quinta-feira, 31 de maio de 2007

igual

é sempre igual de manhã - o despertador à mesma hora, a voz do homem da rádio a repetir as notícias, o estado do trânsito em cidades longínquas, o tempo para o país inteiro e ilhas adjacentes. é sempre igual - a cara feia no espelho da casa de banho, a água a correr no chuveiro, a pasta dos dentes a ficar espalhada pelo lavatório. é sempre igual - o caminho para o trabalho, a rotina do balcão, os bons-dias funcionários dos colegas. é sempre igual - menos a vontade de levantar, que vai mudando consoante a noite, consoante o sono, consoante a agenda. é sempre igual - menos o beijo que aparece mais doce, o olhar mais interessado, o dia do calendário. é sempre igual, é sempre igual.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

falha de comunicação?

De facto, Paulo Campos, Secretário de Estado Adjunto das Obras Públicas e das Comunicações, apenas realçou o óbvio: uma greve geral ( feita pela generalidade dos trabalhadores) é sempre uma greve parcial (porque essa generalidade de trabalhadores optou por uma das partes do conflito).

enfeirar o livro

na feira do livro, à noite, homens e mulheres dentro de barracas fecham os casacos até ao queixo a queixarem-se do frio. estão fartos, dizem. não há cultura que aguente tão pouca gente a andar acima e abaixo o parque. colocam-se as expectativas todas em vender uns livros, os livros que "ninguém quer lá no armazém", como ouvi dizer a um canto. colocam-se as expectativas e a esperança em alguns milhares de pessoas que não compram livros o resto do ano, porque devem ter melhores maneiras de gastar o dinheiro, como passar férias na neve, comprar bilhetes de bancada central para os oitavos-de-final da liga dos campeões, usar sempre roupa de marca bem visível ao fundo de qualquer rua. esquecem-se, como é normal ser esquecido quando se é editor, quando se é livreiro, que quem compra os livros são sempre as mesmas pessoas, durante o ano inteiro, que ir à feira do livro não é como ir ao algarve, que mesmo o algarve vai perdendo muita clientela porque um tipo passa a fronteira e em isla cristina tudo é mais cuidado. essas mesmas pessoas de sempre, as que compram livros, vão à feira procurar qualquer coisa que não compraram antes porque era demasiado caro, e não criam facturação aos senhores das barracas. essas mesmas pessoas de sempre, as que compram livros, ficam um tanto exasperadas por faltar informação, por faltar animação, por faltar tudo aquilo que bem poderia ser como o algarve (debates entre escritores, anúncios de novidades para os meses futuros, encontros de comunidades de leitores, sessões de leitura pública...). que não vende. que ninguém se interessa. e então volta-se a fechar o casaco até ao queixo para se queixar do frio, dos horários, da pouca gente. volta-se a fechar a barraca, até, na esperança que amanhã apareçam os outros, os que não lêem.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Haiti

todos nós procuramos um paraíso que desconhecemos - um lugar onde nos vamos sentir bem - mas à custa de quem? olhamos pouco para os olhos uns dos outros quando toca a fazer algo que nos doa (ou mesmo quando apenas é preciso estender uma mão, dizer uma palavra sem gaguejar). para os poemas, como lamentou Roque Dalton, ficou então a função de, mais do que palavras, alertar as pessoas, criar novos campos de imaginação, chamar-nos para o que é nosso e para o que devia ser. um poema impede-nos de ficar calados - e quanto grita um coração perante um poema mais forte do que um punho. por isso eu cresço perante as palavras de Caetano Veloso, em Haiti:

Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados

segunda-feira, 28 de maio de 2007

5 poemas de Roque Dalton


¿Para qué debe servir
la poesía revolucionaria?

¿Para hacer poetas
o para hacer la revolución?

ARTE POÉTICA 1974

Poesía
Perdóname por haberte ayudado a comprender
que no estás hecha sólo de palabras.

27 AÑOS

Es una cosa seria
tener veintisiete años
en realidad es una
de las cosas más serias
en derredor se mueren los amigos
de la infancia ahogada
y empieza a dudar uno
de su inmortalidad.

