segunda-feira, 18 de junho de 2007

Entrevista a Paulo Bandeira Faria

Numa interessante troca de e-mails, tive a oportunidade de entrevistar Paulo Bandeira Faria, autor do livro As Sete Estradinhas de Catete (imagem da capa), que foi recenseado neste mesmo blogue. O que guiou a entrevista foi a minha curiosidade pelos antecedentes literários deste autor, o que já leu, o que já escreveu e como encara estes dois processos. O resultado é esta entrada no universo particular do Paulo Bandeira Faria que, para além de me saciar a curiosidade, me deixou com imensa vontade de lhe conhecer mais trabalhos.

Olá Paulo, queria começar pelos teus antecedentes literários. Chegas ao panorama literário português, e logo és recebido com destaque, pela temática do teu livro estar inserida naquilo que se poderá chamar, lato senso, literatura pós-colonial, e pela qualidade formal que atinges logo neste primeiro romance. O que ficou por trás que não seja conhecido do grande público? O que escreveste antes de chegar aqui?

Antes chegar ao romance As sete estradinhas de Catete, comecei, como muitos autores, pelos poemas e contos. Há uns anos escrevinhei algo de mais fôlego, uma novela cuja acção decorria na Turquia, denominada Zelve (um treino, simplesmente, que não merece publicação).
Depois, fui pensando noutras novelas, uma delas situada na Amazónia, outra na Índia, outra de novo na Turquia. Mas como a coisa nunca passava para além de um tratado de boas intenções, forçosamente chegaria o dia em que me aborreceria comigo próprio e com tanto diletantismo (no qual também incluo, como sabes, o meu interesse pela pintura). Foi em 1999 que decidi escrever, a sério, um romance. Dessa decisão redundou A escada invertida, texto que, este sim, merece ver, um destes anos, a luz do dia. O problema é que, ao terminá-lo, percebi que dificilmente conseguiria quem mo publicasse, e logo eu, um perfeito desconhecido que vivia algures atrás do sol-posto! Isto é: como diabo ia abrir portas com um texto, de umas 400 páginas, cuja acção se situa no Peru e que, em grande medida, nasce do meu interesse pela Divina Comédia?
Foi então que decidi escrever outro romance, As sete estradinhas de Catete, mas situando agora a acção num espaço com o qual os leitores portugueses se identificassem mais. Também queria passar página desse meu passado africano, ficcionando a partir do que lá vivi. E abordar o final do nosso mundo colonial através dum olhar inesperado, o da criança, procurando atenuar a dureza do relato com o humor e ingenuidade de Guilherme. O romance peruano carece dessa ternura, é mais cerebral, e mais duro. Contudo, já nele procurei que a acção fosse em crescendo e que as últimas vinte ou trinta páginas contivessem o máximo de tensão possível.
Outra similitude, segundo uma amiga que leu ambos, é que ambos são corais, diz. Creio que se refere ao facto de que procuro que uma multiplicidade de personagens, sempre que possível contraditórias (evitando a caricatura, a personagem plana, o tipo), sejam quem mais dá a perspectiva da história, para mais porque me agradam os narradores pouco (e, se possível, nada) opinativos. Os personagens principais destes dois romances (Guilherme e Gabriel) acabam por ser, apesar da sua fragilidade, mas graças à sua teimosia, os agentes principais da história. Contudo, vão a reboque dos acontecimentos e são muitos dos outros personagens que os fazem agir e dão perspectiva ao que eles vêem, mas não entendem.
Enfim, termino dizendo-te quanto me agrada, como sabes, que a clareza do discurso não tire eficácia à mensagem. Se a obra se torna complexa, deve-se a situações que, pelo seu carácter intrinsecamente incomum, causam estranheza e dificuldade de compreensão ao leitor (refiro-me ao texto peruano). Contudo, nos contos, costumo ser mais arrojado formalmente, em grande medida porque, tal como nos poemas, os escrevo de jacto. Aí há similitudes com o estilo expressionista dos meus quadros. Neles trabalho sob impulso. O romance, sabe-lo bem, é totalmente diferente.

Quais os livros que lês?

