sábado, 30 de junho de 2007

a modernidade

Mas não, a sério, a modernidade... Já é suficientemente mau ter de suportar o presente, não há necessidade de o encorajar!

Philippe Delerm, Mister Mouse ou a Metafísica do Terreiro (no prelo)

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Nenhuma Palavra nos Salva - Rute Mota


Dizem que falo baixo
― eu não sei:
faço o que posso
para tornar mais próximo o desejo
de fazer silencioso o mundo
por que passo.

*

Disfarça:
discutamos a essência da vida
a origem do universo e outras inutilidades
que tais ― qualquer coisa serve
desde que não o óbvio do silêncio.

*

Não é poesia isto que faço
tão-só corda que entreteço
e agarro
― para não cair do mundo.

*

Parábola:
é mais fácil às pedras
terem seu lugar no mundo
do que aos corações
duas mãos onde assentar.

Título: Nenhuma Palavra nos Salva
Autor: Rute Mota
Editor: Livrododia

a poesia é como uma sexta-feira

a poesia é como uma sexta-feira, nas ruas onde os miúdos passavam
a caminho da escola. uma sexta-feira de verão, onde todos foram de férias.

a poesia é como um café tomado bem devagar num lugar fresco
e três homens sentados falando sobre futebol enquanto folheiam jornais.

a poesia, a poesia é uma cara conhecida que nos chama de dentro de um carro
e nos aperta a mão e nos fala pergunta sobre algumas coisas que sabemos.

a poesia é como uma sexta-feira, esta sexta-feira mesmo, a de hoje,
quente e ventosa e inútil, com algum silêncio pelo meio dos sobressaltos.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

cá vamos, cantando e rindo

A directora do Centro de Saúde de Vieira do Minho, Maria Celeste Cardoso, foi exonerada pelo ministro da Saúde por não ter retirado do centro um cartaz que apresentava declarações de Correia de Campos "em termos jocosos".
O despacho de exoneração de Maria Celeste Vilela Fernandes Cardoso foi publicado hoje em Diário da República.Segundo a agência Lusa, alguns deputados socialistas manifestaram-se "incomodados com a situação".


in Jornal Público - onde pode ler o resto da notícia.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Adriana Falcão - A Entrevista

Adriana Falcão nasceu no Rio de Janeiro. O seu primeiro livro para o público infantil, Mania de Explicação, teve duas indicações para o Prémio Jabuti/2001 e recebeu o Prémio Ofélia Fontes — O Melhor para a Criança/2001, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Em 2002, publicou Luna Clara & Apolo Onze (publicado pela Ambar em 2006), o seu primeiro romance juvenil. O seu romance A Máquina foi levado ao palco por João Falcão. Na televisão, Adriana colaborou em vários episódios de A Comédia da Vida Privada, Brasil Legal e A grande família, todos da Rede Globo. Adaptou, com Guel Arraes, O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, para a TV, posteriormente levado ao cinema. Outros livros da escritora: Pequeno dicionário de palavras ao vento (2003); A tampa do céu (2005)-ilustrações de Ivan Zigg e, em conjunto com outros escritores, Histórias dos tempos de escola: Memória e aprendizado (2002); Contos de estimação (2003); A comédia dos anjos (2004); PS Beijei (2004); Contos de escola (2005); O Zodíaco – Doze signos, doze histórias (2005); Tarja preta (2005).

No Brasil, a Adriana é uma reconhecida argumentista para televisão e cinema e tem já uma longa lista de títulos para públicos variados - infantil, juvenil, adultos. Em Portugal, foi dada a conhecer através do romance juvenil Luna Clara e Apolo Onze, que nos foi apresentado como um livro influenciado pela História do Gato Malhado e a Andorinha Sinhá de Jorge Amado. O Nobel brasileiro é uma influência da tua escrita? E que outros autores te marcaram ao longo da tua vida de leitora?

Infelizmente não li História do Gato Malhado e a Andorinha Sinhá. Aqui no Brasil, Jorge Amado foi um escritor tão popular que nos rendeu grandes filmes e novelas de TV. Esse foi o meu primeiro contacto com a sua obra, ainda menina. Depois comecei a lê-lo e me apaixonei por Capitães de Areia, uma beleza de livro. Os autores que mais me marcaram: Machado de Assis, Guimarães Rosa, Saramago, Ítalo Calvino, Borges, Cortázar e Gabriel Garcia Márquez. Uma geração de cronistas brasileiros da década de 60: Antonio Maria, Rubem Braga, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos (este último é uma inspiração constante). E eu sempre digo que minha vida mudou depois que li O Estrangeiro de Camus, e descobri Fernando Pessoa. Talvez Pessoa seja o autor que conheço mais profundamente, de tanto voltar aos seus livros. No caso específico de Luna Clara e Apolo Onze minha maior influência, creio, foi Garcia Márquez. Ao começar a escrever o livro, pensei assim: "vou tentar fazer realismo mágico para jovens." Não sei se consegui. Mas adoro literatura fantástica.

O primeiro livro que lançaste era uma história infantil. Mas julgo que antes, já trabalhavas para a televisão. Como se deu essa entrada no mundo do audiovisual?

Estranhamente, tudo aconteceu ao contrário. Em 1999, eu escrevia para a série Comédia da vida privada, da TV Globo. Neste mundo audiovisual, sou apaixonada por diálogos. Então, os actores começaram a me procurar para fazer projectos deles, em geral, peças de teatro. Ao tentar escrever uma peça, acabei escrevendo o meu primeiro livro, A máquina, que foi adaptado para os palcos e para o cinema por João Falcão. Virei escritora por acaso. Uma revista me convidou para escrever crónicas. Uma das crónicas que escrevi se chamava "Mania de explicação" e um editor teve a ideia de transformá-la em livro infantil. Escritora por acaso outra vez. Daí eu achei que esse negócio de literatura não havia entrado na minha vida por acaso, e segui a escrever outros livros. Hoje, além dos livros, e de roteiros para cinema com os quais eu colaboro, ainda escrevo para a TV no seriado A grande família. O destino, a sorte e os deuses da literatura me abençoaram.

Para além de estares publicada em Portugal, os teus livros estão publicados em outras línguas. Já visitaste algum país estrangeiro na condição de escritora? Qual é a tua relação literária com outros países?

O Luna Clara e Apolo Onze foi publicado na Itália. Infelizmente, não sei italiano, pois seria muito bom compreender a tradução. A minha relação literária com outros países é nenhuma. Uma pena. Eu iria para o evento Lisboa - Cidade do Livro - em Maio passado, mas minha ida terminou por não acontecer. Como aqui no Brasil não consigo sobreviver como escritora, e também escrevo roteiros para TV e cinema, já visitei alguns países como roteirista. A máquina, O auto da compadecida e Fica comigo esta noite participaram de festivais de cinema em Paris, Bruxelas, Miami. Aliás, sinto que os eventos ligados ao cinema têm mais espaço do que aqueles ligados à literatura por aí, pelo mundo. Para quem é apaixonada por literatura, como eu, só há o que lamentar.

As várias áreas de trabalho da escrita, acredito, serão para continuar... Quais são os teus próximos projectos e o que te vês a fazer daqui a 20, 30 anos?

