sábado, 23 de junho de 2007

O Poeta Nu - Jorge Sousa Braga



CARTA DE AMOR


A Eugénio de Andrade


Um dia destes
vou-te matar
Uma manhã qualquer em que estejas (como de costume)
a medir o tesão das flores
ali no Jardim de S. Lázaro
um tiro de pistola e…
Não te vou dar tempo sequer de me fixares o rosto
Podes invocar Safo, Cavafy ou S. João da Cruz
todos os poetas celestiais
que ninguém te virá acudir
Comprometidos definitivamente os teus planos de eternidade
Adeus pois mares de Setembro e dunas de Fão
Um dia destes vou-te matar…
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração


*


ADORMECER DO LADO DA PRIMAVERA


Adormecer num colchão de molas do lado da primavera
e acordar do lado do verão
Atirar-se da janela de um quinquagésimo andar
e aterrar intacto na folha de um nenúfar
Passar a cem à hora todos os sinais vermelhos
e estacar repentinamente no primeiro sinal verde
Engolir um Mirage e vomitar em seguida
dois milhões de pássaros pela boca
Fornicar sucessivamente com um elefante-fêmea
uma galinha-da-índia um colibri e uma borboleta
Destruir a pontapé todas as palavras do dicionário
até chegar à palavra chumbo
Estender a língua vermelha na pista do aeroporto
para servir de tapete a uma estrela de Hollywood
Cortar os braços a todos os prisioneiros e gritar «mãos no ar»
antes de os passar pelas armas
Derrotar todos os exércitos do nascente
e sucumbir ao ser atacado pelas costas por uma folha do outono
Comer à sobremesa apenas maçãs marca Cézanne
Assistir ao próprio enterro ao volante de um BMW cor de cinza
e chorar lágrimas verdadeiras
Descobrir uma caravela naufragada há quinhentos anos no fundo dos
teus olhos
e conseguir trazer para a superfície duas estátuas de Buda além de uma
tonelada de pimenta e outra de cravo
Passar cinco anos na solidão de uma cidade de dez milhões de
habitantes
e experimentar depois o bulício das Penhas Doiradas
Entrar num supermercado e plantar um limoeiro na secção das
vitaminas
Recuar alguns séculos no tempo
para apanhar nas mãos a cabeça de Maria Antonieta
Lavar as mãos em sangue antes de assinar o tratado de paz


**


CASULO


Eu não cresci à sombra de uma amoreira. E nunca brinquei com
bichos da seda.
No entanto, talvez eu não seja outra coisa senão um bicho da seda.
Condenado — como ele — a nunca me tornar numa crisálida.


**


EPÍLOGO


Estas páginas foram escritas a caminhar sobre a água, e só assim se podem
ler. Não procurei nada, não retive nada. Limitei-me a acusar o
choque — brutal, por vezes — de um grão de pólen ou de uma brisa
inesperada.


Não conheço outro ritmo que não seja o das estações. Outra música
que não a das gotas de chuva nos limoeiros. Outra fuga que não a de
um pássaro assustado com a sua própria sombra.


No fundo, o que me recuso a acreditar é que estejamos condenados.
Apesar dos prados envenenados, da lenta agonia dos rios e do mar. Da
atmosfera cada vez mais carregada das cidades. Contanto que a poesia
seja — continue a ser —


um lugar
onde ainda se pode
respirar


**


PORTO DE ABRIGO


É esta a cidade que o destino
te reservou. Uma cidade de


gente dura cuja maior
extravagância é um vaso


de sardinheiras na janela
de um ou outro edifício


Tinhas sonhado com uma
cidade branca mais a sul…


Esta cidade não é uma cidade
é um vício


**


VAN GOGH POR VAN GOGH


Gostaria de ter sido um girassol. Um girassol hirto no seu caule, de
longas folhas verdes desajeitadas e uma enorme corola doirada, seguindo
cegamente o sol.
Estou só e a minha cabeça explode em milhões de girassóis.


**


A REVOLUÇÃO DAS FLORES


Correspondendo a um apelo subterrâneo há vários dias que as dálias,
as cinerárias, os gerânios e as hortências se recusam a florirem e
os jasmineiros e as violetas a exalarem o seu aroma penetrante. De
entre as rosas foram as vermelhas as primeiras a aderir. Comités de
flores que se formaram espontaneamente em todos os jardins reivindicam
o direito de florir em qualquer estação do ano, medidas eficazes
contra as arbitrariedades das floristas, a extinção pura e simples
das estufas.


Uma nuvem de pó cobre a cidade. Em vão a polícia controla os portos
e as fronteiras. A exportação de bolbos e sementes foi suspensa
entretanto. Na Madeira o movimento foi desencadeado pelas estrelícias.
Tulipas que viajavam de avião e se destinavam a abastecer o
mercado londrino murcharam colectivamente. No Extremo Oriente,
crisântemos negros invadem as ruas de cidades como Tóquio e
Pequim. Apanhadas desprevenidas as borboletas, abelhas, vespas e
outros insectos ensaiam agora perigosos voos sobre os transeuntes.
Às dezasseis horas numa conferência de imprensa realizada no Jardim
de S. Lázaro, um grupo não identificado de flores, mas entre
as quais se podia reconhecer alguns amores-perfeitos, proclamou o
estado de felicidade permanente nos jardins.

Título: O Poeta Nu
Autor: Jorge Sousa Braga
Editor: Assírio & Alvim

2 comentários:

  1. é lindo, tenho todos os seus livros, infantis e tudo! Gostava muito de, se algum dia for grande, ser como ele!

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  2. foi o primeiro livro que li dele, mas numa edição da Fenda, e adorei

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