O.E.A.

El Presidente de mi país
se llama hoy por hoy Coronel Fidel Sánchez Hernández.
Pero el General Somoza, Presidente de Nicaragua,
también es Presidente de mi país.
Y el General Stroessner, Presidente del Paraguay,
es también un poquito Presidente de mi país, aunque menos
que el Presidente de Honduras o sea
el General López Arellano, y más que el Presidente de Haití,
Monsieur Duvalier.
Y el Presidente de los Estados Unidos es más Presidente de mi país,
que el Presidente de mi país,
ese que, como dije, hoy por hoy,
se llama Coronel Fidel Sánchez Hernández.

REVISIONISMO

No siempre.

Porque,
por ejemplo,
en Macao,
el opio
es el opio del pueblo.

Roque Dalton (El Salvador, 1935- 1975)

gestos mínimos

estava a pensar em ti e em como os teus olhos se podem tornar um labirinto onde nos perdemos. somos frágeis humanos, tu e eu, cedemos muito facilmente à sede renovada um do outro. estava em ti e em como o teu sorriso me cativa - e em como gestos mínimos ganham-nos da lucidez por tanto tempo construída. somos frágeis humanos, todos nós - custa-nos viver da sinceridade das ondas do mar, que crescem ou desaparecem consoante vontades insondáveis - custa-nos aceitar que somos assim, incapazes de manter o tempo todo a vontade toda - e tantas vezes perdemos na cegueira a que nos submetemos estas pequenas coisas que nos dão um pouco mais de força, por um pouco mais de tempo.

preparação do poema

encontro o poema devagar - ficou esquecido no papel, guardado com cuidados entre outras páginas escritas de menor valor, não sinalizadas. encontro o poema e olho-o como quem procura um sinal do tempo que passou - o que restou? o que sobrou? quantas linhas ainda ficaram por preencher passados tantos dias?
passo-lhe os dedos pela face e tento escutá-lo - estou a aprender a reescrevê-lo, é isso quando se faz quando se apaga o tempo entre a escrita e a leitura, entre a criação e a sublimação das palavras. passo-lhe os dedos pela face, volto a abrir o meu coração - estava bem capaz de sentir bater em mim esta sensação de finalizar uma obra que fosse perfeita.
sei que nada acaba nunca, muito menos um poema. sei que os vou transportar a todos comigo, sempre impulsionado pela tentação de querer refazer, repensar, aquilo que já foi grafado pelas máquinas no papel. sei que nada acaba nunca, muito menos um poema - coisa a que até já se dá número de registo e título com direitos de autor, mas que segue fluíndo até ao silêncio que há-de ser a morada de todos os nós.

sábado, 26 de maio de 2007

Pequeña Antología para el Cuerpo



Está a chegar a Pequeña Antología para el Cuerpo, uma série de 22 poemas de minha autoria, publicados pelo Ayuntamento de Punta Umbria (Huelva, Espanha), no âmbito da colecção Palavra Ibérica. A tradução é do especialíssimo Manuel Moya e contou com a revisão do meu querido amigo António Alías. A capa é a escultura "Corpete" da Leonor Brilha.

10
Não sei bem ao certo mas como o imagino é um corpo pequeno a correr
por ruas ainda por fazer. Não sei bem ao certo mas como imagino a situação
são pedras pelo chão e terra e talvez num dia nebuloso ou talvez isso seja só um
acrescento da imaginação a tudo aquilo que eu estou a imaginar. Não sei bem ao certo
mas como eu o vejo é a ser surpreendido numa esquina, atrás de uma árvore,
qualquer coisa. Como os estranhos se aproximam de uma pessoa e falam.
Isto pode explicar todos os medos que vieram depois desse dia e se espalharam
como água que sai de uma máquina de lavar avariada. Não sei bem ao certo mas
também eu nunca sei nada bem ao certo. Não sei bem ao certo mas foi assim,
assim mesmo que se passou. Agora me lembro e quando me lembro dói-me o pénis,
sinto-o desaparecer. Agora que me lembro os meus olhos deixam de ver as coisas
como é habitual aos meus olhos verem as coisas e começo a ver as coisas
de outra maneira em que parece um túnel entre mim e o mundo e depois
estão todas as coisas longe de mim e depois eu estou ali na mesma, mas
como os olhos vêem aquilo. Os meus pés começam também a ganhar outras formas
e essas formas nem sempre se adaptam bem ao chão e como não se adaptam ao chão
eu tenho medo e quando tenho medo, não sei bem ao certo, mas acho que ele também
teve medo há muitos muitos anos atrás e fico com o medo dele e do medo dele
eu vejo uma pessoa grande e com barbas que se aproxima e lhe fala como falam
os estranhos, o medo cresce, dá vontade de fugir, mas nem os olhos nem os pés
nem nada em mim/nele é como é costume ser e não se consegue fazer mais nada .

