quinta-feira, 10 de maio de 2007

catarata

olho os meus sapatos alinhados junto à parede, no corredor. que horas são, esta manhã, não sei dizer, só sei que oiço na rádio notícias de desaparecimentos e desencontros, novidades mais ou menos estafadas da mesma política de todos os dias - sensação de repetidos, apenas isso. saído do banho, sinto o meu corpo lavado das coisas da noite: sonhos maus, algum suor, algum frio, uns quantos espirros. qualquer coisa que sai assim, com um banho.

abro o frigorífico como o programado há vários meses, há vários anos, na minha cabeça. procuro a mesma embalagem de iogurte, olho a mesma mesa, virada para a mesma janela. misturo bolachas no iogurte e na rádio a mesma conversa, a mesma conversa. penso no quão triste pode ser a literatura quando é assim, repetida, mastigada, programada. uso palavras que a mim me arrepiam, que me dizem pouco. estou deslocado no mesmo lugar onde sempre estive.

esta é a minha casa, escrever-te isto é como se te convidasse a entrar. podes ficar aí, junto à porta. eu procuro entre os meus livros algumas frases que possa usar quando, na rua, as pessoas se dirigirem a mim, para me dar os bons dias, para me falar dos problemas da vida ou das crianças. eu desço as escadas mecanicamente, calado, como a senhora das limpezas usa a esfregona para desinfectar alguns lugares onde nunca ninguém passa. qualquer coisa que sai assim, com um banho.

versão em verso em: http://prazeresminusculos.blogspot.com/2007/05/catarata.html

1 comentário:

  1. gostei de ser os teus olhos e pensamentos por entre estas letras

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