segunda-feira, 4 de junho de 2007

tiananmen

a teoria do fim da história levou-nos, nas últimas décadas, a conviver mal com as relações que se estabelecem entre filosofia e prática. as coisas são sempre colocadas de uma forma a atribuir culpas a alguém. assim, parece que qualquer comunista se deveria sentir culpado por determinados acontecimentos, como se estivesse no código genético da filosofia comunista agredir, prender, torturar pessoas. não está. há uma separação muito grande entre o comunismo e os regimes comunistas - tal como outras filosofias que prometem o paraíso (seja na terra, seja no céu), o caminho para chegar até aí é sempre uma via dolorosa onde, pelo que me é dado a perceber, só os que não acreditam nem um pouco nesse paraíso conseguirão lá chegar - como se recebesse um prémio pelo tanto que se sofreu por uma causa na qual não se acredita. fizeram de nós marionetas num jogo de poder que não pedimos - porque acreditar numa filosofia será sempre, pelo menos para mim, uma forma de recusa do poder, porque se reconhece a falibilidade daquilo em que se acredita. só quando se acredita em regimes, em regras, em disciplinas, se pode fechar os olhos - quem lê filosofias, vê o mundo tal como ele é, inteiro e pleno de defeitos.

é por isso que eu recordo e repudio com igual mágoa todas as atrocidades que foram praticadas por qualquer regime do mundo - tenha crescido ao som da esquerda ou da direita, tenha alinhado pelo culto de um líder ou creditado a sua revolução com a marca do povo. nada nunca justificou a prática da eliminação de seres humanos para alcançar poder - nada nunca o poderá justificar. recordar um acontecimento como tiananmen é uma obrigação de todos, tal como será obrigação de cada um de nós, por muito pequena que seja a nossa capacidade para o fazer, darmo-nos por inteiro para que nada disto se volte a repetir.

2 comentários:

  1. (...)nada nunca justificou a prática da eliminação de seres humanos para alcançar poder - nada nunca o poderá justificar(...)

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