Acabei de escrever um roteiro para cinema, adaptado do Comédia dos Anjos, junto com o João Falcão. O seriado A grande família é um enorme sucesso no Brasil e provavelmente continuará no próximo ano, e, quem sabe, mais outros. Mas a minha grande paixão são os livros e por isso pretendo começar logo a pensar no próximo. Por enquanto ando burra. Vazia. Lendo muito para me reabastecer. Imagino-me daqui a 20 anos uma velhinha alegre, cheia de netos, cães e gatos, a escrever muitos livros, de todos os estilos, para todas as idades. Deus me ajude.

Obrigado, Adriana, e muita sorte para a tua carreira.

pa - ciên - cia

Em directo no Jornal da Noite da SIC, José Sócrates diz que com o Museu Berardo, "Lisboa fica mais capital". Não percebo. Joe Berardo, o senhor comendador, acrescenta, segundos depois, que "a cultura é muito bonita, mas sem cacau não há cultura, amigo". E eu penso para mim mesmo, ah!, esse capital...

Não há paciência, mesmo...

A Maria José Nogueira Pinto sabe que nós sabemos que ela sabe que fez parte de um governo do PSD, foi militante e vereadora eleita pelo CDS-PP e que está agora disponível para aparecer em actividades de campanha do PS.

Não há paciência...

Anunciada com pompa e circunstância a inauguração do novo Museu Berardo (sim, sim!), esta prenda que o Governo Sócrates e o seu Ministério da Cultura nos deu, a todos nós, portugueses sem cultura, reparo que, até para uma colecção de arte de contemporânea se recorre ao famoso-enjoativo-desnecessário-idiota- ó-parvo-olhó-balão fogo de artifício... Será isto típico de um país onde tudo é de faz-de-conta?

sábado, 23 de junho de 2007

O Poeta Nu - Jorge Sousa Braga



CARTA DE AMOR


A Eugénio de Andrade


Um dia destes
vou-te matar
Uma manhã qualquer em que estejas (como de costume)
a medir o tesão das flores
ali no Jardim de S. Lázaro
um tiro de pistola e…
Não te vou dar tempo sequer de me fixares o rosto
Podes invocar Safo, Cavafy ou S. João da Cruz
todos os poetas celestiais
que ninguém te virá acudir
Comprometidos definitivamente os teus planos de eternidade
Adeus pois mares de Setembro e dunas de Fão
Um dia destes vou-te matar…
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração


*


ADORMECER DO LADO DA PRIMAVERA


Adormecer num colchão de molas do lado da primavera
e acordar do lado do verão
Atirar-se da janela de um quinquagésimo andar
e aterrar intacto na folha de um nenúfar
Passar a cem à hora todos os sinais vermelhos
e estacar repentinamente no primeiro sinal verde
Engolir um Mirage e vomitar em seguida
dois milhões de pássaros pela boca
Fornicar sucessivamente com um elefante-fêmea
uma galinha-da-índia um colibri e uma borboleta
Destruir a pontapé todas as palavras do dicionário
até chegar à palavra chumbo
Estender a língua vermelha na pista do aeroporto
para servir de tapete a uma estrela de Hollywood
Cortar os braços a todos os prisioneiros e gritar «mãos no ar»
antes de os passar pelas armas
Derrotar todos os exércitos do nascente
e sucumbir ao ser atacado pelas costas por uma folha do outono
Comer à sobremesa apenas maçãs marca Cézanne
Assistir ao próprio enterro ao volante de um BMW cor de cinza
e chorar lágrimas verdadeiras
Descobrir uma caravela naufragada há quinhentos anos no fundo dos
teus olhos
e conseguir trazer para a superfície duas estátuas de Buda além de uma
tonelada de pimenta e outra de cravo
Passar cinco anos na solidão de uma cidade de dez milhões de
habitantes
e experimentar depois o bulício das Penhas Doiradas
Entrar num supermercado e plantar um limoeiro na secção das
vitaminas
Recuar alguns séculos no tempo
para apanhar nas mãos a cabeça de Maria Antonieta
Lavar as mãos em sangue antes de assinar o tratado de paz


**


CASULO


Eu não cresci à sombra de uma amoreira. E nunca brinquei com
bichos da seda.
No entanto, talvez eu não seja outra coisa senão um bicho da seda.
Condenado — como ele — a nunca me tornar numa crisálida.


**


EPÍLOGO


Estas páginas foram escritas a caminhar sobre a água, e só assim se podem
ler. Não procurei nada, não retive nada. Limitei-me a acusar o
choque — brutal, por vezes — de um grão de pólen ou de uma brisa
inesperada.


Não conheço outro ritmo que não seja o das estações. Outra música
que não a das gotas de chuva nos limoeiros. Outra fuga que não a de
um pássaro assustado com a sua própria sombra.


No fundo, o que me recuso a acreditar é que estejamos condenados.
Apesar dos prados envenenados, da lenta agonia dos rios e do mar. Da
atmosfera cada vez mais carregada das cidades. Contanto que a poesia
seja — continue a ser —


um lugar
onde ainda se pode
respirar


**


PORTO DE ABRIGO


É esta a cidade que o destino
te reservou. Uma cidade de


gente dura cuja maior
extravagância é um vaso


de sardinheiras na janela
de um ou outro edifício


Tinhas sonhado com uma
cidade branca mais a sul…


Esta cidade não é uma cidade
é um vício


**


VAN GOGH POR VAN GOGH


Gostaria de ter sido um girassol. Um girassol hirto no seu caule, de
longas folhas verdes desajeitadas e uma enorme corola doirada, seguindo
cegamente o sol.
Estou só e a minha cabeça explode em milhões de girassóis.


**


A REVOLUÇÃO DAS FLORES


Correspondendo a um apelo subterrâneo há vários dias que as dálias,
as cinerárias, os gerânios e as hortências se recusam a florirem e
os jasmineiros e as violetas a exalarem o seu aroma penetrante. De
entre as rosas foram as vermelhas as primeiras a aderir. Comités de
flores que se formaram espontaneamente em todos os jardins reivindicam
o direito de florir em qualquer estação do ano, medidas eficazes
contra as arbitrariedades das floristas, a extinção pura e simples
das estufas.


Uma nuvem de pó cobre a cidade. Em vão a polícia controla os portos
e as fronteiras. A exportação de bolbos e sementes foi suspensa
entretanto. Na Madeira o movimento foi desencadeado pelas estrelícias.
Tulipas que viajavam de avião e se destinavam a abastecer o
mercado londrino murcharam colectivamente. No Extremo Oriente,
crisântemos negros invadem as ruas de cidades como Tóquio e
Pequim. Apanhadas desprevenidas as borboletas, abelhas, vespas e
outros insectos ensaiam agora perigosos voos sobre os transeuntes.
Às dezasseis horas numa conferência de imprensa realizada no Jardim
de S. Lázaro, um grupo não identificado de flores, mas entre
as quais se podia reconhecer alguns amores-perfeitos, proclamou o
estado de felicidade permanente nos jardins.

Título: O Poeta Nu
Autor: Jorge Sousa Braga
Editor: Assírio & Alvim

Da utilidade da poesia

No início do mês de Julho, será publicada pela Assírio & Alvim toda a poesia de Jorge Sousa Braga. Aos seus textos daremos a devida atenção, com direito a pré-publicação. Por enquanto, e aproveitando a ocasião, recupero um texto sobre a utilidade da poesia, escrito por mim há já uns anos.

