quarta-feira, 16 de maio de 2007

uma linha escorregando pelo universo

sento-me em frente ao computador para escrever um poema, essa maneira indigesta de fazer colidir palavras com espaços em branco, linhas inventadas no olhar, réguas, ausências por preencher, era isso o que eu queria dizer: repetir-me ao infinito, usar das mesmas palavras, das mesmas expressões, ser, apenas e só, um fantasma que volta outra vez ao mesmo lugar, aqui, sentado em frente ao computador.

a dor não é uma dor sentida - lágrimas a escorrer pelo rosto, manhãs difíceis de acordar, noites inteiras com o álcool como incerto companheiro - a dor não é uma dor sentida, é uma carta que se escreve sem destinatário, uma imagem que nos passa pelo olhar sem realmente lá estar, como um sonho, um pesadelo, um fantasma, outra vez, ou uma outra entidade existente para além da dimensão do meu conhecimento, que apesar disso mesmo, eu reconheço.

sento-me em frente ao computador para escrever uma dor, esse poema indigesto a fazer-me colidir palavras como incertas companhias - sento-me em frente ao computador e toda a palavra é um artifício para não se ir a lado nenhum: ficar aqui, apenas, aqui apenas. da minha mão que treme deixo fluir mais umas quantas frases que até para mim parecem já ter perdido todo o sentido: estar a vê-as, assim, a despenharem-se contra o espaço. sento-me.

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