quarta-feira, 6 de junho de 2007

Quando não souberes copia - Fernando Tordo





A rima bateu-me na cabeça.
Foi tal o eco
que a única palavra que me ocorre é
caneco,
até que o som se dilua
e no quadro onde pintei um gato (no canto superior direito)
nasça a lua.


-*-


dizia que o país lhe doía
em que osso?
em que músculo?
em que sangue tinha ele o país que lhe doía?
dizia que o país lhe fugia
por qual estrada?
a que horas?
por qual cruzamento?
dizia que o país lhe morria
porque fugia do que lhe doía
matando-o por dentro.


-*-


Lurdes Nogueira, fadista louca, faz as camas de dois filhos
que tem de um guitarrista,
mais outra da filha de um chulo que não toca nada.
Dorme pouco, a Lurdes Nogueira.
Os fados que canta são dores da madrugada
quatro ou cinco da manhã
e ainda canta para menos gente do que os seis fados
doloridos
que ela dorme e já não sabe
à espera que as avinhadas poucas mãos se choquem
até parecer que são aplausos despertando a Lurdes Nogueira
para as três camas
que vai fazer daqui a pouco
as três camas dos filhos do cansaço.
O guitarrista pai dos filhos ainda toca para ela cordas
quebradas.
Do chulo, nada a dizer nunca se falaram.
A Lurdes Nogueira faz as três camas sozinha
há muito tempo
vive sozinha e os filhos também nunca ouviram a mãe cantar
nem sequer lhe pediram
ela enjeitaria.
A voz da Lurdes Nogueira é para os filhos o som passado
de um grito oco escondido na infância e no colo
tão poucas vezes
sem leite, sem descanso, sem vida.
Lurdes Nogueira, fadista louca.
Chamam-lhe assim não se sabe porquê
ou apenas porque o canto da Lurdes Nogueira não tenha
letra
apenas tenha medo
apenas tenha silêncio e nada
apenas tenha a voz que os filhos não sabem
e que é a voz da mãe da noite.

Título: Quando não souberes copia
Autor: Fernando Tordo
Editor: Campo das Letras

2 comentários:

  1. Esta' muito bom e muito certo!
    Beijo

    Angela

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  2. Só quem embala no peito
    Dores amargas e secretas
    É que em noites de luar
    Pode entender os poetas

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