****

Em IV.9.68, Wittgenstein disserta sobre a forma como usamos a poesia. Para o fazer recorre a exemplos como o da comparação do efeito de dois poemas que versam o mesmo tema dizendo “leia um ou outro, têm o mesmo efeito”. Da mesma forma, recorre à música para efectuar igual exercício. O que se trata neste ensaio é de verificar como o exemplo dado é intencionalmente falacioso e averiguar o que resultaria duma situação em que o mesmo fosse verdadeiro.
Para clarificar os problemas colocados pelo exemplo de Wittgenstein, apresento dois poemas que me lembram a morte: “O Enforcado” de Alexandre O’Neill e “(sem título)” de Jorge de Sousa Braga.

O Enforcado

No gesto suspensivo de um sobreiro,
o enforcado.

Badalo que ninguém ouve,
espantalho que ninguém vê,
suas botas recusam o chão que o rejeitou.

Dele sobra o cajado. [O’Neill]

(sem título)
Não foi enxofre que caiu sobre Sodoma, mas pólen.
Haverá alguma cidade que resista a uma tempestade
de pólen? [Braga]

O primeiro problema que se coloca é como medir o efeito. Temos dois poemas, os quais me fazem lembrar da morte, mas não conseguimos definir o que há de parecido entre ambos. Poderíamos tentar encontrar palavras, presentes nos dois poemas, que funcionassem como estímulos de lembrança da morte. Mas não existem. Poderíamos procurar na sua forma, no ano em que foram escritos, nas características de cada autor. O facto é que em nada encontramos uma possibilidade de medida que nos permita prever um efeito e nos leve a afirmar “leia o outro, tem o mesmo efeito”.
Em poesia, e em outras questões de arte, não nos é permitido derivar prescrições. Não utilizamos o “correcto”/”incorrecto” perante um poema. Não estamos perante algo que seja passível de analisar como conforme a regras, nem catalogamos a poesia pela capacidade de obter dela associações. “Como usamos a poesia?”, pergunta Wittgenstein, não a utilizamos para obter associações. Mas podemos compará-la?
Podemos compará-la na medida subjectiva de que ambos os poemas me fazem lembrar da morte, como ao Prof. Tamen um lhe fará lembrar a morte e outro uma composição de Bach. Não podemos esperar que noutras pessoas o efeito dos poemas seja o mesmo. Temos um modo de comparar mas não temos um modo científico. Não é para isso que lemos poesia. Aí está a falácia do exemplo, intencionalmente demonstrada pelo próprio discurso de Wittgenstein.
Numa situação em que este exemplo fosse verdadeiro observaríamos o inverso do que até aqui foi considerado. Ou seja, o efeito dos poemas seria mensurável, fosse pelas palavras, pelas formas ou pelas características dos autores. Seria possível afirmar “leia este ou o outro, têm o mesmo efeito”. Eu, querendo fazer com que o Prof. Tamen se lembrasse da morte, mostrar-lhe-ia um ou outro poema e ele, instantaneamente, lembrar-se-ia da morte. Seria ainda possível utilizar as noções de “correcto”/”incorrecto” perante um poema pois passaria a estar passível de ser analisado conforme a regras que gerissem os poemas. Leríamos os poemas para obter associações, como não o fazemos agora.
Nesta situação poderíamos falar de um modo científico de usar a poesia. E, extrapolando o exemplo, poderíamos observar a estética como uma ciência. Seria possível prever situações e definir regras estéticas que serviriam para qualquer situação. Viveríamos num mundo onde se comprariam manuais de estética em lojas dos trezentos para brilhar nas discussões literárias do chá das cinco.
Concluindo, não há um modo científico e objectivo de analisar as questões de poesia. Não é para isso que lemos poesia. No seu jeito de defesa central que bate “com fé, esperança e sem caridade”, Wittgenstein afasta a possibilidade de previsões nas questões de arte. Num mundo paralelo ao do exemplo do filósofo austríaco, professores de Faculdades de Letras de todo o mundo procuram um modo científico de resolver as suas querelas. Sem resultados aparentes. Eu uso a poesia porque continuo a perguntar-me se “haverá alguma cidade que resista a uma tempestade de pólen”.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

lentamente, a oeste do paraíso

é pequeno o meu mundo, se o olho como se ele fosse o de todos os dias, arma de trazer por casa, mal carregada, incapaz de magoar. é pequeno o meu mundo, o seu espaço maior é uma estação de onde partem os comboios para todos os lugares. aqui, sentados na estação, eu e o Rufus Wainright a ler poesia portuguesa, a dar ao pé devagarinho ao som das máquinas que mastigam, sem nela cravar os dentes, a linha. é pequeno o meu mundo - um telefone que toca, outro que se silencia, uma mão que me procura, outra que me afasta, uma palavra que fica por dizer, tantas outras que se repetem sem sentido. de que vale o sorriso fácil, a atenção? de nada - tudo se desfaz neste pequeno mundo, se o olho como se ele fosse, apenas, o de todos os dias.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

A Comédia dos Anjos - Adriana Falcão

"Estamos aqui reunidos para rezar pela alma da nossa querida irmã Maria Madalena Rita de Cássia Teresinha de Jesus Santana...", "Teresinha de Jesus é na frente, Rita de Cássia vem depois", Marcelo corrigiu, porém Frei Laurentino resmungou que a ordem dos fatores não alterava o produto, e prosseguiu, "...que acaba de partir desta vida para a vida eterna".
Dona Vera, Dona Violeta e dona Juarezita se benzeram, uma após a outra, como se tivessem ensaiado.
Marcelo abraçou Edith, ela gemeu baixinho e apertou a mão de Artur, que conseguiu engolir o choro.
O ar adocicado de flores provocava certo enjôo, principalmente em quem estava de ressaca.
"Caríssimos irmãos, é preciso ter fé, força e coragem para seguir em frente, acreditando que tudo que Madalena construiu durante a sua permanência entre nós continuará vivo em nossos corações, através de sua lembrança, dos seus ensinamentos, do amor, da generosidade, do desapego, do equilíbrio, da paz e da harmonia que marcaram a sua passagem pela Terra."
– Ele não conhecia a vovó? – Artur estranhou.
– Enterro tem que ser bem triste – explicou Marcelo.
"Na verdade, irmãos e irmãs, a tristeza causada por essa passagem deve se converter em alegria, pois Madalena cumpriu fielmente a sua missão e apenas partiu ao encontro de Deus, nosso pai e criador, para agora habitar em Sua casa."
– Coitado de Deus – Paulo murmurou.
E só então todos perceberam que ele havia chegado, e Artur pulou no colo de seu pai, e Edith ficou ainda mais tonta do que estava, e Marcelo não teve como esconder a raiva.
– Eu posso saber o que é que você está fazendo aqui?
– Eu vim para o enterro da minha sogra.
– Ex-sogra.
– E eu posso saber o que é que você está fazendo aqui?
– Eu sempre estive aqui. Eu moro aqui. Eu não fui embora como você.
– Isso não é da sua conta.
– Você tem um minuto pra dar o fora.
– O enterro não é seu. Infelizmente.
Dona Vera era capaz de repetir esse diálogo, sem mudar uma palavra, sempre que chegava a este ponto da história.
Dona Violeta discordou em alguns pontos.
Dona Juarezita garantiu que foi ela que conseguiu acalmar os ânimos dos dois rapazes, com um comando simples: "calem a boca".
Mas há quem diga que a discussão se estendeu por muito tempo ainda, e que Frei Laurentino foi obrigado a ir aumentando a voz gradativamente, na tentativa frustrada de encobrir os xingamentos dos dois com palavras bonitas e caridosas, mais adequadas a qualquer enterro decente, até concluir dizendo que "Madalena passou desta para uma melhor e descansa em paz eternamente", frase que provocou enxurradas de lágrimas.
Foi problema embaraçoso decidir quais seis homens levariam as alças do caixão.
Paulo foi descartado por vinte e três votos contra dois, e mesmo quem se absteve da votação tinha a opinião de que "se dona Madalena estivesse viva iria odiar que ele levasse o caixão dela", no que Venceslau ponderou: "se ela estivesse viva, não haveria caixão nenhum a ser levado".
Após breve tumulto, o cortejo partiu em direção ao túmulo assim formado: Marcelo na alça da frente, à direita, Artur na da esquerda, em caráter café-com-leite devido à sua pouca idade; e mais quatro amigos do bar, nas alças restantes.
Logo atrás vieram Paulo e Edith, sob o mesmo guarda-
-chuva, o que gerou sussurros e cutucões por parte da platéia.
Todos os vira-latas da zona sul, mesmo os caolhos e os mancos, acompanharam o séquito, compungidos, apesar dos protestos dos funcionários do cemitério.
O caixão de Madalena desceu à sepultura às seis da tarde e ali ficou, ao lado do de Gaspar, flor, terra, cimento, até que a morte os uniu outra vez, enfim sós, e o sol se pôs.

