sábado, 23 de junho de 2007

Da utilidade da poesia

No início do mês de Julho, será publicada pela Assírio & Alvim toda a poesia de Jorge Sousa Braga. Aos seus textos daremos a devida atenção, com direito a pré-publicação. Por enquanto, e aproveitando a ocasião, recupero um texto sobre a utilidade da poesia, escrito por mim há já uns anos.

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Em IV.9.68, Wittgenstein disserta sobre a forma como usamos a poesia. Para o fazer recorre a exemplos como o da comparação do efeito de dois poemas que versam o mesmo tema dizendo “leia um ou outro, têm o mesmo efeito”. Da mesma forma, recorre à música para efectuar igual exercício. O que se trata neste ensaio é de verificar como o exemplo dado é intencionalmente falacioso e averiguar o que resultaria duma situação em que o mesmo fosse verdadeiro.
Para clarificar os problemas colocados pelo exemplo de Wittgenstein, apresento dois poemas que me lembram a morte: “O Enforcado” de Alexandre O’Neill e “(sem título)” de Jorge de Sousa Braga.

O Enforcado

No gesto suspensivo de um sobreiro,
o enforcado.

Badalo que ninguém ouve,
espantalho que ninguém vê,
suas botas recusam o chão que o rejeitou.

Dele sobra o cajado. [O’Neill]

(sem título)
Não foi enxofre que caiu sobre Sodoma, mas pólen.
Haverá alguma cidade que resista a uma tempestade
de pólen? [Braga]

O primeiro problema que se coloca é como medir o efeito. Temos dois poemas, os quais me fazem lembrar da morte, mas não conseguimos definir o que há de parecido entre ambos. Poderíamos tentar encontrar palavras, presentes nos dois poemas, que funcionassem como estímulos de lembrança da morte. Mas não existem. Poderíamos procurar na sua forma, no ano em que foram escritos, nas características de cada autor. O facto é que em nada encontramos uma possibilidade de medida que nos permita prever um efeito e nos leve a afirmar “leia o outro, tem o mesmo efeito”.
Em poesia, e em outras questões de arte, não nos é permitido derivar prescrições. Não utilizamos o “correcto”/”incorrecto” perante um poema. Não estamos perante algo que seja passível de analisar como conforme a regras, nem catalogamos a poesia pela capacidade de obter dela associações. “Como usamos a poesia?”, pergunta Wittgenstein, não a utilizamos para obter associações. Mas podemos compará-la?
Podemos compará-la na medida subjectiva de que ambos os poemas me fazem lembrar da morte, como ao Prof. Tamen um lhe fará lembrar a morte e outro uma composição de Bach. Não podemos esperar que noutras pessoas o efeito dos poemas seja o mesmo. Temos um modo de comparar mas não temos um modo científico. Não é para isso que lemos poesia. Aí está a falácia do exemplo, intencionalmente demonstrada pelo próprio discurso de Wittgenstein.
Numa situação em que este exemplo fosse verdadeiro observaríamos o inverso do que até aqui foi considerado. Ou seja, o efeito dos poemas seria mensurável, fosse pelas palavras, pelas formas ou pelas características dos autores. Seria possível afirmar “leia este ou o outro, têm o mesmo efeito”. Eu, querendo fazer com que o Prof. Tamen se lembrasse da morte, mostrar-lhe-ia um ou outro poema e ele, instantaneamente, lembrar-se-ia da morte. Seria ainda possível utilizar as noções de “correcto”/”incorrecto” perante um poema pois passaria a estar passível de ser analisado conforme a regras que gerissem os poemas. Leríamos os poemas para obter associações, como não o fazemos agora.
Nesta situação poderíamos falar de um modo científico de usar a poesia. E, extrapolando o exemplo, poderíamos observar a estética como uma ciência. Seria possível prever situações e definir regras estéticas que serviriam para qualquer situação. Viveríamos num mundo onde se comprariam manuais de estética em lojas dos trezentos para brilhar nas discussões literárias do chá das cinco.
Concluindo, não há um modo científico e objectivo de analisar as questões de poesia. Não é para isso que lemos poesia. No seu jeito de defesa central que bate “com fé, esperança e sem caridade”, Wittgenstein afasta a possibilidade de previsões nas questões de arte. Num mundo paralelo ao do exemplo do filósofo austríaco, professores de Faculdades de Letras de todo o mundo procuram um modo científico de resolver as suas querelas. Sem resultados aparentes. Eu uso a poesia porque continuo a perguntar-me se “haverá alguma cidade que resista a uma tempestade de pólen”.

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