesitantes?
Mas rapidamente a luz voltou…
Então olhou para a plateia…
Não viu ninguém…
Estava sozinha numa grande passerelleluminosa e na assistência
os lugares completamente vazios sonhavam…
Suzana acordou e voltou-se para o outro lado.

2.
Gosto de visitar os lugares já visitados.
Volto às margens do Dão depois de ter passado pelas mimosas
da Póvoa de João Dias e por aquelas impetuosas que rodeiam a
antiga estação ferroviária de Treixedo.
A erva está amarelada, curta. O rio tornou-se mais caudaloso
e os grandes pedregulhos meio alagados informam agora que os
homens continuam a dormir mal…
É sempre a calma antes do espectáculo clandestino. Vivi em
tantos países no estrangeiro por engano! Agora quero assistir de
novo ao fracasso da vida humana: quem pede perdão, misericórdia,
nunca é ouvido…
A minha solidão acabou por me tornar rancorosa mas eu faço
o possível por ninguém saber.
Vim mais uma vez até aqui para me proteger. Preciso de muita
coragem para assistir ao massacre das horas com âncora profundíssima.
Sou responsável pela vida dos indesculpáveis que sonham.
Suzana continua a dormir.
Ela gosta de dormir e também sabe que dormindo ela conserva
a beleza.
O seu sonho agora é mais perigoso. Mais dúplice.
Ela voltou para Portugal e agora está numa cidade de província
onde há a particularidade de existir só a noite, o dia foi liofilizado
e exportado para países janotas. É pois natural que nesse lugar
especial só existam velhos. E esses velhos estão naturalmente reformados.
E passam o tempo à janela. Suzana acabou o seu dia de trabalho
num escritório de gestão imobiliária na cidade alta e desce
agora a calçada íngreme que a levará ao seu quarto modesto numa
pensão temporária onde ela espera por dias melhores. São velhos
desdentados, trocistas, patéticos, sérios, zangados, mofadores, sorridentes
e superidentes, acusativos, maledicentes, alquiladores e
traficantes de carnes mortas…
– Casa comigo?
– Se fosses viúva pedia-te em casamento!
– Tem pena deste velho!
– Ó altiva, anda só fazer-me um bacalhau!
– Não queres nada deste velho mas olha que a tua beleza um
dia também será velha!
– Há tantas por aí e eu não caço nada!
– Ó menina, tem aí um comprimido para a dor de cabeça?
– Com esta menina vou até Almodôvar!
– Não sei qual das duas é mais séria: a minha mãe ou esta estouvaidosa?
– Oriente e ocidente! Tudo uma cambada!
– Dava-te metade da minha reforma!
– Até morta!
– Ontem conheci o Trio Odemira! Hoje esta menina!
– Sua puta! Sua puta desmanchada!
Suzana acorda violentamente. Alguém lhe retém o braço. Uma
dor persiste…
Mas é o seu corpo enrodilhado…
O homem pequeno e seco poisou o canivete…
Foi à janela da cozinha e apreciou a estrada que passava diante
da sua porta.
Era por ali que devia vir a sua beldade…
O alcatrão serpenteava quando chegava à sua casa e conduzia
a um beco sem saída. Ora, era como uma grande gaiola onde
entravam os ratinhos à procura do queijo. Depois era só dar-lhes
uma mocada na cabeça.
Adorava a Suzana, os seus longos cabelos loiros, as suas longas
pernas de verdade, a maneira altiva de ela falar com as pessoas,
até nem parecia uma pobre, adorava vê-la de costas, de calças, com
um vestido às flores que ela tinha, só que ela andava metida com
um brasileiro da Congregação Cristã e com um moço novo que
era seu colega de turma na Escola de Gestão de Oliveira do Hospital,
e isso, ele não perdoava. Andava-se a comportar mal, e ainda
por cima os seus avós não sabiam, ela escondia tudo…
O alcatrão muito negro fez-lhe vir à ideia o tempo de guerra
que não tinha feito. Chegara essa porcaria do 25 de Abril e ele já
mobilizado para a Guiné. Gostaria de ter dado umas mocadas nos
pretos depois de lhes ter desferido mais umas balas no estômago
já imobilizado. Odiava pretos porque andavam com esse cheiro
esquisito atrás das raparigas. Não eram civilizados. Aliás nunca
vira nenhum preto a meter uma carta na caixa do correio…
Dissera pois à Suzana que a conduziria à central de camionagem
e que não dissesse nada a ninguém, principalmente aos avós,
que o falatório podia muito bem começar, já que ele era casado,
a mulher não gostava que ele desse boleias a ninguém…
Agora olhava a estrada e pensava no corpo da Suzana…
Curiosamente o emolduramento deixava-o frio, não estava
excitado, até podia mijar nas suas botas altas vermelhas que ficaria
de mármore. Só que mais tarde talvez se produzisse outra coisa…
Pensou no último filme que vira sozinho. Um homem, que
tinha uma estalagem solitária perto de uma estação de esqui,
escondia-se por baixo da cama e sufocava as suas clientes femininas
com as suas almofadas quando ele as sentia gemer de prazer
na masturbação solitária.

3.
A minha teimosia pode parecer ao leigo e ao escorreito a mais
tenebrosa das doenças saudáveis.
Nem aguadamente, nem pingadamente.
Eu só respeito a geografia. A insistência da água. Ao querer
rodear-nos, a água torna-nos escravos dela. A uns pescadores, a
outros assassinos.
Hoje sou a chuva geográfica que por tudo e por nada se quer
misturar com o passado. Com as águas passadas.
Venham comigo, uiaras!
Quantas vezes o espírito humano esteve rodeado de água e foi
feliz. Mas foi preciso vir o doutor de Santa Comba Dão para construir
barragens. Essa Pinça Catedrática destronou o espírito português
com barragens. Meteu na mente de cada português uma
barragem. Rapidamente o povo ficou estancado e partazana. Os mais
espertos tornaram-se ratazanas d’água.
Barragem da Aguieira, Barragem da Raiva (também chamada
do Coiço), Barragem do Paul–Santa Comba Dão está rodeada de
barragens.
O homem pequeno e seco no passado foi um pescador solitário.
De anzol e carro ao lado. Tornou-se assassino, teve tempo de
meditar, de ver lugares insondáveis onde esconder as suas vítimas.
Os seus pensamentos tornaram-se líquidos…
Um dia falarei da bacia hidrográfica do Mondego…
Por ora, vejo que a Suzana acordou e vai tomar um duche…
Esta belindíssima gosta muito de água.
*
Título: a ponte submersa
Autor: Manuel da Silva Ramos
Editor: Publicações Dom Quixote

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