Título: A Comédia dos Anjos
Autora: Adriana Falcão
Editora: Âmbar

Couceirices

Porque será que ninguém comenta o facto do capitão da selecção nacional de sub-21, Hugo Almeida, ter sido dispensado e ter voltado para Lisboa, dias antes da equipa disputar o apuramento para os Jogos Olímpicos de 2008? A quantos outros capitães de equipa seriam concedidas férias num momento destes?

Da sombra que somos - Maria Sofia Magalhães



Dou-te as palavras
como quem se despe
secreta e completamente.
Fico nua e solitária
toda a alma descoberta
no papel
e nos teus olhos
a imperfeição da minha pele.
O poema como espelho
deste medo
que me vejas
só, nas tuas mãos.


*


Dia a dia nascemos
velhos
o brilho do início
desvanecemos
por saber que vivemos
entre muros
que só nós
conhecemos.

Esmorecemos
dia a dia
sem perceber
que o último acto
para morrer
é viver.


*


Somos feitos de partículas
infinitamente invisíveis.
De átomos proteínas
que se vão desnaturando.

Espero das células a dignidade.
Que ao chegar o instante final
se destruam pacificamente
e regressem ao estado puro,
que incessantemente procuro
enquanto ser uno e perecível.



Título: Da sombra que somos
Autor: Maria Sofia Magalhães
Editora: Deriva

terça-feira, 19 de junho de 2007

Espaço Ponto e Virgula - Inauguração


Não querendo ser chato...

Mas o João Miguel Tavares viu as cerimónias e diz que "76% de medalhinhas para homens, 11% para mulheres. Cavaco tinha razão: é importante transmitir estas cerimónias em directo, para que se veja o País que temos."

Vale a pena ler o artigo todo, no Diário de Notícias de hoje.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Entrevista a Paulo Bandeira Faria

Numa interessante troca de e-mails, tive a oportunidade de entrevistar Paulo Bandeira Faria, autor do livro As Sete Estradinhas de Catete (imagem da capa), que foi recenseado neste mesmo blogue. O que guiou a entrevista foi a minha curiosidade pelos antecedentes literários deste autor, o que já leu, o que já escreveu e como encara estes dois processos. O resultado é esta entrada no universo particular do Paulo Bandeira Faria que, para além de me saciar a curiosidade, me deixou com imensa vontade de lhe conhecer mais trabalhos.

Olá Paulo, queria começar pelos teus antecedentes literários. Chegas ao panorama literário português, e logo és recebido com destaque, pela temática do teu livro estar inserida naquilo que se poderá chamar, lato senso, literatura pós-colonial, e pela qualidade formal que atinges logo neste primeiro romance. O que ficou por trás que não seja conhecido do grande público? O que escreveste antes de chegar aqui?

Antes chegar ao romance As sete estradinhas de Catete, comecei, como muitos autores, pelos poemas e contos. Há uns anos escrevinhei algo de mais fôlego, uma novela cuja acção decorria na Turquia, denominada Zelve (um treino, simplesmente, que não merece publicação).
Depois, fui pensando noutras novelas, uma delas situada na Amazónia, outra na Índia, outra de novo na Turquia. Mas como a coisa nunca passava para além de um tratado de boas intenções, forçosamente chegaria o dia em que me aborreceria comigo próprio e com tanto diletantismo (no qual também incluo, como sabes, o meu interesse pela pintura). Foi em 1999 que decidi escrever, a sério, um romance. Dessa decisão redundou A escada invertida, texto que, este sim, merece ver, um destes anos, a luz do dia. O problema é que, ao terminá-lo, percebi que dificilmente conseguiria quem mo publicasse, e logo eu, um perfeito desconhecido que vivia algures atrás do sol-posto! Isto é: como diabo ia abrir portas com um texto, de umas 400 páginas, cuja acção se situa no Peru e que, em grande medida, nasce do meu interesse pela Divina Comédia?
Foi então que decidi escrever outro romance, As sete estradinhas de Catete, mas situando agora a acção num espaço com o qual os leitores portugueses se identificassem mais. Também queria passar página desse meu passado africano, ficcionando a partir do que lá vivi. E abordar o final do nosso mundo colonial através dum olhar inesperado, o da criança, procurando atenuar a dureza do relato com o humor e ingenuidade de Guilherme. O romance peruano carece dessa ternura, é mais cerebral, e mais duro. Contudo, já nele procurei que a acção fosse em crescendo e que as últimas vinte ou trinta páginas contivessem o máximo de tensão possível.
Outra similitude, segundo uma amiga que leu ambos, é que ambos são corais, diz. Creio que se refere ao facto de que procuro que uma multiplicidade de personagens, sempre que possível contraditórias (evitando a caricatura, a personagem plana, o tipo), sejam quem mais dá a perspectiva da história, para mais porque me agradam os narradores pouco (e, se possível, nada) opinativos. Os personagens principais destes dois romances (Guilherme e Gabriel) acabam por ser, apesar da sua fragilidade, mas graças à sua teimosia, os agentes principais da história. Contudo, vão a reboque dos acontecimentos e são muitos dos outros personagens que os fazem agir e dão perspectiva ao que eles vêem, mas não entendem.
Enfim, termino dizendo-te quanto me agrada, como sabes, que a clareza do discurso não tire eficácia à mensagem. Se a obra se torna complexa, deve-se a situações que, pelo seu carácter intrinsecamente incomum, causam estranheza e dificuldade de compreensão ao leitor (refiro-me ao texto peruano). Contudo, nos contos, costumo ser mais arrojado formalmente, em grande medida porque, tal como nos poemas, os escrevo de jacto. Aí há similitudes com o estilo expressionista dos meus quadros. Neles trabalho sob impulso. O romance, sabe-lo bem, é totalmente diferente.

Quais os livros que lês?

