quarta-feira, 25 de julho de 2007

Ardem as trevas e outros lugares - Helena Carvalhão Buescu



ARTE POÉTICA

Sei bem que há anjos que gritam
e outros que permanecem mudos,
como se fosse possível sangrar
sem humano o coração.
E Quem, se eu gritar...

*

Quantas imagens de sombras e luzes
crescem no passo que atiramos ao tempo,
e com tristeza avançam entre as pálpebras
que fechamos
sobre as coisas, inamovíveis e restantes?
Temos vindo a ser (observas, percebo que hesitando)
o que pouco a pouco cada boca, cada gesto
em nós foi pondo, acrescentando: imensa ponte
em que tremendo fraquejámos: um chão manso, um louco
desafio.
Se as coisas têm, como dizem (acrescentas),
olhos e, sendo negros,
neles se torna fácil encontrar
a perda do antes dito,
de tal presença depois nos levantemos.
O fogo é da noite que quebra o corpo e o atira
ao infinito, e o lume que o atiça dos traços humanos
se desenha e bebe. Queremos violenta a noite.

*

Fora do mar tomba a noite de nós,
inquieta: é do desenho dela
que hoje traçamos, aqui, as linhas fugitivas.
Demos alguns nomes que nos damos,
mesmo sabendo que as águias também morrem,
como se desses nomes pudesse vir, tranquila,
a morte ou a memória: nenhuma nos espera.

*

O que vêem os teus olhos quando
distinguimos os trigos das marés?
Deitados, lado a lado te é cedo ou tarde recordar,
como os rios que correm sob a pele,
pulsando agrestes entre os dedos.
Atravessamos as horas, na temível espera:
instante em que a palavra ázima ao transitório tempo
diz o nome da pedra.
O que vêem os teus olhos quando
sem se moverem ardem as trevas?
De tudo isso consente que digamos
as sílabas igualmente rápidas –
e o que pintamos na pedra acesa
vê: sombra ou incenso.

*

Quem foi esse que o dia dispôs
antes de tudo, antes do mais,
na lembrança de descer sobre o meu rosto:
triste como o esmagar do impossível vento,
feliz como arado à noite reservado?
Quem foi esse cuja mão é de manhã,
que recebeu a coisa demolida e ali cai,
e assim se mostrando tão só,
tão tangível, tão disperso?
Quem foi esse de cuja pena fomos,
espreitando as sombras da palavra branca
com que se dizia ser matéria extinta?
E de quem pouco a pouco houvemos
um nome e um destino,
como se uma terra natural nos estivesse
desde sempre reservada,
de onde fosse vão sentir saudade?
Não sei, canção, não sei: mas mais iríamos sendo
se da inteira vida não julgássemos prover
dos dias e das noites, e do coração.
Tivesse pedra esse destino,
tivesse rosto o humano gesto
e nestes dias que hoje chegam
rumores e outras aves teriam feito da crescente casa

*

talvez miséria, quem sabe,
ou mágoa grande, mas certamente o gesto esmagando-se,
esse gesto que corto
ao acorrer-me a morte.
Faltam ao ar os sons que sobre nós deslizam.
Então traçamos linhas, juntamos passos, acrescentamos os
sinais,
à espera de que de tudo isto
cada um possa aprender como junto à nossa sombra cresce
a erva,
não por dentro, mas duro golpe.
Ninguém fala de termos olhos capazes,
rectos sobre a terra, sem mentir.
Ninguém fala de dissolvermos os enigmas apenas
para desdobrarmos, no fundo deles, os poemas
que os fazem iluminar.
Do alto do que pudermos olhar, e por outro lado:
quando a altura for de linho,
levemente roçaremos a miséria. Foi de outro modo, antes?
Seremos pássaro entre nós, o que
desaprendeu de andar, e de asas roucas.


Título: Ardem as trevas e outros lugares

Autor: Helena Carvalhão Buescu

Editor: Campo das Letras

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