quarta-feira, 20 de junho de 2007

Da sombra que somos - Maria Sofia Magalhães



Dou-te as palavras
como quem se despe
secreta e completamente.
Fico nua e solitária
toda a alma descoberta
no papel
e nos teus olhos
a imperfeição da minha pele.
O poema como espelho
deste medo
que me vejas
só, nas tuas mãos.


*


Dia a dia nascemos
velhos
o brilho do início
desvanecemos
por saber que vivemos
entre muros
que só nós
conhecemos.

Esmorecemos
dia a dia
sem perceber
que o último acto
para morrer
é viver.


*


Somos feitos de partículas
infinitamente invisíveis.
De átomos proteínas
que se vão desnaturando.

Espero das células a dignidade.
Que ao chegar o instante final
se destruam pacificamente
e regressem ao estado puro,
que incessantemente procuro
enquanto ser uno e perecível.



Título: Da sombra que somos
Autor: Maria Sofia Magalhães
Editora: Deriva

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