Sou omnilivro, leio tudo o que me passe à frente e cuja temática me interesse. Sempre o fiz, pelo que as minhas leituras poderiam até parecer um tanto caóticas. À laia de exemplo, talvez esclarecedor, dir-te-ei o nome de alguns livros (que não de ficção) que mais gostei de ler nos últimos tempos. Foram: Deuses, túmulos e sábios - Um romance de arqueologia, de C. W. Ceram, um esplêndido livro de 1956, ou Na pista dos animais desconhecidos, de Bernard Heuvelmans, também dos anos 50, ou A minha alma deixo-a ao diabo, história real ocorrida na Amazónia, narrada pelo colombiano Germán Castro Caycedo, etc. E a listagem dos que tenho empilhados para ler, ocuparia aqui umas boas páginas. O problema é, como sabes, a falta de tempo, para mais porque tenho filhos pequenos.
As minhas leituras, como já to disse, sempre foram diversificadas. Nelas incluo a banda desenhada,com autores soberbos que vão de Hugo Pratt (imagem de uma ilustração), Bilal e Comés, a Loustal, Schuiten e Peeters ou Bourgeon; e cada vez mais a pintura, sobretudo pintores que me agradam sobremaneira, como Kokoschka (imagem de Auto-Retrato em baixo), Rouault, Millares ou Francisco Farreras.
Quando começo a pensar num romance, as minhas leituras, apesar de ecléticas, tornam-se mais direccionadas. Por exemplo, ao preparar A escada invertida, o romance peruano, li guias (um deles, da Trotamundos, escrito por Javier Sanz, é excelente), poesia chilena e peruana, de novo A divina comédia, reli romances como Rufam tambores por Rancas, do malogrado Manuel Scorza, etc. E antes de começar As sete estradinhas de Catete, li estudiosos da época colonial e pós-colonial (Eduardo dos Santos, José Redinha, Rodrigues de Areia), reli escritores como Castro Soromenho e Luandino Vieira, e alguns textos de viagens em África, como os de Javier Reverte. Se a seguir, como pretendo, escrever sobre o mundo muçulmano, pois será a vez do Corão, escritores turcos e iranianos, por exemplo, e guias, e o que mais vier a talho de foice.

Terás certamente autores que te marcaram ao longo da vida, bem como autores que te tenham surpreendido ultimamente. Quem são eles?

No que diz respeito à poesia, são tanto os autores que não saberia dar-te uma lista completa. Houve, até hoje, muitos poemas que me emocionaram. Mas se tivesse que dar-te um nome, quase ao acaso, dir-te-ia, por exemplo, o de Ruy Belo. E um longo etc.
Em relação aos contos, tenho duas referências primordiais: Borges e Tchekov. E uma surpresa, mais ou menos recente, a de A planície em chamas, de Rulfo.
Por fim, no que diz respeito à novela e ao romance, mais que autores, gostaria de referir livros que me impressionaram vivamente, e isto desde a adolescência. Livros que, cada vez que os releio, é como se me sentisse um pouco em casa. Como quando regressas a um lugar no qual identificas antigas descobertas, momentos que não desejas perder. Neste grupo de livros, quase íntimos, referiria, por exemplo, Os Maias e Madame Bovary. Outros que me agradaram muito foram, numa abordagem absolutamente anárquica, A selva, O ano da morte de Ricardo Reis, O estrangeiro, Lolita, A metamorfose, Cem anos de solidão, O retrato de Dorian Gray e um longuíssimo etc.
Em síntese: tentei aprender com os clássicos, mas talvez tenha sido um bocado marcado pelos existencialistas e autores sul-americanos associados ao realismo fantástico, não sei. Mas as minhas referências primordiais, repito, continuam a ser Borges (na foto) e Tchekov.

No que diz respeito a leituras recentes, li, ou estou a ler, Maria Fasce, António Cabrita, Francisco Camacho e Francisco José Viegas. Também vou reler Pedro Paramo, que agora foi traduzido por Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues. E ando também à procura de livros de poesia de Rosário Pedreira e Luís Filipe Cristóvão.

E que género literário merece mais os teus favores?

A narrativa, sempre que o tempo livre mo permite; e a lírica, sempre que a emoção mo permite.
Mas, especificando. Gosto muito de contos e procurarei também escrever novelas. Os romances, apesar do esforço que implicam (devido à sua dimensão, número de personagens, etc), agradam-me bastante. Exigem uma meticulosa organização, mas o exercício de descoberta (quiçá mais que de criação) do texto e do devir dos próprios personagens é algo que nunca deixará de me surpreender. Pela sua dimensão, os romances permitem algo que me agrada muito: a possibilidade de ver crescer os personagens, vê-los mudar devido às contingências da sua vida e às peripécias da acção. Agrada-me cerzir pontas, isto é, ver o romance como (por exemplo) um tapete oriental, com organização na cor, nos temas, nos símbolos. Sabes que, uma vez, nos confins da Anatólia, junto à Geórgia (que então ainda fazia parte da União Soviética), aonde fui para visitar uma cidade perdida chamada Ani, um curdo contou-me a história de uma rapariga que teceu um tapete durante meses e, ao final, atou as franjas para dizer que se queria casar. Os pais não a deixaram com quem desejava e a jovem suicidou-se. Eu olhei o tapete como se nele visse guardada uma alma, entendes? Isso procuro num romance: a sua alma. Um poema, um conto, são uma centelha. Um romance é distinto.
Contudo, e para finalizar, dir-te-ei que continuarei a integrar elementos poéticos no narrativos, cada vez mais. Nos meus livros de contos, a poesia é já um elemento preponderante. Creio que nunca abandonarei esses dois registos, porque me são fundamentais.
Obrigado, Paulo, espero que tenhas todo o sucesso que mereces.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Way Out

A poesia deixará de ser uma coisa triste
quando começar a ter que ver com a vida das pessoas
quando essas pessoas voltarem a ser quem decide o que fazer
com as suas vidas e com as palavras,
entretanto
tudo isto que fazemos continuará a ser

literatura.


Antonio Orihuela
(Tradução de Luís Filipe Cristóvão)

a dose certa de silêncio

Still Life
um filme de Jia Zhang-Ke

começar

andar à volta de uma história que se entende está quase a começar porque se ouve uma música ou se vê uma imagem na televisão e reconhece-se que algo vem lá, mesmo que pouco adiante perguntar pelo que é, porque nunca se recebe uma resposta directa de algo que ainda é só uma nuvem de indefinição. o problema não é tanto encontrar a história - essas existem desde sempre, não há muito a inventar - o problema é encontrar o formato onde a colocar. já leste milhares de livros, já estudaste durante anos como o fazer, já viveste e pensaste sobre uma série de linhas que poderão ser a primeira desta nuvem que se está a desfazer para se transformar em chuva, sim, mas também em algo mais.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

previsão do tempo

agora a cidade ficou cinzenta e o corpo pesa-me inteiro sobre os ombros, como se uma nuvem carregada de chuva me tivesse sido entregue para transporte. o corpo arrasta-se sobre as pernas e mesmo as ideias colam-se umas às outras, e em pedaços, às paredes do meu crânio. adormece-se aqui como numa mortalha, devagar e sem dor, apenas os ligeiros estremecimentos de qualquer coisa que, ao que parece, vai deixar de existir.