10
No lo tengo claro, pero tal como lo imagino es un cuerpo pequeño corriendo
por las calles todavía sin levantar. No lo tengo claro pero tal cual imagino la situación
son piedras por el suelo y tierra y quizá en un día nuboso, o tal vez sólo sea
un añadido de la imaginación sobre todo lo que estoy imaginando. No lo tengo claro
pero como yo lo veo siendo sorprendido en una esquina, tras un árbol
algo. Como los extraños se acercan a una persona y hablan.
Esto explicaría todos los miedos que vinieron tras ese día y se desparramaran
como el agua que sale de una lavadora averiada. No lo tengo claro
pero tampoco es que yo tenga nada claro. No sé si claro, pero fue así,
fue tal que así como pasó. Ahora me acuerdo y cuando me acuerdo me duele el pene,
lo siento desaparecer. Ahora que me acuerdo, mis ojos dejaron de ver las cosas
como es habitual a mis ojos ver las cosas y comienzo a ver las cosas
de otra manera en que parece un túnel entre el mundo y yo y luego
están todas las cosas lejanas a mí y luego estoy yo, como siempre, pero
como los ojos ven aquello. Mis pies comienzan a ganar otras formas
y esas formas no siempre se adaptan bien al suelo y como no se adaptan al suelo
tengo miedo y cuando tengo miedo, no lo tengo claro, pero veo que también él
tuvo miedo hace ya muchos muchos años y me quedo con el miedo de él y de su miedo
yo veo una persona grande y con barbas que se acerca y le habla como hablan
los extraños, el miedo crece, dan ganas de huir, pero ni los ojos ni los pies
ni nada en mí / en él es como suele ser y nada se puede hacer.

sábado

o tempo é sempre mais fresco ao sábado de manhã, mesmo quando o calor aperta verão adentro. as pessoas andam mais leves pela rua, o trânsito chateia menos, os homens cumprimentam-se. mesmo quando é uma manhã de trabalho, é uma manhã de trabalho leve, sorridente, sossegado. é sábado de manhã.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

The Doors

A melhor banda de sempre.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Os Malvados de Dahmer

André Dahmer, um dos mais ácidos cartonistas da rede, lança agora a fantástica "A Cabeça é a Ilha".

Para quem não sabe do que estou a falar, o melhor é ir já já já espreitar o site dos Malvados.
quando digo que vivo dentro da literatura, não posso esperar que todos aqueles que me rodeiam e gostam de mim possam dizer o mesmo: por eu ter desistido de viver no mundo dos outros, não significa que o mundo dos outros tenha desistido de mim. é por isso que demoro tanto tempo a perceber que o que faço ou escrevo pode magoar quem mais gosta de mim. o mundo fica injusto, assim, desiquilibrado. quando o meu bem te faz chorar.