Sou omnilivro, leio tudo o que me passe à frente e cuja temática me interesse. Sempre o fiz, pelo que as minhas leituras poderiam até parecer um tanto caóticas. À laia de exemplo, talvez esclarecedor, dir-te-ei o nome de alguns livros (que não de ficção) que mais gostei de ler nos últimos tempos. Foram: Deuses, túmulos e sábios - Um romance de arqueologia, de C. W. Ceram, um esplêndido livro de 1956, ou Na pista dos animais desconhecidos, de Bernard Heuvelmans, também dos anos 50, ou A minha alma deixo-a ao diabo, história real ocorrida na Amazónia, narrada pelo colombiano Germán Castro Caycedo, etc. E a listagem dos que tenho empilhados para ler, ocuparia aqui umas boas páginas. O problema é, como sabes, a falta de tempo, para mais porque tenho filhos pequenos.
As minhas leituras, como já to disse, sempre foram diversificadas. Nelas incluo a banda desenhada,com autores soberbos que vão de Hugo Pratt (imagem de uma ilustração), Bilal e Comés, a Loustal, Schuiten e Peeters ou Bourgeon; e cada vez mais a pintura, sobretudo pintores que me agradam sobremaneira, como Kokoschka (imagem de Auto-Retrato em baixo), Rouault, Millares ou Francisco Farreras.
Quando começo a pensar num romance, as minhas leituras, apesar de ecléticas, tornam-se mais direccionadas. Por exemplo, ao preparar A escada invertida, o romance peruano, li guias (um deles, da Trotamundos, escrito por Javier Sanz, é excelente), poesia chilena e peruana, de novo A divina comédia, reli romances como Rufam tambores por Rancas, do malogrado Manuel Scorza, etc. E antes de começar As sete estradinhas de Catete, li estudiosos da época colonial e pós-colonial (Eduardo dos Santos, José Redinha, Rodrigues de Areia), reli escritores como Castro Soromenho e Luandino Vieira, e alguns textos de viagens em África, como os de Javier Reverte. Se a seguir, como pretendo, escrever sobre o mundo muçulmano, pois será a vez do Corão, escritores turcos e iranianos, por exemplo, e guias, e o que mais vier a talho de foice.

Terás certamente autores que te marcaram ao longo da vida, bem como autores que te tenham surpreendido ultimamente. Quem são eles?

No que diz respeito à poesia, são tanto os autores que não saberia dar-te uma lista completa. Houve, até hoje, muitos poemas que me emocionaram. Mas se tivesse que dar-te um nome, quase ao acaso, dir-te-ia, por exemplo, o de Ruy Belo. E um longo etc.
Em relação aos contos, tenho duas referências primordiais: Borges e Tchekov. E uma surpresa, mais ou menos recente, a de A planície em chamas, de Rulfo.
Por fim, no que diz respeito à novela e ao romance, mais que autores, gostaria de referir livros que me impressionaram vivamente, e isto desde a adolescência. Livros que, cada vez que os releio, é como se me sentisse um pouco em casa. Como quando regressas a um lugar no qual identificas antigas descobertas, momentos que não desejas perder. Neste grupo de livros, quase íntimos, referiria, por exemplo, Os Maias e Madame Bovary. Outros que me agradaram muito foram, numa abordagem absolutamente anárquica, A selva, O ano da morte de Ricardo Reis, O estrangeiro, Lolita, A metamorfose, Cem anos de solidão, O retrato de Dorian Gray e um longuíssimo etc.
Em síntese: tentei aprender com os clássicos, mas talvez tenha sido um bocado marcado pelos existencialistas e autores sul-americanos associados ao realismo fantástico, não sei. Mas as minhas referências primordiais, repito, continuam a ser Borges (na foto) e Tchekov.

No que diz respeito a leituras recentes, li, ou estou a ler, Maria Fasce, António Cabrita, Francisco Camacho e Francisco José Viegas. Também vou reler Pedro Paramo, que agora foi traduzido por Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues. E ando também à procura de livros de poesia de Rosário Pedreira e Luís Filipe Cristóvão.

E que género literário merece mais os teus favores?

A narrativa, sempre que o tempo livre mo permite; e a lírica, sempre que a emoção mo permite.
Mas, especificando. Gosto muito de contos e procurarei também escrever novelas. Os romances, apesar do esforço que implicam (devido à sua dimensão, número de personagens, etc), agradam-me bastante. Exigem uma meticulosa organização, mas o exercício de descoberta (quiçá mais que de criação) do texto e do devir dos próprios personagens é algo que nunca deixará de me surpreender. Pela sua dimensão, os romances permitem algo que me agrada muito: a possibilidade de ver crescer os personagens, vê-los mudar devido às contingências da sua vida e às peripécias da acção. Agrada-me cerzir pontas, isto é, ver o romance como (por exemplo) um tapete oriental, com organização na cor, nos temas, nos símbolos. Sabes que, uma vez, nos confins da Anatólia, junto à Geórgia (que então ainda fazia parte da União Soviética), aonde fui para visitar uma cidade perdida chamada Ani, um curdo contou-me a história de uma rapariga que teceu um tapete durante meses e, ao final, atou as franjas para dizer que se queria casar. Os pais não a deixaram com quem desejava e a jovem suicidou-se. Eu olhei o tapete como se nele visse guardada uma alma, entendes? Isso procuro num romance: a sua alma. Um poema, um conto, são uma centelha. Um romance é distinto.
Contudo, e para finalizar, dir-te-ei que continuarei a integrar elementos poéticos no narrativos, cada vez mais. Nos meus livros de contos, a poesia é já um elemento preponderante. Creio que nunca abandonarei esses dois registos, porque me são fundamentais.
Obrigado, Paulo, espero que tenhas todo o sucesso que mereces.

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