Sparks -When I'm with you

When I'm with you
I never have a problem when I'm with you
I'm really well-adjusted when I'm with you, with you, with you
When I'm with you

When I'm with you
I lose a lot of sleep when I'm with you
I meet a lot of people when I'm with you, with you, with you
When I'm with you

It's the break on the song
When I should say something special
But the pressure is on and I can't make up nothing special
Not when I'm with you

When I'm with you
I never feel like garbage when I'm with you
I almost feel normal when I'm with you, with you, with you
When I'm with you

When I'm with you
I'm always hot and bothered when I'm with you
I always need a shower when I'm with you, with you, with you
When I'm with you

It's the break on the song
When I should say something special
But the pressure is on and I can't make up nothing special
Not when I'm with you

When I'm with you
I never need a mirror when I'm with you
I don't care what I look like when I'm with you, with you, with you
When I'm with you

Parabéns ;)

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Livros, Críticos, Ofertas e Amigos

Vale a pena fazer um esforço (e digo isto para aqueles que insistem que não percebem castelhano), e visitar este link para ler o desabafo do poeta David Gonzalez acerca de livros, críticos, ofertas e amigos.

E porque certas coisas me parecem tão importantes e lineares que, no meio de todo o barulho que fazemos neste trabalho de inventar, criar, fazer e vender livros, acabam por passar quase despercebidas, sabe muito bem haver alguém que nos relembra, exactamente, do lugar que ocupamos no mundo.

Por isso mesmo, e apesar de vos convidar veementemente a visitar e a ler o texto por inteiro, não resisto a colocar aqui algumas das passagens que eu vou tentar não esquecer:

"Considero que no es justo que los lectores de mi poesía, pocos o muchos, paguen 9, 12 o 18 euros por uno de mis libros, mientras ciertos señoritos están cómodamente instalados en sus casitas esperando a que llegue el cartero con las novedades editoriales de las distintas editoriales"

"Si los críticos se pagaran de su bolsillo los libros que luego reseñarán, seguro que en el 99, 99 por ciento de los casos no reseñarían la mierda de libros que habitualmente reseñan"

"en este país, así como en otros, se aceptan ciertos modelos de conducta o se respetan ciertas tradiciones adquiridas que, examinadas con atención, a mí, al menos, me parecen..."

Chavez-o-Mania

"[A RTP] Ao proceder deste modo, e ao invés do que tem acontecido em anos anteriores, o canal público de televisão privou os Portugueses e as Comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo de acompanharem na íntegra as cerimónias comemorativas do dia 10 de Junho, facto que a Presidência da República considera inaceitável."

Não, não é uma piada do Inimigo Público, nem do Gato Fedorento. É um sinal da Presidência, como se vê aqui. Não é só a maneira infantil de Sócrates reagir aos que diz a comunicação social sobre si. Agora é também Cavaco a sentir-se no direito de anunciar publicamente que "considera inaceitável" uma opção de programação do canal público. Ou muito me engano, ou anda por aqui um clima que se vai tornando irrespirável.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Biblioteca de Editores Independentes

Numa colaboração inédita entre editoras portuguesas, a Assírio & Alvim, a Cotovia e a Relógio D’Água vão lançar uma colecção de livros de bolso reunindo alguns dos principais autores clássicos e contemporâneos.A Biblioteca Independente (BI) será lançada a 25 de Junho próximo. Em 2007 serão publicados vinte e um títulos prosseguindo a colecção com três títulos mensais, repartidos pela ficção narrativa, poesia e ensaio.Coloca-se assim ao alcance dos leitores portugueses obras a partir de 4 € e com a qualidade de tradução, o rigor na fixação do texto e o grafismo que têm caracterizado as editoras participantes no projecto.Pretende-se deste modo alargar o espaço da edição cultural, fornecendo uma alternativa à monótona avalanche de romances de enredo esotérico e aos ensaios que se dissolvem na espuma dos dias.A distribuição é assegurada em conjunto pelas três editoras e vai ser referenciada através de expositores colocados nos principais postos de venda, com natural destaque para as melhores livrarias em cada localidade.A Biblioteca Independente vai também integrar obras que não fazem parte do catálogo das três editoras fundadoras.

Primeiros títulos previstos para o final de Junho:
Ilíada, de Homero, 508 pp., 14 euros
D. Quixote I, de Cervantes, 552 pp., 13 Euros
D. Quixote II, de Cervantes, 576 pp., 13 Euros
Mensagem, de Fernando Pessoa, 96 pp., 4 Euros
Três Homens num barco, de Jerome K. Jerome, 252 pp., 7 Euros
Poemas, de Mário de Sá-Carneiro, 144 pp, 4 Euros
Contos de S. Petersburgo, de Gogol, 288 pp., 7 Euros
Orlando, de Virginia Woolf, 240 pp., 7 Euros
O que é a filosofia?, de Ortega y Gasset, 208 pp. 6 Euros

Feira do Livro, entrevistas e algumas observações

Não me surpreende o teor geral da entrevista que o Presidente da APEL, Baptista Lopes, dá ao Diário de Notícias, em jeito de balanço da Feira do Livro (surpreendentemente, só se fala da Feira do Livro de Lisboa...). É que, e podem chamar-me chato, não fico nada satisfeito quando se continua a tratar o mercado do livro (e ainda por cima uma pessoa com responsabilidades por presidir à maior associação industrial ligada a este mercado) como se fosse a mesma coisa tratar resultados de vendas de um evento da dimensão de uma Feira do Livro e dar opinião sobre um romance fraquinho que se tresleu.

Ora vejamos o que diz Bapista Lopes:
- "devido aos resultados pouco animadores da feira de 2006" - mas quais foram os resultados?

- "A menor participação da CML devolveu a feira aos editores" - mas a uma semana do evento dizia Baptista Lopes que não sabia ainda que tipo de espaços haveria para outros eventos na Feira do Livro.

- "A indicação é a de que houve mais público e o volume de negócios foi superior" - Sim. E os números?

- "Não houve redução do volume de negócios em nenhuma circunstância" - E os números?

- "a subida das vendas situa-se entre os 20 e os 40 por cento face a 2006" - Ah...os números. Mas espera lá, não, isto ainda não são os números!!

- "Quanto menos a autarquia se envolver, melhor a Feira do Livro" - Já agora, com que números participou a Câmara de Lisboa, hein?

- "Também no Porto houve maior afluência de público e mais receitas" - E contam eles as entradas para chegarmos a este número: maior.

Uma pessoa lê esta entrevista e parece que o Baptista Lopes fez o mesmo que eu, que foi ir à feira três vezes, espaçado no tempo da sua realização, e perguntar a alguns editores como estava a correr a feira. Ou seja, nos primeiros dias estava fraco, entretanto melhorou o tempo, começou a aparecer mais clientela, e no final pode dizer-se que a Feira foi um sucesso (pelo menos, a medir com o olhar, foi).