um país como os outros

Diz o Rui Costa, mas não o futebolista, que "os únicos parolos são os que têm medo de parecer parolos". Nada de mais certo. Mas lamento sentir que esse é um fenómeno demasiado enraizado na consciência portuguesa - ou não encontro outra explicação para que todos, os quase todos, aqueles que experimentaram juntar no seu trabalho as raízes portuguesas (ou da língua portuguesa) com as novas influências sejam postos de lado ou vistos como ovni's sem destino. Estou a falar do António Variações (de que os Humanos, apesar de muito interessantes, são uma cópia pateta), do José Afonso, do José Mário Branco, do Alexandre O'Neill, e, mais recentemente, daqueles que no mundo musical vão trazendo para a praça as influências negras da cultura portuguesa, como o Melo D ou os Buraka Som Sistema. Falando-se ou não deles, para todos se encontrou um cantinho invisível e respeitoso para os arrumar. Mas que fazer, Rui, Portugal é mesmo só um país.

dia mau

a generalidade das pessoas tende a levar a sua vida mantendo as aparências. vai-se evitando o choque simplesmente pela distância um dos outros, fugindo aos confrontos. quando se trabalha com uma ideia, seria de esperar que todas as pessoas do grupo pudessem estar conscientes do alcance dessa mesma ideia - mas isso é algo que se vai tornando impossível de atingir, ou porque as coisas são mal explicadas ou porque não estamos sequer disponíveis para perceber o que nos rodeia. a incompreensão vai criando um ruído enorme no nosso pensamento, o trabalho perde qualidade, as novidades já não saem, começa-se a olhar mais para as dificuldades do que para as oportunidades. o coração bate descompassado, por não conseguir encontrar o ritmo que julgava que era o seu. ao contrário da generalidade das pessoas, tenho muita dificuldade em manter as aparências. custa-me a sorrir, fico com olheiras, ando mais devagar, mais pesado. apaga-se uma luz qualquer que, em vários outros momentos, aparece muito acesa. e isso aguenta-se porque vai ser "só mais um dia mau".

Citação da música dos Ornatos Violetas "Dia Mau"
Ilustração de Valex

Entrevista ao Cultura, Arte & Literatura

A Sandra Martins convidou-me para ser entrevistado. Eu aceitei.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Oeste Infantil | Festa da Criança 2007


Stand da Livrododia
Valex 2007
escrevo e apago uma série de começos para esta entrada. queria ser capaz de dizer este silêncio mas não sou.

O Último Rei da Escócia

Não há vida que explique a força de um ser humano - é preciso ter, mais que tudo, os olhos bem abertos, a mente esclarecida. Nicholas, parte para o desconhecido, em busca de aventura. Talvez se sinta como Ulisses, capaz de atravessar o mundo e quebrar todas as regras, que sempre haverá quem o espere em casa. Mas Nicholas aprende que casa é o lugar onde se está a cada momento, casa é sobretudo o lugar que nos inquieta, porque mexe com os nossos sentimentos mais profundos, com o nosso amor, com a nossa compreensão, com o nosso próprio equilíbrio. Não há vida que explique a força de um ser humano e, no entanto, alguns seres humanos parecem conseguir ir além de toda essa brutalidade possível que tentamos imaginar. O general Amin será um desses casos. Forest Whitaker, que recebeu o Óscar por esta actuação, consegue-nos transmitir o terror de conviver com ele, mas não nos dá a menor pista para o entender. Talvez seja isso o que mais dói, ao sairmos dobrados sobre nós próprios da sala de cinema.

Título: O Último Rei da Escócia
Realizador: Kevin Macdonald
com Forest Whitaker e James McAvoy

homem com h

disseram-me que os homens são fortes, que trabalham o dia inteiro, que trazem comida e dinheiro para casa, que compram as prendas para os aniversários, que jogam futebol, que marcam golos, que nos defendem quando corremos perigos. disseram-me que um homem seria isso. eu não sou assim. e já nem sei contar o quanto isso me deixa, a maior parte das vezes, perdido, dentro de mim mesmo.

terça-feira, 22 de maio de 2007

diz que existe e que está para começar

Feira do Livro de Lisboa
Feira do Livro do Porto

Cá por mim, só vendo...

aprender a citar

Parábola:
é mais fácil às pedras
terem seu lugar no mundo
do que aos corações
duas mãos onde assentar.

