segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

estação

sem falsas promessas, posso dizer que espero o comboio na mesma estação de sempre. aqui sentado sinto o vento frio deste inverno que tarda em terminar. trouxe o casaco comprido, é o mais quente que tenho. sem falsas promessas. como estas paredes, esta estação à beira da estrada, onde pouco ou nada quer acontecer.

apanhei uma flor do pequeno quintal ao lado da estação. seguro-a com as duas mãos. fecho os olhos e tento imaginar de novo a noite em que estivemos juntos. foi há quinze, vinte anos, não sou já bem capaz de acertar com estas contas. agora passo aqui os dias, nesta estação. sem falsas promessas, sem dizer a mais ninguém o que vai acontecer a seguir.

espreitei para dentro da estação mas já não vendem bilhetes. fico à espera, no mesmo banco de sempre. o inverno, era capaz de te o dizer umas quantas vezes ao ouvido. escrevo poemas como quem fuma cigarros, acendo uns com os outros. quando não tenho um, peço-o emprestado a um livro qualquer que tenha na prateleira. coisas que acontecem.

chegaram a querer fazer de mim um mágico. vestiram-me a rigor, compraram-me facas de fingir, caixas de fundo falso, todo o tipo de equipamentos. arrajaram-me uma assistente espanhola, com um nome exótico. marcaram-me espectáculos por todo o lado. mas isso foi antes de te conhecer. não podia fazer outra magia assim. continuo à espera do comboio que não passa nesta estação.

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