Agora o que não se pode esquecer é que, para além de preços um pouco mais baixos, das promoções para esvaziar armazéns e dos livros arrumados por editora com um atendimento, em média, mais preparado e conhecedor do que nas livrarias, o que a Feira do Livro oferece é Zero - não existem eventos culturais, não existem espaços de lazer, não existe sequer qualquer tipo de animação que decorra durante as três semanas da Feira. E isso, para mim, não é forma de tratar o livro.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

nada para escrever

terminei, durante este fim-de-semana, a versão quase-definitiva do meu próximo livro que terá como título E como ficou chato ser moderno e que será lançado no próximo mês de Julho. foi uma luta de meses - primeiro a recuperar material que tinha ficado esquecido para lá do meu primeiro livro, depois a agrupar e escolher de entre o material que foi escrevendo propositadamente para este livro. não foi um processo fácil (e também por isso lhe chamo luta) - o livro começou por ser planeado para ser radicalmente diferente do que tinha preparado antes (que era um livro todo cérebro, todo razão), embora dentro de um espartilho que lhe desse um sentido lógico; no entanto, o que vai sair é realmente um conjunto de textos, alguns deles muito diferentes entre si, mas que revelam, a meu ver, suficientemente bem as fronteiras do meu espaço criativo. será como se, libertando de vez o processo de montar o livro de um plano formal onde assentar os poemas, conseguisse revelar muito melhor a presença de um espírito, de uma intensidade, que estava bastante escondida no título anterior. não sei que sentido faz estar assim a discorrer sobre um livro escrito por mim e que ainda ninguém leu - a verdade é que depois de um certo alívio por ver o livro terminado, esta manhã, ao sair do elevador para a rua, a sensação de vazio foi enorme - como se poucas horas depois de terminado um trabalho, logo se impusesse uma necessidade de começar outro. não me posso queixar - tenho duas traduções que me vão ocupar bastante tempo, tenho dois convites para publicar nos quais estou a trabalhar, tenho a revisão de uma série de outros livros - mas sei que o verdadeiro trabalho da palavra estará reservado para um próximo livro, um livro a vir, ainda não sei quando, e sei também que só essa ideia poderá voltar a preencher este vazio que é a de um escritor que, pela manhã, descobre que não tem nada para escrever.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Quando não souberes copia - Fernando Tordo





A rima bateu-me na cabeça.
Foi tal o eco
que a única palavra que me ocorre é
caneco,
até que o som se dilua
e no quadro onde pintei um gato (no canto superior direito)
nasça a lua.


-*-


dizia que o país lhe doía
em que osso?
em que músculo?
em que sangue tinha ele o país que lhe doía?
dizia que o país lhe fugia
por qual estrada?
a que horas?
por qual cruzamento?
dizia que o país lhe morria
porque fugia do que lhe doía
matando-o por dentro.


-*-


Lurdes Nogueira, fadista louca, faz as camas de dois filhos
que tem de um guitarrista,
mais outra da filha de um chulo que não toca nada.
Dorme pouco, a Lurdes Nogueira.
Os fados que canta são dores da madrugada
quatro ou cinco da manhã
e ainda canta para menos gente do que os seis fados
doloridos
que ela dorme e já não sabe
à espera que as avinhadas poucas mãos se choquem
até parecer que são aplausos despertando a Lurdes Nogueira
para as três camas
que vai fazer daqui a pouco
as três camas dos filhos do cansaço.
O guitarrista pai dos filhos ainda toca para ela cordas
quebradas.
Do chulo, nada a dizer nunca se falaram.
A Lurdes Nogueira faz as três camas sozinha
há muito tempo
vive sozinha e os filhos também nunca ouviram a mãe cantar
nem sequer lhe pediram
ela enjeitaria.
A voz da Lurdes Nogueira é para os filhos o som passado
de um grito oco escondido na infância e no colo
tão poucas vezes
sem leite, sem descanso, sem vida.
Lurdes Nogueira, fadista louca.
Chamam-lhe assim não se sabe porquê
ou apenas porque o canto da Lurdes Nogueira não tenha
letra
apenas tenha medo
apenas tenha silêncio e nada
apenas tenha a voz que os filhos não sabem
e que é a voz da mãe da noite.

Título: Quando não souberes copia
Autor: Fernando Tordo
Editor: Campo das Letras

Pré-Publicações

O 1 9 7 9 inicia hoje o seu projecto de pré-publicações de poesia. Para isso, contamos com a colaboração das editoras em disponibilizar informação sobre os livros de poesia que irão lançar no mercado. Conjuntamente com a pré-publicação, tentaremos conversar com os autores, para ficarmos a saber um pouco mais da poesia que se vai publicando.

Lá vem Carmona

Já não me ria tanto, nem com tanta vontade, de um político, desde que Santana saiu do Governo. Confesso que ao ver ontem o Carmona a tentar fazer o sing-along com o Toy, tudo embrulhado em sorrisos totós de quem acredita que vai salvar o mundo (ou Lisboa, o que para o caso tanto faz), voltou a mim a esperança de voltar a haver boa comédia no prime-time da televisão portuguesa.

Para os fanáticos desta novela, passem pelo Corta-Fitas, onde a alegria, ao que parece, também já contaminou uns quantos.

terça-feira, 5 de junho de 2007

O livreiro é rei

"Porque na Book Expo America o livreiro é tratado como um rei. Os editores fazem tudo para lhe agradar e o conquistar para determinado livro. Sabem que por mais campanhas publicitárias que façam, por mais críticas que saiam nos jornais é o livreiro que vai vender o livro pelo país fora, quer nas cadeias de livrarias quer nas pequenas livrarias de província. É o boca a boca que faz o sucesso de uma obra. Uma ida ao programa de televisão da Oprah ou ao The Daily Show de Jon Stewart também ajuda."

Isabel Coutinho, no Público de hoje.

Eles já perceberam - e tu?

bullying

nem sempre me considerei um tipo com sorte - a verdade é que durante parte da infância e adolescência fui atacado por diversas coisas que costumam ser um alvo fácil para um monte de crianças idiotas - comecei a usar óculos com 7 anos, por volta da mesma idade, e durante longos meses, usei aparelho, sempre tive corpo suficiente para me acharem gordinho, tive um monte de acne que me fez andar borbulhento durante vários outros anos, não era o gajo mais comunicativo sequer da minha carteira na escola preparatória e esta lista ainda podia ser maior, bastava que perdesse mais algum tempo a pensar nisso. tive tudo para ser um alvo fácil e em algumas ocasiões fui: fugi de colegas da escola, fingia que não estava em casa, não me aproximava das raparigas. isso levou-me, felizmente, não a desenvolver um medo ou pânico que me acompanhasse para o resto da vida, mas ensinou-me, sobretudo, a ver melhor como os outros reagiam, a reconhecer-lhes os pontos fracos, a perceber a psicologia humana.

hoje em dia, muitos daqueles que tiveram os seus quinze minutos de atitude a gozarem com a minha cara (ou com qualquer outra característica minha), engolem em seco por, nos jantares de amigos, não terem muito mais para contar do que as suas pequenas façanhas de putos reguilas. ao contrário, eu, que nunca fui um puto reguila, continuo muito à minha maneira, a fazer o que me dá na gana. o que é facto é que aprendi a não me calar perante as situações, aprendi a gerir a minha raiva e aprendi que, como se diz na gíria futebolística, a melhor defesa é o ataque - pode custar dizer ou levar com as coisas na cara, mas nada melhor do que reconhecer os nossos telhados de vidro antes que nos comecem a atirar com as pedras.

embora possa parecer, isto não vem a propósito de nenhuma notícia sobre bullying. pelo contrário, isto vem a propósito da quantidade de gente que leva a sua vida a tentar chatear os outros. a boa notícia que eu tenho para todos aqueles que já foram chateados (e consequentemente a pior notícia para os restantes paspalhos) é que o sucesso é sempre maior do que a inveja, e se acreditamos mesmo na nossa capacidade de ser bem sucedidos, não há má-língua que possa diminuir isso. para os outros rebentos-de-soja-de-beira-de-prato, façam qualquer coisa por vocês, sem dependerem do sofrimento de ninguém, sei lá, qualquer coisa assim do género mesmo fácil e heróica, como engolir um pau de gelado... e deixem-se de tretas, finalmente!