Rute Mota, Nenhuma Palavra nos Salva, em breve, na Livrododia Editores

ascensão e queda de um macho latino

aos 14 anos, ele apalpou-lhe o rabo e ela quis beijar-lhe loucamente a boca. ficaram namorados. durante não mais que três semanas. nada que pudesse resistir às férias de natal. entre os colegas da turma, ele ficou com a fama de conseguir transformar monjas em namoradeiras. trabalhos difíceis, portanto, aos 14 anos. hoje, passado imenso tempo, não se falam. e cada vez que ele se dirige à caixa onde ela trabalha, para pagar pequenas compras de circunstância, ela olha-o como se de um traidor da pátria se tratasse.

para o Lourenço

segunda-feira, 21 de maio de 2007

As Sete Estradinhas de Catete

A primeira sensação, ao nos aproximarmos deste livro, é de uma certa leveza: as personagens em pose pacífica para uma objectiva, em frente de um autocarro, sorriem a calma da infância, cheia de todos os sonhos possíveis. O próprio título parece querer transportar-nos para um qualquer lugar idílico, há muito abandonado, mas que nós acreditamos ainda poder recuperar, as sete estradinhas de Catete. No entanto, chegamos à página 207 e encontramos isto:

"Contudo, também neste grupo os do terceiro ano não perdem muito tempo: acabam de descobrir a cereja do divertimento: um caloiro, sim, mas preto!
- A este vamos fazer-lhe as sete estradinhas de Catete!- gritam uns.
- Não nos escapas, nharro! - atiram outros. [...]
Atiram-no ao chão e, para que se acalme, dão-lhe biqueiradas. Quando o lábio aparece cortado, sentam-no, mantendo sempre bem seguros os braços, pois já se serviu deles para distribuir uns bons murros. Então, a tesoura entra em acção e, partindo de uma clareira no alto da cabeça, vão fazendo sete carreirinhos [...]"

Para bem da verdade, não era preciso esperar tanto. Desde a primeira frase que este romance não engana ao que vai: violência. Não é uma violência qualquer, é toda a violência da vida, pelos olhos de uma criança que vai deixar de o ser para no-la contar. Enquanto avançamos no livro, sentimos cada vez mais o objectivo do autor - toda a verdade deve ser revelada, toda a verdade deve ser colocada perante os olhos de quem lê. E então nada aqui é contado, como se fosse uma história, como se fosse uma ficção - é-nos colocado perante os olhos, de uma forma crua e inocente, dura e complacente, como só o sabe fazer esta criança, Guilherme, filho de um capitão da Força Aérea, um militar consciente da fragilidade da situação em que se encontra Angola no período em que decorre a acção - entre os anos de 1971 e 1974.

Digo que desde o início está latente a violência dos acontecimentos desta narrativa, mas mais uma vez, há qualquer coisa de idílico no cenário: os pais de Guilherme são um jovem casal que vagueia pelas colónias ao sabor das missões do pai, um militar que, pela sua posição, mantém (pelo menos na aparência) as mãos limpas. Guilherme é um aluno razoável, à procura da sua afirmação entre os amigos (que desde cedo se vai fazendo ao soco e com asneiras, ao contrário do que poderia esperar a sua mãe, professora na Missão). A situação está aparentemente controlada, aparentemente, apenas. Tudo se vai desmoronar a partir do exacto momento em que a narrativa começa. Guilherme começa a revelar demasiada rebeldia, o casamento dos pais entra em deriva e todo o país pega fogo. Se ainda não sabe o que era ser preto em Angola antes da Revolução, se ainda não sabe o que é ser português, se ainda não sabe dos limites do ser humano, em As Sete Estradinhas de Catete vai presenciá-lo da forma mais violenta: tendo tudo isso escancarado perante os seus olhos.

