sábado, 21 de abril de 2007

a velha

puxava a manta sobre os joelhos e cantarolava uma modinha que lhe havia ensinado sua avó, há muitos mais anos do que se poderia lembrar. era assim que passava os dias - cabeça enquadrada na janela com vista para a rua onde, agora, circulavam carros muitos e todas as pessoas que, a caminho do trabalho, do recreio, faziam com que a antiga vila se tivesse transformado numa tão grande cidade.

puxava a manta sobre os joelhos, a modinha não a consigo ouvir, pois estou a observá-la à distância de, vá lá, alguns milhares de quilómetros, eu para contas quase nunca tive jeito. juntando a esses quilómetros também uma série de anos que nem dedos tenho para contar: as contagens são, na sua essência, lamentavelmente melancólicas, sempre sinalizando a falta ou o excesso desnecessário.

puxava a manta sobre os joelhos, fumava um cigarro (porque haveria de ser que chegada a velha lhe quisessem proibir a rebeldia) e cantava e tossia: o neto passeava pela cozinha à procura de bolachas enquanto a filha lhe arranjava a cama e lhe sugeria um passeio. mas era este enquandramento, a janela, as vila a fazer-se cidade, o que lhe interessava - pessoas a caminho de casa, dos amantes, livros aos montes, sem precisarem de ser escritos.

segunda-feira, 2 de abril de 2007