marca

João Miguel Tavares, coloca hoje, no Diário de Notícias, o dedo na ferida, ao trazer para discussão a dimensão mediática do desaparecimento de Maddie McCann. É claro que a família McCann está a utilizar toda a clareza de espírito para manter vivo o interesse da comunicação social pelo caso - toda a clareza e os milhares de euros que, como o texto de JMT demonstra, tem vindo de todo o lado para ajudar à campanha. No entanto, poderá ser todo este mediatismo a deitar a perder a atenção que o casal McCann nos mereceu até agora - a possibilidade de encontrar a pequena Maddie viva e com saúde é, passado mais de um mês, praticamente impossível - seja o que fôr que lhe tenha acontecido, deixará marcas para o resto da vida (ou para o que poderá sobrar dela). E não haverá campanha mediática nem atenção nos jornais que substitua a falta dos pais no que passou a ser o momento mais marcante da sua vida. Isso sim, quer queiram, quer não, vai ser o que nunca sairá do nosso pensamento, nem do de Maddie, temo eu.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

so you want to be a writer?

if it doesn't come bursting out of you
in spite of everything,
don't do it.
unless it comes unasked out of your
heart and your mind and your mouth
and your gut,
don't do it.
if you have to sit for hours
staring at your computer screen
or hunched over your
typewriter
searching for words,
don't do it.
if you're doing it for money or
fame,
don't do it.
if you're doing it because you want
women in your bed,
don't do it.
if you have to sit there and
rewrite it again and again,
don't do it.
if it's hard work just thinking about doing it,
don't do it.
if you're trying to write like somebody
else,
forget about it.

if you have to wait for it to roar out of
you,
then wait patiently.
if it never does roar out of you,
do something else.

if you first have to read it to your wife
or your girlfriend or your boyfriend
or your parents or to anybody at all,
you're not ready.

don't be like so many writers,
don't be like so many thousands of
people who call themselves writers,
don't be dull and boring and
pretentious, don't be consumed with self-
love.
the libraries of the world have
yawned themselves to
sleep
over your kind.
don't add to that.
don't do it.
unless it comes out of
your soul like a rocket,
unless being still would
drive you to madness or
suicide or murder,
don't do it.
unless the sun inside you is
burning your gut,
don't do it.

when it is truly time,
and if you have been chosen,
it will do it by
itself and it will keep on doing it
until you die or it dies in you.

there is no other way.

and there never was.

Charles Bukowski

Esta devia ser, realmente, a nossa filosofia.

tiananmen

a teoria do fim da história levou-nos, nas últimas décadas, a conviver mal com as relações que se estabelecem entre filosofia e prática. as coisas são sempre colocadas de uma forma a atribuir culpas a alguém. assim, parece que qualquer comunista se deveria sentir culpado por determinados acontecimentos, como se estivesse no código genético da filosofia comunista agredir, prender, torturar pessoas. não está. há uma separação muito grande entre o comunismo e os regimes comunistas - tal como outras filosofias que prometem o paraíso (seja na terra, seja no céu), o caminho para chegar até aí é sempre uma via dolorosa onde, pelo que me é dado a perceber, só os que não acreditam nem um pouco nesse paraíso conseguirão lá chegar - como se recebesse um prémio pelo tanto que se sofreu por uma causa na qual não se acredita. fizeram de nós marionetas num jogo de poder que não pedimos - porque acreditar numa filosofia será sempre, pelo menos para mim, uma forma de recusa do poder, porque se reconhece a falibilidade daquilo em que se acredita. só quando se acredita em regimes, em regras, em disciplinas, se pode fechar os olhos - quem lê filosofias, vê o mundo tal como ele é, inteiro e pleno de defeitos.

é por isso que eu recordo e repudio com igual mágoa todas as atrocidades que foram praticadas por qualquer regime do mundo - tenha crescido ao som da esquerda ou da direita, tenha alinhado pelo culto de um líder ou creditado a sua revolução com a marca do povo. nada nunca justificou a prática da eliminação de seres humanos para alcançar poder - nada nunca o poderá justificar. recordar um acontecimento como tiananmen é uma obrigação de todos, tal como será obrigação de cada um de nós, por muito pequena que seja a nossa capacidade para o fazer, darmo-nos por inteiro para que nada disto se volte a repetir.

Tiananmen

15 de Abril de 1989 - 4 de Junho de 1989

sábado, 2 de junho de 2007

nas mãos restam algumas moedas e um papel
já muito antigo onde escrito em letra pequenina
ficou um itinerário inviável para a destruição -
um jovem rapaz de cabelos longos e peito descoberto
a sua voz forte gritada para as paredes do quarto
a roupa amontoada sobre uma cadeira ao canto.
agora passaram já demasiados anos para sabermos
ainda falar de um futuro de uma forma compreensível -
temos os olhos fechados e o corpo é apenas uma lembrança
daquilo que um dia prometeu poder ser, tu sabes.
nas mãos restam algumas moedas e um papel -
mas o que pode isso significar, realmente?

fogo

tinha diante dos olhos todo o fogo da vida, a queimar-lhe as unhas por dentro - como segurar um co(r)po nestas condições, como deslizar livre pela seiva do esquecimento - umas quantas perguntas a ecoar dentro dos olhos, a pestanejar muito, a pestanejar muito.
escreve o real, pediu-lhe ela, escreve o real, diz-me palavras bonitas mesmo quando chegares demasiado tarde ao meu funeral e já não sobrar terra para deitares sobre o meu caixão - e aquele olhar era uma dança que só seria possível nas distantes ilhas do pacífico.
a vida é qualquer coisa que se engole e fica a ovular dentro de nós - pés, pernas, braços, tudo sobre uma cama perdida no meio do mar - e a música que não pára, não pára nunca, mesmo que o incêndio ameace, um destes dias, apagar.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

poema para o dia da criança daqui a dez anos

talvez, daqui a dez anos, me digas,
Filipe, isso não interessa nada.
talvez me digas, que raio,
já passou tanto tempo.
mas hoje,
e nada parece mais importante para ti,
hoje, é dia da criança.

porque agora, tu sabes,
o que te faz voar são os cabelos loiros de uma boneca,
uma batida forte numa música,
uma piada frágil numa novela.
daqui a dez anos,
rir-te-ás comigo das coisas que te fazem rir hoje.

e porque hoje é dia da criança,
e também, porque me pediste uma prenda,
escrevo-te este poema em que talvez pouco percebas.
mas, garanto-te, daqui a dez anos,
dificilmente encontrarás algo que te faça sorrir mais.

Escrevi este poema para a minha irmã Catarina quando ela tinha 9 anos, talvez... não sei bem ao certo. Sei que ela me exigiu uma prenda para o dia da criança e eu escrevi-lhe este poema. Ainda não passaram dez anos, mas é bom recordar - o poema, a Catarina, o dia da criança - agora que já não recebo prendas neste dia.

projectos de tradução I

Martin Estrada

projectos de tradução II

David Gonzalez

um poema jaz quieto dentro de um livro,
foi alguém que lá o esqueceu,
como se esquece um brinquedo de criança numa casa velha.