sexta-feira, 13 de julho de 2007

O Poeta Nu - entrevista a Jorge de Sousa Braga

Por ocasião do lançamento das suas poesias completas na Assírio & Alvim com o título O Poeta Nu, entrevistamos Jorge de Sousa Braga, nascido em 1957 em Vila Verde, e que para além de intensa produção poética como criador e tradutor, é médico na cidade do Porto.

Pode-se falar, ao fazermos uma aproximação à poesia portuguesa dos anos 80/90, de um grupo de poetas, que para além de si incluiria João Luís Barreto Guimarães, Helder Moura Pereira, Daniel Pinto-Maia Rodrigues, para citar os exemplos mais óbvios, que praticam uma poesia apegada a um real quotidiano, bastante influenciada por leituras da poesia norte-americana do séc.XX. Houve em algum momento essa consciência de grupo?

Acho que não. Nunca houve uma consciência de grupo. São autores a meu ver com poéticas muito diferentes. Nem tão pouco eu me considero um poeta do real quotidiano, seja lá o que isso for. É óbvia a influência que alguns poetas americanos exerceram sobre mim (de Whitman em diante), influência essa contrabalançada por outra influência, a da poesia chinesa e particularmente a japonesa e a estética do haiku.

E porque é que essa poesia esteve arredada das aproximações críticas dos últimos anos? Falando no seu caso, acha-se um poeta demasiado fora da carruagem da poesia portuguesa?

São poucas as pessoas que fazem aproximações críticas e poucos os espaços. Na sua maioria são poetas e é natural que escrevam sobre poéticas com que se identificam ou raramente para fazer (o que é grave) proselitismo. Ou talvez o que escrevo não mereça atenção crítica. O que é importante é que os poemas façam o seu caminho e esse caminho é sempre o coração do leitor. Se algum dia entrei na carruagem da poesia portuguesa, como não gosto de andar de comboio, devo ter saído no primeiro apeadeiro.

O Jorge tem um sólido grupo de leitores que fizeram do livro O Poeta Nu, editado pela Fenda, um livro quase mítico. Entretanto, tem surgido mais associado a textos infantis e a trabalhos de tradução. Houve uma viragem na sua carreira de poeta? É uma evolução ou uma insistência na experimentação?

Penso que se publica de mais. Talvez eu próprio tenha publicado de mais. O que fica de um poeta (a não ser que seja um génio e mesmo os génios escrevem porcaria) são meia dúzia de poemas. Traduzo não só para conhecer outros poetas (e não há melhor forma de conhecer um poeta que traduzi-lo) mas também para “não escrever”. Em relação aos poemas infantis foram uma prenda para os meus dois filhos e é território onde não pretendo voltar.

Agora que completa 50 anos, volta a fazer uma revisitação ao seu trabalho poético. É o mercado (com livros esgotados e alguma ânsia de novidades) que o impõe ou há uma necessidade própria do criador que precisa de constantemente olhar para a obra que vai fazendo?

Este novo O Poeta Nu é uma reunião de todos os poemas publicados até agora, mais um livro de inéditos. Estava esgotado e como havia procura decidi reeditá-lo. O Manuel Rosa tornou isso possível. Não se trata de uma revisitação, porque raramente releio o que publiquei. Se houvesse um “mercado” para a poesia talvez fosse melhor deixarmos de escrever.

Quais são os poetas que o entusiasmam presentemente?

Os poetas que me entusiasmam presentemente são os que ando a ler. São poetas polacos. O Zbigniew Herbert entusiasmou-me tanto que traduzi setenta e tal poemas; ando entusiasmado também com o Adam Zagajevski e o Tadeusz Roseviczs.

Quais são os seus planos para o futuro?

Gostaria de escrever o “Novíssimo Testamento”.

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