terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Grande Entrevista

Lourenço Bray, auto-denominado o grande escritor português do futuro, deu-se ao trabalho de ir jantar fora comigo e fazer-me uma grande entrevista que, certamente, há-de marcar o panorama literário português nas antologias publicadas daqui a cem anos. Enquanto não sai em livro, poderão ler esse grande momento de conversa entre dois portugueses (ok, o Lourenço é oficialmente belga, mas para o caso pouco importa) no blogue O Nascer do Sol.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

assim era o meu país

era já tarde nessa noite em que ele saiu pela porta de casa em busca de cigarros e algum álcool, a hora não pode precisar, não se lembra, o que sabe é que estava deste há muito tempo sentado à mesa da sala, com um copo sempre a encher-se e a esvaziar-se com o vinho e as aguardentes que tinha guardadas pela casa, em prateleiras, em armários, na pequena divisão em que a sua esposa arrumava os víveres e os produtos de limpeza da casa.

era já tarde, era seguramente já muito tarde nessa noite, saiu pela porta de casa em busca de cigarros e algum álcool, a hora não pode precisar, os cigarros tinha-os fumado todos, dois maços inteirinhos comprados para o fim-de-semana e uma caixa de cigarrilhas espanholas compradas na última ida a Badajoz com a família, em cima da mesa estava um cinzeiro e um prato com restos de um queijo e alguns restos de gordura de um chouriço agora envoltos em cinza.

era já tarde, era mesmo muito tarde, ela nunca ficara fora até tão tarde, mas quando chegou a casa do trabalho lembra-se de ter visto um papel a indicar que tinha ido à missa à vila, com a irmã, que fazia anos que morrera a filha e ela ia sempre à missa todos os anos naquele dia, desse por onde desse, mas a missa acaba às oito, e depois o tempo passou e telefonou para a irmã dela e a irmã disse que estava doente, que não tinha ido à missa sequer.

era já tarde, era tão tão tarde, estava tudo fechado, mas foi bater à porta da casa do Ruivinho, que tinha uma adega e vendia vinhos para fora, talvez tivesse também alguns cigarros, às vezes acontecia que sim, bateu à porta da casa do Ruivinho, bateu com violência, diz o auto da GNR que estava completamente fora de si quando foi capturado, era já de manhã, no meio de um pinhal a três quilómetros da vila, duas horas e meia depois dos corpos de Joaquim Afonso da Silva, conhecido por Ruivinho, e Ana Maria de Sousa, sua esposa, terem sido encontrados mortos na adega do primeiro.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

estação

Estação de Runa, Torres Vedras

estação

sem falsas promessas, posso dizer que espero o comboio na mesma estação de sempre. aqui sentado sinto o vento frio deste inverno que tarda em terminar. trouxe o casaco comprido, é o mais quente que tenho. sem falsas promessas. como estas paredes, esta estação à beira da estrada, onde pouco ou nada quer acontecer.

apanhei uma flor do pequeno quintal ao lado da estação. seguro-a com as duas mãos. fecho os olhos e tento imaginar de novo a noite em que estivemos juntos. foi há quinze, vinte anos, não sou já bem capaz de acertar com estas contas. agora passo aqui os dias, nesta estação. sem falsas promessas, sem dizer a mais ninguém o que vai acontecer a seguir.

espreitei para dentro da estação mas já não vendem bilhetes. fico à espera, no mesmo banco de sempre. o inverno, era capaz de te o dizer umas quantas vezes ao ouvido. escrevo poemas como quem fuma cigarros, acendo uns com os outros. quando não tenho um, peço-o emprestado a um livro qualquer que tenha na prateleira. coisas que acontecem.

chegaram a querer fazer de mim um mágico. vestiram-me a rigor, compraram-me facas de fingir, caixas de fundo falso, todo o tipo de equipamentos. arrajaram-me uma assistente espanhola, com um nome exótico. marcaram-me espectáculos por todo o lado. mas isso foi antes de te conhecer. não podia fazer outra magia assim. continuo à espera do comboio que não passa nesta estação.