Esta narrativa é uma experiência emocional fortíssima e Paulo Bandeira Faria surpreende-nos com a sua qualidade técnica ao manter ao longo das 365 páginas do seu livro um elevado ritmo nas frases e na forma como emprega sabiamente o discurso, de maneira a nos revelar sempre bem perto dos olhos (sempre demasiado perto) o que é preciso sentir e viver durante a experiência de leitura desta obra. Se o tempo nos permite começar a olhar este período histórico como pertencente a uma experiência colectiva que merece ser pensada e explorada, nada nos poderia preparar para uma estreia desta qualidade. As Sete Estradinhas de Catete é um romance que não pode passar ao lado de quem se queixa que não existem bons romancistas portugueses. E também prova como a História de Portugal nos pode servir de argumento suficiente para um romance de primeiríssima qualidade.

Título: As Sete Estradinhas de Catete
Autor : Paulo Bandeira Faria
Editora: Quidnovi
Ano: 2007

futebol

Sinto um certo pudor em escrever sobre futebol e quem me conhece à distância fica sempre entre o surpreso e o defraudado quando se apercebe que domino a constituição dos plantéis de várias equipas de muitos campeonatos, a lei do fora-de-jogo e associadas, a história de milhares de encontros disputados nos confins da memória. Esse pudor em escrever sobre futebol está directamente ligado à facilidade com que imensa gente se deita a dar opinião sobre o pequeno delito futebolístico, o jogo que se ganha, a falta que o árbito não assinalou, o discurso que o dirigente repetiu: há um imenso barulho à volta de tanta coisa que acrescenta pouco à arte e à beleza do futebol. É, provavelmente, para escapar a esse barulho todo que quase nunca escrevo sobre futebol. E foi por pensar nisso hoje que percebi porque decai a qualidade da democracia ocidental - não temos quem eleve uma voz de qualidade no meio deste foguetório todo.
Mas não foi, Jorge, não foi.

por falar em mãos na terra


Philippe Delerm, autor de Mister Mouse ou a Metafísica do Terreiro, em breve, na Livrododia Editores

solidão

num espaço pequeno dentro de nós, uma luz esforça-se por se manter acesa - tem a voz fina, uma aparência frágil se a pudessemos ver, os dedos tremem-lhe. num espaço pequeno dentro de nós, onde mal nos conseguimos mexer, essa luz sente os ventos e os sopros que insistem em apagá-la - e quantas vezes não se sente isolada de tudo o resto, apesar da insistência contínua das tempestades. num espaço pequeno dentro de nós, parece que tudo vai caber a cada dia, a cada chegada - e se corremos tanto é por não sabermos bem onde parar, neste reduzido espaço que cada um tem para si. às tantas, sentimos esse aperto na garganta e parece que nos vai custar respirar - esse aperto é a possibilidade de imensas pessoas de todos os pontos do mundo poderem chegar até nós com um simples click, uma simples ligação ao satélite ou à rede certa. mas é quando voltamos a esse espaço pequeno dentro de nós, quando podemos puxar para cima dos ombros o lençol, quando podemos caminhar à chuva e pôr as mãos na terra, que sabemos como esse pequeno espaço é infinito. e, nesse dia, sorrimos de maneira diferente.
certos livros acertam-nos como pedras grandes no peito - esse lugar onde se mistura o coração, a emoção e o ponto de equilíbrio que nos vai tentando manter de pé. certos livros acordam-nos durante a noite, fazem-nos ter pesadelos e ficar de olhos abertos no escuro depois de os termos fechado. certos livros são como bombas-relógio, que vão fazendo tic-tac durante dias e dias e acabam por nos explodir nas mãos, na última frase. acabei de passar por um livro assim (um livro destes não se lê, passa-se por ele) e ainda não sei quando vou recuperar.

inquietação

há sempre qualquer coisa que está a acontecer, diz o José Mário Branco numa música que me volta à cabeça muitas e variadas vezes - aliás, nem precisava de vir a música, a minha cabeça já sabe isso mesmo, só precisou do JMB para entender com palavras aquilo que tentava explicar. uma vez, à mesa de um bar, lembro-me de dizer que gostava de tirar férias da minha cabeça, inventar uma forma de deixar de pensar, durante uns minutos, pelo menos - e o que eu procurava, sei-o agora, era parar o tempo, fazê-lo desaparecer, e colocar-me numa dimensão em que nada me inquietasse, nada me tocasse suficientemente forte para perturbar esse silêncio. mesmo que não pareça, agora já sei como isso é impossível - é impossível parar quando tudo em mim é sensibilidade à flor da pele.

