sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

assim era o meu país

era já tarde nessa noite em que ele saiu pela porta de casa em busca de cigarros e algum álcool, a hora não pode precisar, não se lembra, o que sabe é que estava deste há muito tempo sentado à mesa da sala, com um copo sempre a encher-se e a esvaziar-se com o vinho e as aguardentes que tinha guardadas pela casa, em prateleiras, em armários, na pequena divisão em que a sua esposa arrumava os víveres e os produtos de limpeza da casa.

era já tarde, era seguramente já muito tarde nessa noite, saiu pela porta de casa em busca de cigarros e algum álcool, a hora não pode precisar, os cigarros tinha-os fumado todos, dois maços inteirinhos comprados para o fim-de-semana e uma caixa de cigarrilhas espanholas compradas na última ida a Badajoz com a família, em cima da mesa estava um cinzeiro e um prato com restos de um queijo e alguns restos de gordura de um chouriço agora envoltos em cinza.

era já tarde, era mesmo muito tarde, ela nunca ficara fora até tão tarde, mas quando chegou a casa do trabalho lembra-se de ter visto um papel a indicar que tinha ido à missa à vila, com a irmã, que fazia anos que morrera a filha e ela ia sempre à missa todos os anos naquele dia, desse por onde desse, mas a missa acaba às oito, e depois o tempo passou e telefonou para a irmã dela e a irmã disse que estava doente, que não tinha ido à missa sequer.

era já tarde, era tão tão tarde, estava tudo fechado, mas foi bater à porta da casa do Ruivinho, que tinha uma adega e vendia vinhos para fora, talvez tivesse também alguns cigarros, às vezes acontecia que sim, bateu à porta da casa do Ruivinho, bateu com violência, diz o auto da GNR que estava completamente fora de si quando foi capturado, era já de manhã, no meio de um pinhal a três quilómetros da vila, duas horas e meia depois dos corpos de Joaquim Afonso da Silva, conhecido por Ruivinho, e Ana Maria de Sousa, sua esposa, terem sido encontrados mortos na adega do primeiro.

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