terça-feira, 10 de julho de 2007

arte poética

Um dia olhei para um prato onde repousavam duas sardinhas assadas os seus últimos momentos de inteireza, antes de as abrir bem devagar com a lâmina da faca, separar o peixe das espinhas, e levar à boca, sobre um pedaço de pão, esse sabor salgado de mar que se reconhece ao desfazer-se na nossa língua – olhei e vi um poema.

Aquele prato, naquele início de tarde de verão, calor, suor a escorrer-me da testa, já o tinha visto algures num poema de Alexandre O’neill e o que senti foi, tão só, um inteiro reconhecimento do meu ser com a minha própria cultura – essa coisa que vai crescendo connosco e que, dizem, custa a tanto a sair de nós, não sai nunca, como o cheiro da sardinha assada nos dedos.

Demorei algum tempo a mastigar aquele peixe – eu que quase nunca demoro tempo a mastigar seja o que for – como quem finalmente vê a luz no corpo de Cristo da missa de domingo. Naquele prato, naquelas duas sardinhas assadas, estava um país inteiro que não é um pedaço de terreno desenhado num mapa, são milhões e milhões de pessoas durante séculos inteiros, filhos do casamento e bastardos, regados com o sangue que escorre das uvas.

Um dia olhei para um prato onde repousavam duas sardinhas assadas – estava pousado na mesma mesa onde tinham ficado os poemas completos do O’neill, porque cá em casa é assim, as mesas servem sempre para muitas coisas ao mesmo tempo, como no meu país, onde ninguém é responsável por menos do que uma dezena de coisas, ou por sermos poucos, ou por vivermos no medo de morrer um dia e haver quem nos cole uma função desprestigiante debaixo do nome completo.





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