sábado, 19 de maio de 2007

livros

simplesmente não consigo parar de comprar de livros, de pedir livros, de receber livros. quantos mais livros vou amontoando pela casa - depois das prateleiras ocuparam-se mesas, cadeiras, deixaram-se até alguns livros pelo chão - mais livros desejo ter, para os poder namorar demoradamente com o olhar, para sentir a segurança de ter sempre algo que ler, a qualquer momento que me apeteça. assim, para além dos livros, persigo todos os lugares onde os livros são guardados em grandes quantidades - livrarias, bibliotecas, casas de outros viciados - e delicio-me perante as pequenas maravilhas que vou descobrindo aqui e ali. como nesta fotografia da Atlantis Books, livraria improvável fundada por uns quantos ingleses de passagem na ilha grega de Santorini, que um dia, certamente, não evitarei visitar.

message in a bottle

não estou mais sossegado, nem pressinto que seja agora que a paz venha a reinar dentro de mim. simplesmente ganho a consciência de que a vida é uma linha contínua, de nada valendo pensarmos que vamos mudar total ou radicalmente com o passar dos anos. vamo-nos conjugando em diferentes tempos verbais, consoante a idade, consoante aquilo que os nossos olhos nos permitem ver e pensar. agora já sei com o que conto, depois de uns dois anos iludido (uma vez mais) com o "já me passou", "já não volta a acontecer". sim, acontece sempre, aquilo que nunca deixou de estar cá dentro. como é que eu explico isto se me custa a falar? não sei. tenho um nó que não me deixa sequer dizer que o nó existe. os olhos só choram quando estão fechados em casa, longe de outros olhos. as mãos, as pernas e os braços tremem muito quando é de noite. sim, gosto de estar sozinho. mas não pela solidão. basicamente prefiro ficar nesse mundo em que eu me deixo estar comigo, não sabendo estar com mais ninguém. não é um espaço cheio, não. é um espaço que vai ficando por ocupar. e onde cada sorriso é uma terra desconhecida que se volta a encontrar, depois de tanto tempo no deserto.

festa da criança

Parecia um projecto impossível, tornar um pequeno espaço de três por três metros num lugar de fantasia e contacto com o mundo cheio de imaginação que os livros nos podem dar. Agora estamos prestes a consegui-lo. Temos os três por três metros mais bonitos e saborosos da Festa da Criança e quem não achar o mesmo que tente fazer um chocolate gigante em esferovite melhor do que o nosso. Assim que lá cheguei hoje de manhã e vi os enormes quadrados retirados da capa do livro do Burro Pateta, um enorme sorriso infantil tomou conta de mim. Acho que deve ter sido um sorriso igual ao de todos aqueles que abrandam o passo para olhar, nem que seja de raspão, para esse mundo cheio de imaginação que está a nascer dos dedos da Vanessa. E toda a gente, não importa o tamanho, volta a sentir-se enorme, do tamanho de uma criança.

A Imagem é a capa do livro O Burro Pateta da Livrododia Editores. Vamos tentar arranjar fotos do espaço.


estamos quase sempre prontos para receber o que desejamos, quando essa coisa nos parece impossível de obter. é a forma do ser humano dispôr, sabiamente, das consequências de cada acontecimento.
percebi a forma como me olha quando me disse que não me percebia.
Os livros estão espalhados em cima das várias ilhas, aos montes, à espera que alguém se sinta atraído pela capa, por uma palavra, pelo título, pelo nome reconhecido do autor. Os livros estão um pouco desarrumados, ao sabor das mãos que os tocaram, provaram, tentaram perceber se era esse o livro certo para os acompanhar. Naquela hora logo a seguir ao almoço, a livraria é assim, calma, quieta, quase silenciosa, não fosse essa música a tocar baixinho no leitor de cd's. Sim, é sábado. Sim, sabe bem estar aqui.

