quarta-feira, 30 de maio de 2007

enfeirar o livro

na feira do livro, à noite, homens e mulheres dentro de barracas fecham os casacos até ao queixo a queixarem-se do frio. estão fartos, dizem. não há cultura que aguente tão pouca gente a andar acima e abaixo o parque. colocam-se as expectativas todas em vender uns livros, os livros que "ninguém quer lá no armazém", como ouvi dizer a um canto. colocam-se as expectativas e a esperança em alguns milhares de pessoas que não compram livros o resto do ano, porque devem ter melhores maneiras de gastar o dinheiro, como passar férias na neve, comprar bilhetes de bancada central para os oitavos-de-final da liga dos campeões, usar sempre roupa de marca bem visível ao fundo de qualquer rua. esquecem-se, como é normal ser esquecido quando se é editor, quando se é livreiro, que quem compra os livros são sempre as mesmas pessoas, durante o ano inteiro, que ir à feira do livro não é como ir ao algarve, que mesmo o algarve vai perdendo muita clientela porque um tipo passa a fronteira e em isla cristina tudo é mais cuidado. essas mesmas pessoas de sempre, as que compram livros, vão à feira procurar qualquer coisa que não compraram antes porque era demasiado caro, e não criam facturação aos senhores das barracas. essas mesmas pessoas de sempre, as que compram livros, ficam um tanto exasperadas por faltar informação, por faltar animação, por faltar tudo aquilo que bem poderia ser como o algarve (debates entre escritores, anúncios de novidades para os meses futuros, encontros de comunidades de leitores, sessões de leitura pública...). que não vende. que ninguém se interessa. e então volta-se a fechar o casaco até ao queixo para se queixar do frio, dos horários, da pouca gente. volta-se a fechar a barraca, até, na esperança que amanhã apareçam os outros, os que não lêem.

1 comentário:

  1. Ontem à noite, no Porto, a animação consistia numa sessão de autógrafos do Júlio Isidro! Ainda assim os pavões do Palácio estavam a tentar entrar.

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