porque hoje é dia 1

Numa época de extrema barulheira (máscaras, música, cerveja, gritaria), tudo o que me sai é este silêncio que não sei explicar de outra forma. Uma reacção discreta à minha própria animação.

sábado, 10 de fevereiro de 2007

uma história de amor - uma história: amor - [onde se começa a perceber que o amor e os livros, enfim, são dois tópicos de algo estranho e muito maior]

vamos agora dar início à enumeração de palavras difíceis no seguimento da original troca de piropos entre o homem1 e a mulher1 do livro-x que serviu de inspiração à teia poética engendrada por rapaz1 de modo a tomar de amores raparigabonita1, escolhida no cardápio dos corações depois de raparigamesmomuitagira-uau-35 lhe ter dado uma tampa daqueles à moda antiga fingindo não o conhecer à entrada da escola.

vamos - interrompemos aqui o nosso programa para vos anunciar que descendo as escadas vem mulherinteressante1 e sorri nesta direcção [pausa dramática] sim, confirma-sem nesta mesma direcção, sorriso em crescente, aproxima-se e [pausa mais que dramática] beija-nos a face e segue correndo em direcção à rua [momento de respiração acelerada, bate bate coração] - vamos então dar início.

vamos - dar início: mistura um tanto ou quanto abstracta em que alguém parece querer transformar ao momento da entrega [dar] uma carga de novidade e total abertura de campo perante aquilo que poderemos depois ver - vamos dar início à enumeração: raparigabonita1 aceita a dramatização de rapaz1 e inauguram-se as possibilidades de sucesso perante a possibilidade, antes tão distante, de um amoroso acontecimento.

vamos - íamos. numa ida à biblioteca municipal, raparigabonita1 tira da prateleira da Literatura o livro-x [resumo: neste livro Andy, tomado de amores pela bela Emily, decide inventar uma série de peripécias que conquistarão a atenção da tímida menina e, quem sabe, até o seu coração] - dando início, agora que estamos tão perto do fim, a momento não menos dramático. Na prática da leitura raparigabonita1, primeiro emocionada com as parecenças entre a literatura e a realidade, rapidamente se depara com um "petit nom" que lhe dissipa as nebulosas.

íamos - oh darling love how far you drive me crazy - rapaz1 tinha-se dado ao trabalho de procurar no original, mas uma nota de tradução deita agora tudo a perder. raparigabonita1 envia sms que denuncia o grande clímax: traz-me um livro, esta tarde - rapaz1 treme, um livro, ele só conhece aquele livro, que outro livro lhe poderá levar, e tomado por um certo tom de desespero deixa-se ficar fechado em casa, deitado na cama, a ver um daqueles filmes estúpidos da televisão, onde os rapazes, senhores de estratégias simples e repetidas, conquistam sempre as raparigas bonitas.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

comboios, sol e chuva

o meu poema é o teu poema é o meu poema é o teu poema. deito a cabeça para trás no comboio e tento decidir-me entre adormecer ou ler mais um pouco. o meu poema? correr à volta do mundo com uma mala pesada debaixo do braço, comprar jornais e ler todos os livros de todas as prateleiras do mundo. o teu poema? um sono forte que me toma as pernas, os braços, o corpo reservado.

e então assim - estamos onde? - o comboio pára e é meio da viagem, a conversa de duas mulheres no banco em frente, a chuva que se desvanece por um sol nortenho. estavas capaz de dizer que esta história é um relato real de uma viagem e eu digo-te que não. olha bem em volta, um poema. um homem em pé, à porta, a fumar um cigarro. a partir de agora é sempre a piorar. assim seja.

vemos melhor as coisas quando estamos tomados pelas leituras que temos na cabeça. uma criança ao meu lado e quem é aquela rapariga que nos vem entrevistar? recomeço: um poema um poema um poema, o meu e o teu poema, quantas vezes mais ainda te poderás deitar à sombra sem que o luar te venha chamar ao fim do tempo. e então o poema era sobre o quê? não bem um poema, qualquer coisa que fica sempre por dizer.