intercidades

O comboio seguia no seu ritmo, desta vez sem atrasos. eram sete da tarde, um sol quente aquecia as páginas d' As sete estradinhas do Catete, o livro que me acompanhava na viagem. A sensação de fome, pela distância horária e fragilidade do almoço (uma salada de frango). Levanto-me e dirijo-me até à carruagem do bar, onde uma série de homens viajavam calados. Ao rondar o balcão para ver a comida disponível, apercebo-me: uma mulher com uma mini-mini-saia conversa, alegramente, com o empregado. Atrás dela, sentado num dos pequenos bancos do bar, o pica-bilhetes ameaça inundar o chão de toda a carruagem. Quando volto a sentar-me no confortável banco da 1ª classe (já não havia bilhetes disponíveis em turística, Coimbra, sexta-feira), fecho os olhos por dois minutos e volto a esquecer-me que estou em Portugal.

aos seus lugares

agora, algo completamente diferente.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

uma linha escorregando pelo universo

sento-me em frente ao computador para escrever um poema, essa maneira indigesta de fazer colidir palavras com espaços em branco, linhas inventadas no olhar, réguas, ausências por preencher, era isso o que eu queria dizer: repetir-me ao infinito, usar das mesmas palavras, das mesmas expressões, ser, apenas e só, um fantasma que volta outra vez ao mesmo lugar, aqui, sentado em frente ao computador.

a dor não é uma dor sentida - lágrimas a escorrer pelo rosto, manhãs difíceis de acordar, noites inteiras com o álcool como incerto companheiro - a dor não é uma dor sentida, é uma carta que se escreve sem destinatário, uma imagem que nos passa pelo olhar sem realmente lá estar, como um sonho, um pesadelo, um fantasma, outra vez, ou uma outra entidade existente para além da dimensão do meu conhecimento, que apesar disso mesmo, eu reconheço.

sento-me em frente ao computador para escrever uma dor, esse poema indigesto a fazer-me colidir palavras como incertas companhias - sento-me em frente ao computador e toda a palavra é um artifício para não se ir a lado nenhum: ficar aqui, apenas, aqui apenas. da minha mão que treme deixo fluir mais umas quantas frases que até para mim parecem já ter perdido todo o sentido: estar a vê-as, assim, a despenharem-se contra o espaço. sento-me.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Este "Mário Mata"-me

"Há dias de manhã que nem de tarde se deve sair à noite"

domingo, 13 de maio de 2007

Eurovision

In love for a drag queen

Eurovision 2007 - Ukraine

Dancing!

quinta-feira, 10 de maio de 2007

catarata

olho os meus sapatos alinhados junto à parede, no corredor. que horas são, esta manhã, não sei dizer, só sei que oiço na rádio notícias de desaparecimentos e desencontros, novidades mais ou menos estafadas da mesma política de todos os dias - sensação de repetidos, apenas isso. saído do banho, sinto o meu corpo lavado das coisas da noite: sonhos maus, algum suor, algum frio, uns quantos espirros. qualquer coisa que sai assim, com um banho.

abro o frigorífico como o programado há vários meses, há vários anos, na minha cabeça. procuro a mesma embalagem de iogurte, olho a mesma mesa, virada para a mesma janela. misturo bolachas no iogurte e na rádio a mesma conversa, a mesma conversa. penso no quão triste pode ser a literatura quando é assim, repetida, mastigada, programada. uso palavras que a mim me arrepiam, que me dizem pouco. estou deslocado no mesmo lugar onde sempre estive.

esta é a minha casa, escrever-te isto é como se te convidasse a entrar. podes ficar aí, junto à porta. eu procuro entre os meus livros algumas frases que possa usar quando, na rua, as pessoas se dirigirem a mim, para me dar os bons dias, para me falar dos problemas da vida ou das crianças. eu desço as escadas mecanicamente, calado, como a senhora das limpezas usa a esfregona para desinfectar alguns lugares onde nunca ninguém passa. qualquer coisa que sai assim, com um banho.

versão em verso em: http://prazeresminusculos.blogspot.com/2007/05/catarata.html